Perfídia

“Peraí, você nem vai assistir o filme?”
“Não, só queria te chamar pra sair.”
“Mas você pagou o ingresso!”
“É, não me deixariam entrar de outra forma.”
“Já que você está aqui, e eu disse sim…”
“Ah… Não tem nada aqui que eu queira ver. Além de você.”

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Suspiros

Ela, é sempre ela. Que chega no silencioso rufar da noite, invadindo meus sonhos.
Não, ela não pede licença.

Quando a conheci, estava calada. Lia algum livro, o cabelo preso displicentemente, as mãos distraídas enrolavam um cacho rebelde. Sentava encostada a uma árvore. Estava linda, e desejei conhecê-la. O desejo foi maior que minha timidez, e fui até ela. Eu mesmo quase não ouvi o meu “olá”. Ela olhou para cima e depois para mim, por instantes que pareceram horas. “O Calouro Sério!” ela disse, e pude perceber ali que ela já me conhecia por completo. Tentei esboçar um sorriso, que não saiu. Felizmente tive uma ideia melhor: “Também conhecido como Edgar. Muito prazer.” Pude perceber um leve sorriso quando ela olhou para o lado, convidando-me a sentar. Continuar lendo

Duas Mordidas

A situação era mais que familiar àquele ponto. Quando um novo funcionário entrava pela primeira vez no escritório, um grupo de veteranos o circundavam, tal qual hienas, alimentando-se das respostas desconcertadas às perguntas mais embaraçosas que se pode imaginar. Isso se fosse um homem. Fosse mulher, a horda seria um pouco maior e os comentários um pouco mais agradáveis. Eu nunca participei. Não precisava. Sabia que bastava esperar para que viessem à mim. Não que eu seja importante, nem necessariamente mais interessante. Na verdade os recém-chegados vinham à mim sem que eu precisasse dizer uma palavra, enviados pelos próprios colegas.

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A Mensagem de Noca

Para se distrair da tranquilidade às vezes excessiva da pequena cidade onde morava, Noca inventou um passatempo: catalogar e vigiar dinheiro. Especificamente, o caminho que as notas fazem, os ciclos eternos dos pequenos pedaços de papel que passam de mão em mão. No começo ela fazia pequenas marcas nas notas que recebia de mesada, um discreto ponto à lápis em um canto. Tão discreto que jamais reencontrou uma nota marcada, o que a fez desconfiar que seu método precisava ser melhorado. Um pouco à contragosto – não queria sentir-se responsável por desfigurar o que ela considerava uma obra de arte – escolheu uma das laterais menores, onde havia sempre um espaço quase sem desenhos, e passou a escrever pequenas mensagens alegres. Já que ia optar pelo vandalismo, que ao menos tivesse a chance de iluminar o dia de alguém. Assim, toda sua curta mesada passou a ganhar um “Bom Dia!”, um “Aproveite o dia!” ou mesmo um “Você é especial!”, cuidadosamente escrito na lateral, na cor que mais se aproximasse à da nota. Essas começariam a voltar.

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