Desintoxicação

Ela precisou de vinte minutos para esquecer que o celular tinha ficado no carro, cinco ou seis quilômetros atrás. Os mesmos vinte minutos de trajeto necessários para estar longe o suficiente para não ver mais a clareira onde tinha estacionado. Ela não era uma pessoa sedentária, mas parecia que aquela era a caminhada mais longa que já tinha feito, e ainda não tinha andado nem metade do que precisava para chegar lá. Lá. Ela percebeu que sequer sabia onde era o “lá”. Estava seguindo a trilha como tinham falado para ela. Nenhum eletrônico, só o essencial. Vá por este caminho até achar a cabana. Não saia da trilha. Estava andando desde manhã, e ainda não tinha chegado. Não sabia que horas eram, de qualquer forma, seu relógio no carro com o resto das coisas que ela valorizava tanto. Julgando pela posição do sol sobre sua cabeça, teve o palpite de que fosse perto de meio-dia. Nenhum sinal da cabana. Olhando para trás, nenhum sinal do carro, nem da estrada. A mochila ficando mais pesada a cada passo. Continuar lendo

Mesa para Quatro

Eu estava só no bar do restaurante, esperando nossa mesa ficar pronta, esperando por todos. Eu sempre gostei de chegar cedo nos lugares, ser quem espera. Normalmente, não fico ansioso. Sento em algum lugar, beberico um drinque, leio um livro. Tenho tempo de observar, de ficar tranquilo. Além disso, odeio estar atrasado. Desta vez, eu não conseguia beber, ler, observar. Certamente não conseguia ficar tranquilo. Já cheguei aqui ansioso. Fiquei nervoso o dia inteiro, mesmo na noite passada. Droga, eu comecei a ficar preocupado no momento em que marquei o jantar.

Aquela seria a primeira vez em que minha futura esposa iria se encontrar com uma das minhas melhores amigas. Continuar lendo

Sorte

O velho enrugado à sua frente parecia não ter forças para segurar a tigela que ele logo encheria com sopa. Quando encheu, o ancião fez um último esforço para chegar a tigela perto do rosto e cheirou. Era como se ele não pudesse acreditar na sua sorte. O jovem que o serviu sentia o mesmo. Continuar lendo

Sobre a Colina

Eu estava no alto da colina, observando os passageiros entrarem no trem que os levaria para outra cidade, como já tinha feito inúmeras vezes. Observava o vai-e-vem de pessoas e malas, famílias despedindo-se, funcionários checando a composição, apertando parafusos, colocando óleo. Gostava do ritmo particular que a pequena estação tinha nesta época. Logo cedo, antes do trem chegar, as poucas pessoas que ali estavam ocupavam os bancos, alguns lendo um jornal, outros verificando as malas, um impaciente, de pé, olhando o relógio a cada três minutos, eventualmente uma mãe ninando um bebê. Continuar lendo