Mesa para Quatro

Eu estava só no bar do restaurante, esperando nossa mesa ficar pronta, esperando por todos. Eu sempre gostei de chegar cedo nos lugares, ser quem espera. Normalmente, não fico ansioso. Sento em algum lugar, beberico um drinque, leio um livro. Tenho tempo de observar, de ficar tranquilo. Além disso, odeio estar atrasado. Desta vez, eu não conseguia beber, ler, observar. Certamente não conseguia ficar tranquilo. Já cheguei aqui ansioso. Fiquei nervoso o dia inteiro, mesmo na noite passada. Droga, eu comecei a ficar preocupado no momento em que marquei o jantar.

Aquela seria a primeira vez em que minha futura esposa iria se encontrar com uma das minhas melhores amigas.

Não qualquer amiga, não apenas minha melhor amiga. Ela é aquela que eu sempre quis que fosse algo mais. E eu sei que ela quer também. Por que nunca aconteceu está além da minha compreensão. E não é como se não tivéssemos oportunidades de dizer isso um para o outro, ou de fazer qualquer coisa. Estudamos juntos. Nos víamos praticamente todo dia durante anos, dentro e fora da escola. Quase duas décadas de amizade. Quase duas décadas querendo que virasse algo mais. Quase duas décadas de quase beijos, de quase dizer, de quase simplesmente se deixar levar.

Eu amo minha noiva, não me entenda errado. Só acontece que eu amo minha amiga também. Faz sentido? É, pra mim também não. Quando a conheci, minha futura esposa, não estava procurando por amor. Não procurava por nada. A conheci meio que por acidente, não conectamos logo de cara. Achei estranho quando ela começou a me mandar mensagens de celular, e mais estranho ainda quando comecei a responde-las. Não dá para ter uma conversa muito profunda quando há um limite de caracteres. As quatro ou cinco primeiras vezes que nos encontramos foi por acaso, ou ao menos eu acho que foi. Sempre a mesma coisa. Eu estava lá, onde quer que fosse, e de repente chegava uma mensagem. “Você por aqui também?” Eu olharia em volta, ela se esconderia um pouco, apareceria atrás de mim. Ela sempre gostou desses joguinhos. Eu não ligo muito, mas foi divertido por um tempo. No último desses encontros antes da gente começar a ficar, ela estava indo embora quando eu cheguei. Ou assim ela me fez acreditar. Ela me deu um beijo na bochecha e disse “já que você vai ficar me seguindo, talvez a gente devesse marcar um encontro de verdade”. E saiu. O encontro de verdade aconteceria na semana seguinte e, anos depois, aqui estamos. Aqui estou, esperando.

Ela conhece a história, minha amiga. Ela conhece todas as histórias. Ela estava comigo na maioria das vezes, mesmo se nunca chegou a conhecer minha noiva. Ela era a amiga que me ouvia quando eu ficava pensando e decidindo o que fazer com aquela garota que ficava me mandando mensagens. Ela até teve a ideia para algumas das respostas. Ela gostava dos joguinhos. Lembro dela dizendo “tenho que conhecer essa garota. Gosto do estilo dela.” Ela é a amiga que, depois da terceira ou quarta vez em que eu e minha noiva estávamos no mesmo lugar ao mesmo tempo, começou a procurar também, perguntando se aquela garota ali era a tal das mensagens. Nunca era. “Talvez eu deva fazer de conta que estou flertando com você, para chamar a atenção dela.” “Como assim? Você não está sempre fazendo de conta que está flertando comigo?” E nós dois riríamos, ambos sabendo que era verdade. “É, precisamos parar com isso. É por coisas como essa que eu nunca arranjo um cara legal como você.”

Ela fez tudo ficar fácil pra mim, minha então namorada. Não apenas era ela que controlava o joguinho da paquera, era ela também que marcava os encontros, fazia a relação avançar. “Então, este é o terceiro encontro. Você sabe o que isso quer dizer.” Nunca conheci uma garota tão confiante. Nunca consegui entender como ela pode se interessar por um cara como eu. “Tem várias garotas interessadas em caras como você. Tem várias garotas interessadas em você, você só é muito inocente para perceber. Eu só sou aquela que resolve fazer algo a respeito.” Ela então me contaria tudo que as outras garotas fazem para chamar a atenção dos homens, todos os pequenos truques que eu não enxergava. Eu poderia passar o dia inteiro escutando ela falar. Passei, algumas vezes. E ela também gostava de me ouvir, o que não é fácil. Não sei exatamente quando me dei conta de que estava apaixonado. Mas ela falou primeiro, fazendo ficar fácil pra mim.

Eu percebi que ela ficou com ciúmes, minha amiga. De vez em quando ela deixava escapar um “ela conseguiu o homem perfeito.” Eu argumentava que perfeito é um conceito em mutação. Mas o dela nunca mudou. Sempre que ela descrevia o homem perfeito pra ela, parecia comigo. Uma vez em disse isso pra ela. “É, mas você já tem dona.” Era o que ela sempre dizia. Eu devia ter lembrado de falar sobre isso quando ambos estávamos solteiros. De qualquer forma, eu sei o que ela provavelmente diria. “Não quero arriscar a nossa amizade. É importante demais pra mim.” Até hoje, nenhum de nós sabe ao certo como começou, mas entre todos os colegas de sala, de repente nos demos conta de que estávamos juntos mais do que os outros. Quando a situação mudou de “aquela garota das mensagens” para “minha namorada”, ela começou a ter ciúmes. Ela não admitia, claro, mas eu já a conhecia bem demais. As pequenas mudanças quando ela estava comigo. Ela evitava encontrar com a minha namorada, sempre tinha outra coisa pra fazer quando eu tentava colocar as duas no mesmo lugar. Talvez ela tenha percebido algo diferente também. Eu estava namorando quando nos conhecemos, mas como era só o começo da amizade e, como revelou-se mais tarde, o final daquela relação, talvez não importasse tanto. Agora importava.

Do lado dela, minha noiva estava ansiosa para conhecer a minha amiga. Ela queria conhecer a garota de quem eu sempre falava. A garota que sempre estava do meu lado quando “acontecia” dela estar no mesmo lugar que eu. “Ela é bonita, disso eu sei.” Ela também tinha visto fotos. E eu falava dela, da minha amiga, o tempo todo. “Queria saber se você fala de mim pra ela o mesmo tanto que fala dela pra mim.” Pronto, uma pontinha de ciúme. Elas tinham ciúmes uma da outra e nem se conheciam ainda. Uma vez eu tentei tranquilizar minha namorada. Disse que tinha outras amigas, outras garotas no meu círculo de amizades. “Mas é diferente quando você fala dela. Você fala com amor na voz, e não é amor de amigo. É amor amor.” Não podia negar. Mas negava. Tinha que negar. Eu mesmo não entendo direito, mas eu sei que dizer “amo vocês duas” não seria a melhor resposta. Não havia uma melhor resposta.

Para minha sorte, os incidentes de ciúmes não eram comuns, nos dois lados. Na verdade, um tempo depois as duas simplesmente ignoravam o assunto. Agiam como se a outra não existisse. E eu inconscientemente comecei a fazer o mesmo, sabendo de cara que não era uma boa estratégia. Só não queria magoar ninguém. Especialmente essas duas. Eu me apaixonava diversas vezes, pelas duas. Eu sou assim. Mesmo quando já estou apaixonado, alguma coisa simples, algum gesto quase insignificante me faria me apaixonar novamente. Pelas duas. Ao mesmo tempo.

Ficava melhor quando ela tinha alguém, minha amiga. Mas nunca durava. Ela tem uma espécie de processo repetitivo. O cara mostra interesse nela, ela rejeita, depois aceita, depois se deixa cortejar. Então começa a ficar com o cara, às vezes até começa a namorar. Ela sempre me conta do seu eterno conflito de não se sentir tão a fim do cara, mas gostar de estar com ele. Algum tempo depois ela arranja alguma desculpa esfarrapada para terminar. E depois ela se arrepende da decisão, percebe que gostava dele. Eu sempre estava lá. Conheci todos. Até gostei de alguns. Eu quase podia ouvi-la dizendo “mas eles não são você”. Isso era verdade. Nenhum deles chegava nem perto da descrição que ela fazia do homem perfeito.

Enquanto isso, a relação com a minha namorada crescia continuamente. “Você não é do tipo de fica por ficar”, ela diria. Minha amiga. Minha namorada e eu começamos a fazer cada vez mais planos juntos, para cada vez mais longos prazos. Escapadas de final de semana viraram viagens de quinze dias. Ela ficava cada vez mais na minha casa. E eu na dela. Tínhamos as chaves um do outro, e às vezes passávamos mais tempo na casa um do outro do que nas nossas próprias. Passar pra pegar algo que ela esqueceu, aquele livro que estou lendo ficou no seu apê, se vamos sair hoje à noite pega meu colete no meu armário, por favor. Às vezes nos desencontrávamos, cada um no apartamento do outro. Cadê você? Aqui, no seu apê. Por que não moramos juntos logo? Facilitaria muito as coisas. E por que não fazemos logo a coisa virar oficial? Já moramos juntos há mais de três anos, já estamos praticamente oficializados. É verdade, então vamos.

Então, ali estava eu, sozinho no bar esperando alguém aparecer. A música Breathless, da Corinne Bailey Rae, ficava repetindo na minha cabeça. Ela falando “eu devia ter me casado com você quando tive a chance” ficava repetindo na minha cabeça. Eu respondendo “é, devia mesmo” ficava repetindo na minha cabeça. Eu repetia na cabeça todas as ocasiões em que, abraçando e beijando como amigos fazem, quase nos beijamos como mais que amigos fazem. Todas as vezes que eu quis ter coragem de deixar meu rosto para um lado, para acabarmos nos beijando “sem querer”. Todas as vezes em que eu sei que ela pensou o mesmo. Sabe aquelas coisas que a minha noiva me contou, as coisas que as mulheres fazem para mostrar interesse? Eu reconhecia uma porção delas no comportamento da minha amiga comigo. Talvez ela tenha sempre esperado que eu falasse algo primeiro. Ela supostamente vem pro jantar com um cara. Eu conheci todos os seus namorados. Sempre fui o ombro no qual ela chorou quando acabava. Sempre soube que quando não conseguia encontrar com ela, isso queria dizer que tinha alguém novo. Desta vez não era assim. Quando eu marquei o jantar, ela disse que levaria alguém. Quem? Só alguém. Ciúme não é u algo que sinto com frequência. Quase nunca, e certamente nunca de alguém que nunca nem vi. “Você vai ter que encontrar com ela agora”, eu disse. “Não é mais só minha namorada.” Aqueles milissegundos de silêncio antes da reação dela, antes dela dizer “certo”. Eu praticamente podia ouvir alguma coisa se quebrando, nos dois lados da linha. Por que nunca aconteceu nada entre nós está além da minha compreensão.

E hoje finalmente elas se encontrariam. Eu basicamente tive que preparar uma armadilha para que acontecesse. Eu vi a reação nervosa de ambas quando não tinha mais saída. Eu não faço ideia do que vai acontecer, mas eu tinha essa ilusão de que conseguiria de alguma forma controlar a situação quando chegasse o momento, mas conforme o momento chegava eu só ficava mais ansioso. Era a espera mais longa de todas. Não sei qual das duas eu preferia que chegasse primeiro. Quando ela apareceu na porta, vestida como se tivesse vindo se encontrar com sua inimiga mais mortal, apaixonei-me novamente.

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