Longe

Eu me lembro de jogar queimada com a minha sobrinha no quintal da casa de veraneio do meu irmão. Ela tinha cinco ou seis anos, e corria e pulava como se sua vida fosse acabar se a bola a atingisse. Era ali, bem ali. Eu acho. É difícil dizer com certeza, milhares de quilômetros acima do solo, no limite do que podemos chamar de Planeta Terra. Eu olho uma última vez para a bolita azul, olho uma última vez para as leituras nos meus instrumentos, olho uma última vez para o meu registro de missão. Eu resisto ao impulso de quebrar o protocolo e contatar a base uma última vez antes de ir dormir. É por isso que me escolheram, porque sabiam que eu não o faria. Eles sabem que eu não me importo com a solidão. Ainda assim, é estranho pensar que a última vez em que você ouviu uma voz humana, ela disse “câmbio e desligo”. Mas é por isso que me escolheram

Quando eu acordo, estou desorientado e desidratado, meus músculos doem ao mínimo movimento. Não sei quanto tempo estive dormindo, quanto tempo passou. Checo o sinal sonoro, minha maneira de estimar quão longe de casa eu estou. É o mais simples dos mecanismos para um número tão grande. A base terrestre emite um único bipe todo dia, sempre na mesma hora. Meu computador analisa o tempo entre os dois últimos bipes e me diz quão longe eu viajei. Sessenta e três anos se passaram desde o último bipe, o que me coloca bem além do sistema solar. Também me coloca quase no final da escala de tempo do controle da missão, quando a equipe na Terra emitirá o último bipe. Emitiu o último bipe. Só não chegou a mim ainda.

Eu devo acordar de vez em quando, o corpo humano não consegue suportar um tempo indeterminado em sono criogênico. Eu devo fazer leituras, checar por exoplanetas, inspecionar a nave. Então voltar a dormir. Vinte horas, é tudo que eu tenho se nada digno de nota for detectado. Uma missão de um homem só foi escolhida porque isso aumenta significativamente o tempo de sobrevivência em uma nave plenamente abastecida. Mas, obviamente, todos estavam preocupados com os efeitos psicológicos no viajante solitário. Nenhuma inteligência artificial é tão sofisticada a ponto de substituir uma interação real. Eu não me importo com a solidão. Faço meu trabalho, minhas vinte horas, com a calma e a precisão de um monge.

Dezesseis horas na minha pausa desperta, estou prestes a ligar os sensores em busca de sinais de vida uma última vez, eu escuto um som. Não vem de um dos meus instrumentos, ou do computador. Veio de fora. Enquanto eu me aproximo da pequena janela, outro som, como alguém batendo. Quando eu olho lá fora – se é que observar a escuridão profunda do espaço pode ser chamado de olhar – várias outras batidas alcançam meu ouvido. Estou passando através de alguma poeira espacial, rochas minúsculas chocando-se contra a minha fuselagem. Pode ser um momento raro, algo acontecendo do lado de fora, então eu continuo olhando. Não vai durar muito, de qualquer forma. Mais alguns segundos e acabou. Mas tem algo mais ali. Não tem a forma de algo que poderia ocorrer naturalmente, mas meus monitores não mostram nenhum sinal de objetos artificiais ou de vida. Ainda assim, não há como negar. É uma nave, quebrada, mais ou menos quatro quilômetros ao meu lado.

Eu vou até a cabine de comando, checo se há alguma leitura que eu involuntariamente ignorei. Vou precisar mudar o curso para chegar perto da outra nave, mas isso é protocolo. É bem maior que a minha, e mesmo que seja possível dizer pelo formato que é artificial, não há nenhum outro sinal de que seja algo além de um meteoro aleatório. Não há janelas, nem buracos, nem mesmo posso dizer que lado é a frente. Minhas leituras continuam mostrando nada, mas meu instinto me diz para tentar atracar. Mas não consigo ver onde eu poderia fazer isso. Meu módulo de ancoragem foi desenhado com uma escotilha em mente. Eu escolho uma superfície plana no estranho objeto e atraco.

A princípio, o módulo simplesmente ricocheteia na superfície. No terceiro toque, entretanto, ele segura, e meus instrumentos começam a detectar algo. Não consigo dizer o quê. Não há sinais de atividade eletromagnética além do zumbido natural do espaço. Nenhum sinal de vida, de água, nenhuma radiação. Nada diferente de qualquer outro meteoro. Mas há algo nas leituras agora, algo que não estava lá antes. Se é uma nave, devem haver ocupantes. Mas eu não posso entrar antes de acessar os riscos. Protocolo.

Minhas vinte horas terminaram, e eu não consegui descobrir nada sobre o objeto atracado à minha nave. Só há uma coisa a fazer. Eu me visto e entro no módulo de ancoragem. Ele está firmemente seguro no objeto, mas não há nada realmente preso. Eu vejo à minha frente, no pequeno túnel circular onde estou, apenas uma superfície plana, mais ou menos reluzente mas definitivamente não metálica. Nenhum parafuso, nenhuma inscrição, nada. Eu chego perto para olhar melhor, e quando toco a superfície sinto algo que não consigo descrever, algo ao mesmo tempo familiar e novo. Já sei, é a mesma sensação que temos quando a energia volta depois de horas de blecaute. Mesmo sem nenhuma luz ligada, nenhum equipamento eletrônico em volta, a gente consegue saber que a energia voltou. É parecido com isso, eu sei que algo mudou. Minha mão ainda está na superfície, e ela se abre. Sem dúvida é uma nave.

A parte de dentro é igual a de fora. Só uma grande superfície com nada nela. Nada além do corredor pelo qual estou flutuando agora. Ainda sinto a sensação, o efeito de energia depois do blecaute. Não sei porque escolhi ir para um lado ao invés do outro, quando me dei conta já estava bem para dentro do corredor. Simplesmente pareceu natural para mim, agora que parei para pensar. Eu finalmente chego ao que poderia ser uma cabine, mesmo que seja só um espaço maior cercado pelo mesmo material. Há algumas alterações desta vez, algumas reentrâncias e saliências, algo que parece dividir o ambiente. Do outro lado disso, um ser. Um alienígena. A primeira forma de vida não-terráquea já encontrada pela humanidade. Está imóvel, como se estivesse deitado, mas não posso dizer com certeza já que não tem pernas ou braços.

Eu permaneço distante, sem saber o que fazer. Eu penso em tentar chamá-lo, mas temo que o sistema de som da minha roupa perturbe mais do que chame atenção. Não sei como, mas tenho certeza de que o alienígena está machucado. Não sei como, mas sinto vontade de ajudá-lo. Olho em volta, mas não há nada além das protuberâncias e dobras, nenhum equipamento à vista. Sinto uma impotência total, uma sensação esmagadora de inutilidade, tão grande que consigo sentir as lágrimas se acumulando nos meus olhos.

A sensação muda completamente, não consigo entender ou descrever. Viro-me para o alienígena e vejo-o se movendo, devagar e dolorosamente. Está olhando para mim agora. Não sei como, já que não tem olhos. Eu sinto uma atração na minha mente, uma coceira no corpo. Sinto gostos na minha boca. Uma cascata de emoções vindo do nada, como se alguém estivesse controlando meu cérebro. Não para. Então eu entendo. É o alienígena. Está se comunicando, está falando comigo mesmo sem ter uma boca. Não, é mais que isso. Está me examinando. Também está com medo e confuso, também não sabe se eu sou amigo ou inimigo. Eu sinto as pontas dos dedos, as solas dos pés. Sinto fome e satisfação. Sinto meu coração, meus pulmões, minha garganta. Lembro de memórias da minha vida toda. Sinto tudo de uma só vez. Sinto minhas genitais. Então tudo para. Tudo se transforma em confusão, e não sei porque mas a palavra “masculino” me vem à cabeça, e tudo está calmo novamente.

Sinto vontade de ajudar o alienígena novamente, de curá-lo. Mas agora eu sei o que fazer, e como fazê-lo. Simplesmente me ocorreu, a sensação de fazer, o conhecimento. Eu sei que preciso acessar o armário na parede, conectar este frasco no alienígena, colocá-lo nesta saliência. Eu sinto a nave, sinto onde tudo está, sinto que está me ajudando. Eu sei que o estou curando. Sei que estou ajudando. Uma forte sensação de completude me invade. Eu fiz bem.

O alienígena precisa descansar. Eu simplesmente sei. Eu sei que preciso deixá-lo em paz por um tempo, e que eu preciso ficar aqui, eu preciso continuar na nave, na cabine. Eu devo estar aqui, vigiando-o. Eu sinto o alienígena lentamente se afastando, a atração mental acabando, então mais nada, o blecaute, a energia acabou. Não o sinto mais, não sinto a nave. Eu fico lá, confuso, incapaz de me assegurar de que o que acabou de acontecer é real.

Eu me atenho à última sensação que tive. Não saia da cabine. Fique. Olho para o alienígena, tento restabelecer a conexão, mesmo sabendo que não cabe à mim. Tento com tanta força que começo a sentir algo. Mas não sou eu, nunca foi eu. É o alienígena. Está dormindo, sonhando. Eu simplesmente sei. Eu sinto. Eu sei que é um sonho bom, sinto seu corpo se curando. Eu sinto emoções novas, estranhas, sinto imagens, conversas. Sinto cheiros, texturas. É mais do que o meu cérebro consegue processar, e eu começo a tremer.

Ele acorda. Eu sinto o alienígena lentamente voltando do sono, completamente reposto, mesmo se minutos atrás estava machucado. Sinto que meu cérebro o acordou, minha inabilidade de entender esta comunicação o perturbou. Sinto desculpas. Sinto que não tem problema. É diferente agora. Eu consigo controlar um pouco, eu sei o que fazer. Eu sei que o alienígena sabe, nós sabemos que estamos agora compartilhando a conexão.

É como uma conversa, mesmo se nenhuma palavra ou som é enunciado. O alienígena está numa missão solitária, como a minha, por razões similares. Eles são formas de vida completamente diferentes, contrárias a tudo que temos na Terra, muito além do que podemos imaginar. E eu sou o mesmo para ele. Está curioso sobre os sentidos, sobre o conceito de “visão” e “audição”. Estou curioso sobre a conexão profunda que o alienígena tem com tudo à sua volta. Está curioso sobre os gêneros, quer saber o que significa ser “masculino”, quantos gêneros existem. Nós compartilhamos nossos conceitos de tecnologia, ciência, vida. Como nós, humanos, eles imaginavam que todas as formas de vida seriam baseadas nos mesmos princípios que as deles, então estava surpreso quando nada indicava que outro ser estava por perto quando eu estava ali. Está aliviado por ter ao menos uma forma de se comunicar, ainda que bastante superficial. Eu não consigo conceber nada mais profundo que isto, do que ter a conversa mais interessante da minha vida sem precisar abrir a boca. O alienígena quer saber o que é água, e porque é tão importante para nós.

Precisamos consertar a nave. Eu simplesmente sei, da mesma forma que sei o que fazer. Não há ferramentas, não há monitores, não há alavancas. Não há peças de reposição. Praticamente não tocamos em nada. Sentimos a nave, sentidos o que está errado, compreendemos a extensão dos danos. Então simplesmente guiamos a nave no processo de auto-reparação. O alienígena sente a minha confusão novamente, eu quero entender como isto funciona. A nave está viva, da mesma forma que nós. Agora eu sei, quando o alienígena transmite o conhecimento para mim. A nave é um ser, ainda que seja dependente. Só tem consciência quando está conectado a um ser dotado de livre-arbítrio, como nós. Como o alienígena. Não há ordens. As consciências conectadas simplesmente concordam sobre o que é preciso fazer. A nave nos diz o que aconteceu, como ficou danificada. Está satisfeita de sentir outra consciência ajudando. Está satisfeita com a minha presença ali.

Nosso trabalho terminou. Tudo está novamente operacional, mesmo que “operacional” nem sequer comece a descrever o que meu novo amigo e sua incrível nave conseguem fazer. Compartilhamos pensamentos e emoções por mais algum tempo, cada um ansioso para aprender tudo o que for possível do outro. Mas nossas missões ainda precisam ser completadas, nossos protocolos precisam ser seguidos. Eu deixo a nave, sentindo-me imediatamente triste e vazio. Então, sinto alegria e plenitude, através do alienígena, através do meu novo amigo.

É uma visão estranha agora, a minha nave. Não consigo afastar a impressão de que tudo é impessoal, de quão desajeitada é a necessidade de tocar em tudo. Apertar botões, girar seletores, olhar para telas, tudo parece pouco prático. É um ambiente estranho, bagunçado de equipamentos, cheio de combustível, alimentado a energia. Eu deixei a Terra num aparelho que representa a epítome da mente humana, da sua capacidade de alterar a natureza conforme a sua vontade. Agora tudo parece obsoleto, antigo, bárbaro.

Nossas naves retomam curso, afastando-se, provavelmente a última vez em que nos veremos. Eu estou acordado a mais de cinquenta horas agora. Quero ter certeza de que ainda sentirei a conexão não importa o quão longe estivermos. Eu ainda consigo sentir, através do meu amigo alienígena. Eu sinto que ainda podemos nos comunicar, como se estivéssemos na mesma sala. As ondas de rádio da Terra levariam milhares de anos para me alcançar, mas esta conexão, esta interação profunda, ela pode vencer qualquer distância. Não estou mais sozinho.

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Um pensamento sobre “Longe

  1. Você deu o pontapé inicial em um roteiro de filme de ficção científica ! Muito inteligente, intrigante e me fez imaginar: como seria o “meu”alienígena ?!!!

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