Carpintaria

Ela era calmo. Ele era sempre calmo. Ele andava e se movia e falava como se o tempo fosse pouco mais que um conceito abstrato. E, se pararmos para pensar, de fato não é? É verdade, ele estava pra lá dos seus setenta, mas eu não consigo imagina-lo sendo diferente enquanto jovem. Foi um prazer cuidar dele. Entre todas as histórias que se ouve de idosos molestando e humilhando seus cuidadores, é fácil ficar preocupada. Mas ele não era nem um pouco assim. Além de supervisionar as medidas de segurança quando ele trabalhava, a maior parte do tempo com ele era bastante agradável. Ele tinha um jeito se de fazer mínimo, de ser só o essencial, quase como se não estivesse lá. Eu gostava do jeito como suas mãos se moviam quando ele trabalhava, e aprendi a deixar a apreensão de lado. Anos de prática o levaram a saber exatamente o que estava fazendo, mas ainda assim era impressionante observa-lo manejando grandes pedaços de madeira e serras circulares afiadas. Eu gostava de estar lá para todo o processo, assisti-lo desenhar o plano em folhas de papel soltas, selecionar a madeira, cortar, colar e montar. Eu queria entender como tudo acontecia na sua mente, como ele era capaz de ver móveis tão bonitos em pedaços de madeira crua. Eu acho que era simplesmente parte dele, como todo o resto. Como seu hábito de ler jornais, o jornal inteiro, todo dia, separando os cadernos calmamente durante o café da manhã. Seus livros, seu vários livros, todos protegidos com uma capa exclusiva – na verdade papel de presente. Uma vez eu pensei ter perdido um livro lá. Inspecionando sua biblioteca eu o encontrei, encapado com um papel floral com o nome escrito à mão na lombada. Sua biblioteca era como nenhuma outra por causa disso. Seu gosto por ópera, como seus olhos ganhavam vida quando ele as assistia, mesmo na pequena TV de tubo, uma relíquia assim como ele. Ele era uma criatura de hábitos, marcando sua existência na simplicidade e essencialidade de quase não ser.

E ainda assim, quando ele se foi, sua ausência foi quase esmagadora. Como alguém que era tão pouco pode deixar um buraco tão grande? Sua partida foi tão pacífica quanto sua vida. Em algum momento entre terminar de montar um móvel e sentar para assistir ópera, ele tomou chá e tirou uma soneca. Sua última soneca. Eu soube no momento em que ele não acordou na hora certa. Fui ao seu quarto, o encontrei deitado perfeitamente reto, a boca ligeiramente aberta, como sempre. Eu nem quis ouvir a causa mortis, eu já sabia. Ele simplesmente partiu. Ele se reduziu ao ponto em que não era mais possível manter-se neste plano existencial. Ele levou consigo o seu quase não-ser, deixou no lugar uma ausência desproporcional. Foi-se o hábito de ler jornais, foi-se o gosto por ópera. Foi-se a carpintaria, o trabalho de transformar materiais crus em algo lindo. Foram-se nossas longas conversas tomando chá, assuntos existenciais tão importantes quando sua apreciação por palavras cruzadas ou nossa mútua vontade de viajar. Duas pessoas firmemente presas no lugar, sonhando com o que havia lá fora. Ele foi o idoso com quem fiquei mais tempo. Ele foi o idoso que menos precisou de mim. Eu não estava lá para cuidar dele, ele era bastante capaz de fazer isso sozinho. Eu simplesmente lhe fazia companhia. Mas pode-se dizer que ele, também, me fazia companhia. Naquele dia, no dia em que ele se foi, eu sentei e assisti a ópera que ele já tinha escolhido para mais tarde. Eu pensei que seria uma forma de me despedir dele, de terminar a nossa carinhosa relação.

Eu estava guardando meus poucos pertences quando me chamaram. Estavam lendo seu testamento, fazendo o seu inventário. E eu estava lá, ele me colocou lá. Eu recebi uma grande coleção de móveis, mais ou menos vinte peças, todas incrivelmente bonitas, todas com a marca do seu acabamento habilidoso. O tipo de móvel que simplesmente não se encontra mais. Madeira escura, cantos curvos, trabalhado à perfeição, decorado com fina marchetaria. Agradável de se olhar, peças que poderiam simplesmente ser colocadas em qualquer ambiente como decoração, e também poderiam ser usadas como os móveis que eram. Arte prática. As irmãs, suas filhas, disseram-me que eu poderia pegar qualquer outra coisa que quisesse na casa. Levaria algum tempo para coletar e catalogar tudo que estava lá, e em troca da minha ajuda, tanto com ele quanto com a casa quando ele se foi, elas me ofereceram qualquer coisa ali. Ele não era rico, mas tinha bastante dinheiro escondido entre várias contas em vários bancos. O suficiente para deixar um valor generoso para cada uma das irmãs, que já não precisavam do dinheiro. E todas elas já tinham um bocado de lembranças dele e casas plenamente mobiliadas. Eu acho que a intenção dele era que os móveis fossem uma espécie de fundo de aposentadoria para mim. Não sei quando valem, mas não consigo imaginar que peças tão bonitas não sejam valiosas.

Era a primeira vez que eu estaria sozinha, num lugar só meu, desde que saí de casa. Toda a minha vida eu trabalhei com idosos, vivi com eles. Era uma sensação estranha. Não apenas decidir onde colocar cada coisa, mas também sentir a sua presença nos espaços que eu estava decorando como se ele ainda estivesse ali comigo. Eu não conseguia resistir ao charme dos móveis que ele me deixou. Eu gostava de tocar as superfícies lisas, cuidadosamente lixadas e envernizadas para esconder qualquer diferença. Eu passava minhas mãos pelos tampos das mesas, pelos cantos arredondados. Mesmo embaixo e atrás, os lugares que ninguém vê, eram lisos e belos. Foi quase um choque quando encontrei um calombo, minúsculo, debaixo do tampo da mesa de centro. Eu me abaixei para olhar, não era o seu estilo deixar qualquer defeito nas peças. Não era um defeito. Um pequeno botão envernizado com uma cor ligeiramente diferente. Apertá-lo causou um clique. Eu dei um passo para trás, temendo ter quebrado algo. Quando vi que um segundo calombo maior apareceu na lateral, estremeci. Mas, como era para ser em tudo que ele fazia, não havia nada lá que não devesse estar. O pequeno botão revelou uma fina gaveta sob os cantos detalhados.

Eu sempre soube o quão bom carpinteiro ele era, mas o pequeno compartimento secreto encaixando-se perfeitamente com os cantos arredondados era também uma incrível obra de engenharia. Não havia espaço para muita coisa. Dentro, apenas um pequeno bilhete, dobrado uma vez. Quando peguei o papel, havia uma rosa dos ventos em marchetaria sob ele, extremamente detalhada. A mensagem no pequeno pedaço de papel estava dividida em três partes. A seção principal era a mensagem em si, mas parecia ser apenas um trecho, sem começo nem fim. No topo estavam um par de números separados por uma barra, e no rodapé estava o nome de outro móvel e uma indicação de posição. Não dava para entender direito o bilhete, já que era apenas um pedaço de um quebra-cabeças. Estava escrito em letras minúsculas, à mão. Eu conseguia reconhecer sua letra de forma, ele que não aprovava o quão pouco escrevemos à mão hoje em dia. 12/45, os números no topo. Teria eu encontrado sem querer a décima-segunda peça de um total de 45? O rodapé dizia mesa de cabeceira, atrás do suporte lateral direito.

Segui as pistas para todos os sete pedaços seguindo a instrução do primeiro que encontrei, e inspecionei os outros móveis que eu tinha procurando novas pistas. Todos eles tinham algo escondido, sempre um pequeno bilhete em cima de uma rosa dos ventos. Mas eu só tinha vinte peças, e elas nem estavam agrupadas. Eu tinha as partes 1 a 4, depois 8 a 10, 12 a 19, 22 a 23, e 25 e 27 sem nenhum par. Todo quebra-cabeça começa por algum lugar, então peguei o primeiro bilhete, 1/45. A mensagem era apenas “Viajar é viver”, uma frase de Hans Christian Andersen que eu conhecia bem, por causa dele. O rodapé indicava a estante de livros da sala, terceira prateleira de baixo para cima, seção da esquerda. Eu olhei para o papel por um longo tempo, tentando descobrir do que se tratava. Havia algo mais escrito acima da mensagem, algo que eu interpretei inicialmente como um título ou algo assim. Mas percebi que era na verdade outra pista. Dizia “o caderno.”

Eu tinha combinado de ajudar as irmãs com a casa, de qualquer forma. Quando cheguei lá, não tinha certeza se deveria contá-las sobre os bilhetes secretos, mesmo se a mensagem, da forma como estava se desenhando, não parecia ser endereçada para mim. Eu fui recebida com um pouco mais de gentileza do que eu esperava e logo descobri porque. Elas vinham trabalhando duro, mas estavam empacadas na parte de catalogar. Então eu também fui recebida com meia dúzia de caixas cheias de pequenos objetos que elas me pediram para reorganizar em algum tipo de ordem. Uma olhada rápida no que tinha nas caixas e eu sabia o que ele faria; a tarefa não levou mais que alguns minutos. Antes que pudessem me atribuir mais algo, me ofereci para começar com a sua oficina.

Eu o vi escrever no caderno mais vezes do que consigo me lembrar. Já conhecia sua letra. Mas ver era sempre uma grande surpresa. Nunca vi ninguém com uma caligrafia tão bonita. Era como se estivesse olhando para um daqueles convites de casamento, só que era um caderno cheio de datas, nomes, endereços e descrições de móveis. Ele escrevia com calma e precisão, como tudo mais que fazia. Ainda assim, era impressionante. Eu percorri rapidamente o caderno, tentando identificar as peças que ele me deixou. Reparei que algumas linhas estavam marcadas com uma pequena rosa dos ventos na coluna da direita, quase um asterisco. Quase, porque mesmo minúsculas como eram, era possível ver a estrela cuidadosamente desenhada, os detalhes. Elas estavam todas nas últimas páginas preenchidas do caderno. Todos os móveis que ele me deixou tinham a marca. Contei o total de rosas dos ventos no caderno, quarenta e quatro. Olhei todas as páginas novamente, contei mais duas vezes, mas realmente eram quarenta e quatro.

Essa foi a parte fácil. A maioria das linhas marcadas estavam completamente preenchidas e seria simples localizar o dono do móvel, mas algumas não tinham identificação do comprador. Eu corri para a casa, comecei a comparar as linhas não preenchidas com os móveis que ainda estavam lá. Era uma casa grande, antiga, não havia nenhum tipo de móvel que tivesse uma única unidade, então seguir pelo tipo de móvel marcado no caderno sempre levava a pelo menos duas tentativas. Tinha que tomar cuidado para não alertar as irmãs sobre as minhas intenções, então decidi realizar o mesmo ritual em todos os móveis ainda na casa. Se as irmãs perguntassem, eu poderia dizer que estava medindo para saber se algum deles poderia caber na minha nova casa. Os três primeiros móveis que inspecionei não tinham nada. Quando achei o primeiro com uma gaveta secreta, quase não consegui conter um grito de contentamento. No final, tinha cinco novas peças do meu excitante quebra-cabeças.

Eu estava ao mesmo tempo animada e apreensiva quando cheguei à minha primeira parada, o primeiro móvel marcado com a rosa dos ventos que não estava nem comigo nem na casa. Eu imaginei o que poderia dizer, que desculpa daria para ganhar acesso ao móvel. Escolhi o que estava mais perto, porque não tinha dinheiro suficiente para viajar até onde estavam os outros, um problema que eu teria que resolver depois. Eu imaginei que poderia vender alguns dos móveis da casa dele, já que as irmãs tinham praticamente me dado tudo, mas estava ansiosa demais com o quebra-cabeças e queria começar logo. A casa parecia com a dele, todos os sinais de adaptações e alterações desenhadas para facilitar a vida de pessoas idosas. Fui recebida por uma gentil senhora, que provavelmente estava solitária e desejando companhia. Ela me convidou para entrar e preparou um chá sem sequer questionar a história que contei a ela – decidi simplesmente contar a verdade. Eu não podia resistir a conversar com ela, ouvir suas histórias, visitar a casa e andar pelo seu jardim bem mantido. Quando ela decidiu que já tinha tomado muito do meu tempo, já quase tinha esquecido o motivo pelo qual estava lá. Ela me levou até o móvel, uma mesa de canto na sala de estar. Segui as instruções na nota anterior e a senhora teve um sobressalto quando ambas ouvimos o clique. “É por isso que o meu marido insistiu para que eu nunca me desfizesse disso!” Mesmo depois que eu contei a história, ainda assim ela se surpreendeu. Era fácil entender. Depois de já ter aberto vários compartimentos secretos, ainda prendia a respiração antes de abrir o próximo. Desta vez, junto com o bilhete, havia algum dinheiro. “Ele disse que você precisaria disso”, a senhora disse. Eu podia senti-lo vividamente então. Podia sentir que ele saberia que eu começaria por lá porque não teria dinheiro para ir mais longe.

Conforme eu continuava a minha caça ao tesouro, podia perceber a sensação de uma longa preparação que só uma mente paciente consegue conceber. Estava agora convencida de que eu era de fato a pessoa a quem a mensagem estava destinada, todos os passos demonstrando um conhecimento da minha personalidade que eu não sabia que ele tinha. Eu fui recebida com alegria e gentileza em todos os lugares pelos quais passei. Na verdade, assim como na primeira casa que visitei, eu me sentia esperada. Ele fez um trilha de migalhas de pão para eu seguir, e me levou a alguns lugares muito especiais. Alguns outros bilhetes tinham dinheiro, alguns tinham mesmo passagens sem data marcada prontas para serem usadas. Eu ouvi as histórias das pessoas que agora eram donas dos móveis, histórias sobre si mesmos, suas famílias, e sobre ele. Eles me contaram como ele gostava de viajar na juventude, como ele sempre estava disposto a ajudar a arrumar ou construir algo, como seu jeito calmo e gentil o mantinham distante e ao mesmo tempo muito próximo. Eu saboreei cada viagem, curta ou longa, tanto pela viagem em si, conhecer lugares diferentes e vaguear como sempre desejei, quanto por poder conhecê-lo melhor, cada pessoa me contando uma história que preenchia um pouco do espaço que ele deixou em mim.

O penúltimo bilhete, 44/45, indicava o lugar mais longe que eu teria que ir, Havia uma passagem junto, e o bilhete não indicava um outro móvel, mas uma flor. Não havia nada marcado no caderno, nenhum nome. Só tinha o endereço e a passagem. Mais uma vez eu estava ansiosa, como da primeira. Não apenas eu tinha chegado ao final da viagem, ao final da trilha, mas também iria finalmente ver a mensagem completa. Mesmo faltando apenas uma peça, ainda não fazia muito sentido, como se houvessem espaços que eu tivesse que preencher. Mas nunca consegui entender. Talvez a última mensagem vá preencher todos esses espaços, explicar tudo. Eu estava grata pelo que ele fez por mim, mas gostaria de saber o porquê.

O último lugar era tão distante que não havia nenhuma cidade por perto. Apenas uma casa solitária à distância, algo parecendo um celeiro em um dos lados, uma pequena construção no outro. Uma senhora estava na varanda assim que passei pelo portão. Idosa, bastante idosa, como ele. Ela sorriu quando me aproximei, me levou para dentro sem que eu precisasse dizer nada. Ela me fez sentar na sala de estar, chá para duas pessoas já pronto na mesa de centro. Eu perguntei como ela sabia que eu chegaria naquele dia. Ela não sabia. “Eu tenho esperado por você já faz algum tempo, desde que ele se foi. Todo dia, eu preparo chá e espero por você.”

Nós conversamos por horas. Ou melhor, eu ouvi por horas. Eles se conheciam desde jovens, desde adolescentes. Melhores amigos, que não conseguiram estar fisicamente perto mas nunca perderam contato. Ele a visitou, de tempos em tempos, o quanto conseguiu. Então, escreveram-se, ela me mostrou suas cartas, sua bela caligrafia preenchendo páginas e páginas. “Ele me contou sobre você. Me disse para te esperar.” Ela me levou para conhecer a propriedade, vários móveis feitos por ele por toda a casa. Eu olhei cuidadosamente para todos, procurando por uma flor na marchetaria. “Não está em nenhum desses.” Ela me levou até o lado de fora, até a construção à esquerda da casa. “Carpintaria era a sua paixão”, ela disse, “esta é a minha.” Uma estufa, quase grande demais para uma única idosa cuidar sozinha, diversos tipos de flor dentro. Ele construiu. Tocando as superfícies, as prateleiras onde estavam os vasos, eu conseguia reconhecer o seu trabalho, o seu cuidado. Mas e a última mensagem? Dentro da estufa, uma sala separada, para uma flor especial. A porta era tão bonita que poderia simplesmente ser pendurada do jeito que estava em qualquer galeria de arte. Decorado com curvas orgânicas, como se uma planta tivesse emprestado suas formas para fazer a porta. Os puxadores tinham duas pequenas flores entalhadas, suaves e delicadas como só alguém como ele conseguiria fazer, exceto que uma delas tinha uma pequena falha, dava para ver que tinha sido reparada mesmo que o trabalho tenha sido cuidadoso. A senhora pegou minha mão e a colocou sobre o puxador, bem em cima da falha. “Pode puxar, com cuidado. Não tenha medo.” O último compartimento secreto. Um pequeno papel dentro, mas a mensagem ainda não fazia sentido. A senhora pegou no bolso do avental que usava um envelope, o meu nome escrito na sua caligrafia inconfundível. Dentro, várias páginas de uma longa carta, com algumas partes faltando. Eu teria que levar para casa para preencher tudo, mas na primeira linha estava escrito “Sua jornada está apenas começando.”

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