Tomando Fôlego

Leva apenas cerca de 23 segundos. Assim que suas mãos tocam a água, rapidamente seguidas pelo resto do seu corpo, é como se ele tivesse entrado no seu elemento. Seus braços e pernas parecem, para quem vê de fora, se mover por conta própria. Sua cabeça, virando para baixo e para o lado, poderia muito bem ser interpretada como um sinal de alguém lutando para respirar. Mas ele está em completo controle do seu corpo, cada movimento consequência de muitas horas de treino. Ele não se importa com o a cadência da água respingando nas suas orelhas, ele nem mesmo escuta o barulho da multidão, torcendo mais para o evento que por um atleta em particular. O som abafado vindo dos seus protetores de ouvido são simplesmente ignorados. Ele não toma consciência dos outros nove nadadores nas raias vizinhas, ele poderia simplesmente estar sozinho. Toda sua concentração e determinação estão no seu próprio corpo, em tentar se deslocar o máximo possível com o mínimo de esforço. Braços para cima e para baixo, mãos formando uma leve curvatura côncava, pernas balanceando o movimento dos braços e dando impulso. Leva só cerca de 23 segundos para o público mas, uma vez que ele está dentro d’água, o tempo tem uma medida diferente. Até que ele toca a borda no outro lado.

Ryan ainda é um homem bastante em forma. Seus 1,95m continuam a chamar a atenção das pessoas de estatura média, mas ele não é mais reconhecido nas ruas da sua própria cidade. Na verdade, no fim das contas, Ryan é o prototípico homem ignorável. Sua vida passa através de uma série de pequenos infortúnios intercalados por poucos momentos de alegria. Como seus filhos. Cole tem 12 anos, um garoto espirituoso com um pendor para a leitura que Ryan não sabe de onde veio. Emma tem 7, e seu mundo ainda acontece prioritariamente dentro da sua cabeça imaginativa. Eles são tudo em que Ryan pensa, a razão pela qual ele continua tentando, apesar da sua incapacidade de se manter num emprego. Como um jovem e promissor nadador, ele teve permissão para se concentrar mais nas suas habilidades atléticas que na sua educação, uma má decisão tomada por todos os adultos à sua volta na época. Tudo que Ryan quer é evitar esse tipo de futuro para seus filhos, então a educação deles é a maior prioridade. Sua esposa se sai melhor que ele, mas não o suficiente para manter a família inteira sozinha, e de qualquer forma não é isso que Ryan quer. Do jovem promissor que ele foi, Ryan é agora um adulto medíocre, lutando para se conformar ao mundo à sua volta. Ele tenta com afinco mas continua falhando. E, quando mais ele falha, mais se preocupa, consigo mesmo, com sua família, com seus filhos. Ele não se deixa pensar nas promessas do passado. Ele quer se concentrar no agora, por pior que seja.

Sozinho dentro do vestiário, Ryan se alonga e escuta a multidão lá fora, torcendo para o último evento que aconteceu. Em alguns minutos ele estará na piscina, cercado de água como ele bem gosta. Ele sabe que estes próximos 50m, estes próximos vinte e poucos segundos, são decisivos. Ele sabe que treinou toda a sua vida por isto, sente-se pronto. Quando ele atravessa o corredor em direção à arena, ele se alimenta da luz e do barulho, respira profundamente o ar um pouco saturado. Tudo para no momento em que ele coloca os óculos sobre os olhos. Em cima da raia, ele se curva esperando o sinal, respira profundamente, a última inspiração antes de sair do outro lado da piscina. Assim que ele pula, tudo o mais some. Ele está sozinho, seu corpo e a água são tudo que existe. Braços e pernas se movendo, primeiro graciosamente enquanto o corpo está completamente submerso, então rápido e forte nos metros finais. Sua mão toca a borda, seu corpo relaxa, mas ele não perde a concentração ainda. Ele permanece na água, sua mão ainda tocando a parede. Ele permite que o mundo externo volte pouco a pouco. Ele sente a temperatura da água, o ar quente acima dela. Ele vê o azul claro do fundo da piscina, as cordas e flutuadores marcando as raias. Ele ouve o som dos outros nadadores ainda chegando. Leva só um momento. O barulho da multidão se intensifica, ele vê alguém correndo em sua direção. Ele tira os óculos, olha para o painel de resultados. Seu nome está no topo, seguido de quatro dígitos: 22.19. Ele conseguiu. Não apenas ganhou a competição, mas também se qualificou para os próximos Jogos Olímpicos. Ele se deixa respirar, sente seu treinador o puxando para fora da piscina, sente os abraços, tapinhas nas costas, até um beijo. Mas ele não cai em si até que ele se curve para a medalha, a 68ª na carreira que começou antes mesmo que soubesse andar direito. Ele se permite uma pequena sensação de conquista. De agora em diante, cada minuto será dedicado à próxima competição, aquela que vai levá-lo ao outro lado do planeta, junto com a elite atlética do mundo, para os Jogos Olímpicos de Sydney, 2000.

Avaliação de desempenho. Ryan já sabe o que vai ouvir. Ele sabe que não alcançou suas metas, ele sabe que não é o melhor funcionário, longe disso. Quando ele entra na sala do seu chefe, a moça do RH também está lá. Ele suspira e se senta sem dizer uma palavra. Ele ouve os dois explicando porque precisam fazer isso, como ele foi avisado várias vezes, como eles até investiram nele, o treinaram para que ficasse melhor. Ele não consegue explicar. Ele não pode nem mesmo dizer que estava fazendo o possível. Ele só quer que isso acabe logo. Tentar outra coisa, mais uma vez, até que ele ache algo que o sirva como vem fazendo nos últimos quinze anos. Sua expressão não muda durante toda a avaliação. Ele está cansado. Cansado dessa vida mal vivida, cansado de não se encaixar, cansado de não saber o que fazer. No final, eles o entregam um envelope, seu último pagamento junto com uma pequena indenização. Eles tentam oferecer conselhos, como conseguir outro emprego, como se qualificar. Ele simplesmente baixa a cabeça e sai. Quando chega em casa, ainda é o meio da tarde, não tem mais ninguém lá. Ele abre o seu armário de troféus pela primeira vez em muitos anos, permite-se lembrar do garoto que ganhou todas aquelas medalhas. Ele toca a última medalha que ganhou, na competição de 1999, quando a vida ainda parecia que seria ótima. Ele lembra da sua ambição, de como passava horas na piscina, como trabalhava duro pelo que queria. Ele se pergunta por que não consegue ser assim agora, como sua vida pode ter mudado tão dramaticamente. Ele não sabe quanto tempo passou olhando para suas antigas vitórias, o som do carro da sua esposa entrando na garagem o traz de volta à realidade.

É claro que conseguir patrocinadores e reconhecimento significam muito na vida de um jovem atleta. Mas para Ryan, o mais importante é poder se comparar a alguns dos seus ídolos. Como parte das vantagens de ter se qualificado para as Olimpíadas, ele obteve acesso a alguns dos melhores centros de treinamento do mundo. No prazo de alguns meses, ele treinou lado a lado aos melhores, não apenas confirmando que estava à altura do desafio, mas também vendo uma prévia exclusiva do que aconteceria nos Jogos. Ele nada de igual para igual com favoritos como Gary Hall Jr e Alexander Popov. Ryan está passando pelos melhores momentos da sua vida, o tipo de situação que não acreditamos possa ser estragada. Ele se dedica como nunca antes, pressionando até o limite e testando suas habilidades como se todo dia fosse o dia da competição. Em um dos seus treinamentos solo, ele chega a conseguir um tempo melhor que o recorde olímpico de Popov. Mas nem isso muda sua disposição. Pelo contrário, ter conseguido nadar abaixo do recorde o deixa ainda mais determinado.

Seus filhos estão muito felizes em ver o pai em casa. Eles o abraçam e beijam, e ele sente o amor incondicional que eles tem por ele. Cole começa a falar sobre a última tarefa que os professores passaram, como vai ser excitante pesquisar tudo aquilo na biblioteca. Emma não para de falar sobre o que aconteceu na sua sala, sobre todos os garotos que ficam a chateando, como a Sra. Henderson elogiou seus desenhos. Ela pega na sua pequena mochila uma folha de papel e entrega a ele. Nos seus traços infantis, ele consegue ver um homem no primeiro lugar de um pódio, uma medalha exageradamente grande em seu peito, segurando uma menininha nos braços. Ela diz que é ele, segurando ela, depois de ganhar as Olimpíadas. Sua esposa manda os filhos irem se lavar, coloca uma sacola de supermercado sobre o balcão da cozinha, o beija. Então ela pergunta o que ele está fazendo em casa tão cedo. A vergonha e tristeza em seu rosto são a resposta.

O intensivo de treinamento acabou, ele volta para casa para continuar praticando nas águas em que cresceu, desta vez tendo a piscina inteira para si. Ainda faltam meses para os Jogos, mas ele é recebido no aeroporto já como um herói. Ele é carregado pela multidão, agraciado com posters e ruas abertas. Mais uma vez, seu treinamento não deixa que tudo isso lhe suba à cabeça. Na sua mente, ele ouve “você chegou até aqui, agora é hora de trabalhar ainda mais duro para permanecer no topo”. E ele trabalha duro. Ele imagina Popov nadando na raia ao lado, ganhando distância, e se esforça mais. Ele imagina todos os possíveis resultados, estuda seus competidores. Ryan sabe que não é um favorito. Mas ele ainda é jovem, um dos mais jovens qualificados, e certamente vai competir nos Jogos Olímpicos novamente. Esta é apenas sua primeira vez, sua introdução. Cada vez que ele pula na piscina, ele imagina o Centro Aquático Internacional de Sydney à sua volta. Cada dia, seu objetivo fica mais perto. Ele vai fazer o melhor que pode com os poucos segundos que tem na água.

Eles tentam não falar sobre isso durante o jantar, evitar que as crianças fiquem chateadas, mas Sarah está tão preocupada quanto Ryan. Ela diz que está cansada de ser a única fonte de renda estável da família, como o dinheiro que ela ganha não é suficiente, como eles precisam garantir o sustento das crianças. Como ele precisa parar de sonhar acordado, começar a levar a vida a sério. Ryan escuta, sabendo que cada palavra é verdade, sabendo bem a profundidade da sua culpa. Ele se contém, sentindo-se completamente deslocado, jogado numa vida que não planejou e que não consegue entender. Ele fica quieto, sabendo que qualquer coisa que ele fale agora vai parecer uma explosão raivosa. Ele está muito cansado para discutir. Ele simplesmente aquiesce e baixa a cabeça. Ele tenta dizer que sente muito e que vai se esforçar mais, mas as palavras não vêm. Ele termina de lavar a louça e sai de casa enquanto Sarah está preparando as mochilas das crianças para amanhã.

Só mais duas semanas até os Jogos. As passagens estão compradas, os formulários do Comitê Olímpico preenchidos e enviados, passaporte em mãos. Ryan vai chegar uma semana antes da abertura, começar a se aclimatar, treinar na piscina onde as competições vão acontecer. Ele sente os ventos de um grande futuro, o futuro que ele trabalhou tão duro para conseguir. Nada pode dar errado. Mas dá. Bem quando ele estava conseguindo tocá-lo, imaginar-se ao lado dos grandes, ver seu nome nos painéis. Não foi fácil internalizar a notícia. Foi como um luto. Ryan começou ignorando o que aconteceu, agindo como se tudo estivesse normal e ele ainda fosse competir. Então, a raiva, tentar encontrar um culpado onde não havia nenhum, enfurecer-se com tudo e com todos. Depois disso, ele tentou negociar, mudar comportamentos para conseguir manter seu bilhete de entrada, imaginando se fazer as coisas um pouco diferente seriam suficientes para que ele ainda pudesse ir, imaginando se mudar agora poderia ter o mesmo efeito. As lágrimas chegaram logo depois, correndo dos seus olhos como rios caudalosos. Ele se preocupa com o dinheiro gasto nas passagens, sobre o que os patrocinadores irão pensar, sobre tudo que ele disse às pessoas nos últimos dias. Quando ele finalmente aceita, a depressão ainda não acabou. Ele permanece num estado semi-vegetativo, sendo obrigado pelos pais e amigos a comer, dormir, sair de casa. Para ele, a vida acabou. Ele sabe que não tinha escolha, ele sabe que não havia nada que ninguém pudesse ter feito para impedir que acontecesse. Mas ainda dói. Tanto, que ele perdeu um ano inteiro da sua jovem vida.

Já é de noite, mas o sol da primavera ainda está visível, as ruas vazias. Ele se sente irrelevante, um desajustado incapaz de sequer entrar na vida adulta. Ele sente algo no seu bolso, o envelope do seu agora antigo emprego. O cheque da indenização não é muito, mal dá um mês do seu já baixo salário. Também tem uma carta, instruções sobre o crachá e o seguro de vida em grupo da empresa. Vai ser anulada amanhã. Ele imagina por quanto tempo sua família conseguiria se manter com isso, como esse dinheiro poderia ser usado para mandar as crianças para a faculdade. Antes que ele consiga impedir tais pensamentos, ele está imaginando como faria para que tudo parecesse um acidente, bem no momento em que ele chega à ponte atravessando o largo rio que limita a cidade. Ele está a alguns passos da ponte quando ouve um barulho muito alto, um carro derrapando sem controle, outro carro vindo na direção oposta na ponte. Tudo acontece muito rápido. O carro que derrapava bate na beirada da ponte, o outro tem que fazer uma curva brusca para evitar a batida, o tipo de reflexo que todos desejamos não ter. A curva faz com que o segundo carro capote duas vezes, passe por cima da beirada e caia no rio. Ryan está na água antes que possa entender o que está acontecendo. Com apenas duas braçadas ele alcança o carro, puxa o motorista para fora. Uma mulher, em choque, segurando em seu pescoço tão forte que ele mal consegue respirar. Ele a ouve murmurando “meu filho”, e sem pensar ele está na água novamente. Seus braços e pernas se movendo como antigamente, como se os músculos nunca tivesses esquecido o que fazer. Ele chega mais perto a cada braçada, o carro já completamente submerso. Ele puxa o menino, segurando firme em um braço enquanto o outro e as pernas impulsionam para cima. Sua mão tampa com força a boca e o nariz do menino, evitando que ele tente respirar porque ele sabe que pode ser fatal. Ele está na superfície em alguns segundos, na margem do rio logo depois. O garoto está agora chorando nos braços da mãe, Ryan recupera o fôlego. Alguém grita do alto da ponte, pergunta se está tudo bem. O outro motorista. Em alguns minutos, a polícia, os bombeiros e uma ambulância estão lá, a mulher e o menino sendo examinados sentados na porta de trás da ambulância. Ryan está sentado num toco, com um cobertor. No alto da ponte, um policial pega o depoimento do outro motorista. Um bombeiro se aproxima de Ryan. Ele diz que a mulher e o menino estão bem, em choque mas sem ferimentos além de alguns arranhões. Ele pergunta ao Ryan como ele conseguiu tirar os dois tão rápido sozinho. Ryan continua em silêncio. O bombeiro entrega a ele uma caneca com uma bebida quente, bate em seu ombro e diz que Ryan é um herói e que, se ele estiver interessado, os bombeiros estão sempre procurando homens corajosos.

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