Seiva Vermelha

“Mas por que a Biblioteca?”

Eu ouço muito isso. Logo depois dessa pergunta, sempre vem o comentário “não tem nada lá”. Claro que isso não é verdade. Há os livros, pra começar, e todo o conhecimento que vem com eles. Também há músicas e filmes, até videogames. Mas, acima de tudo, há o silêncio. Eu posso ficar em paz aqui, quieta com as minhas histórias e os meus pensamentos, livre para viver a minha vida da melhor maneira que posso. Também há vários lugares para se esconder. Porque, você sabe, o mundo ainda é um lugar perigoso.

Mas não é só isso. Aqui tem água, provavelmente o maior reservatório na região, algo que a maioria das pessoas desconhece. Fica perto de vários lugares úteis, como uma mercearia que ainda tem bastante estoque e uma seção de congelados com freezer ainda funcionando, e o meu parque favorito. Eu estabeleci uma zona habitacional contendo tudo que eu preciso para me manter por um bom tempo, o que é mais do que muitas pessoas têm.

Isso é o que importa, na verdade. Quando aconteceu, quando ficou claro que tínhamos chegado num ponto de não retorno, quase todo mundo correu para os shopping centers, grandes supermercados, ou simplesmente fugiu para o interior. Todos ansiosos para fazer algo, salvar-se, mas incapazes de dar um necessário passo para trás e analizar as opções. Para ser sincera, eu não escolhi estar aqui, fui trazida, mas uma vez que pude fazer minhas próprias escolhas eu percebi que era provavelmente o melhor lugar para estar. Não estou isolada se não quiser estar, tenho segurança na certeza de que a maioria das pessoas só conhece uma porta de entrada e saída, tenho bastante espaço para organizar meus suprimentos, e posso desaparecer se houver necessidade. Sou a rainha do meu castelo, algo inestimável nestes dias.

Não posso dizer que me lembro de como era antes. Ter só três anos quando quase todo mundo à sua volta está morrendo tem suas vantagens. Mas eu ouvi muitas histórias e li muitos livros e revistas, o suficiente para pintar uma imagem bem detalhada. Começou quase duas décadas atrás, e foi rápido. Em questão de meses a população humana foi cortada em praticamente 90%. Ninguém sabe de verdade o que aconteceu. Não foi uma doença, ao menos não uma que pudesse ser identificada ou tratada. As pessoas começaram a morrer. Sem razão, sem nenhuma seleção compreensível. Você podia ser um idoso doente ou um atleta no máximo da sua saúde, ou um recém-nascido. Você podia ser negro, branco, asiático. Mulher ou homem, homosexual ou heterosexual. Você podia viver na África do Sul ou na Noruega. Você podia ser vacinado ou não. Você podia seguir qualquer religião que existia, ou nenhuma. Duas pessoas com descrições idênticas poderiam ter destinos diferentes. Também não era contagioso. Alguém podia morrer ao seu lado. Não haviam sintomas. A única coisa em comum era a forma como acontecia. Sempre do mesmo jeito: as pessoas morriam enquanto dormiam. O corpo simplesmente parava de funcionar. Começou em todo lugar ao mesmo tempo, não houve um paciente zero. Meus pais e dois irmãos mais velhos morreram na mesma noite. Eu fui encontrada faminta e chorando, precisando ser limpa e trocada, mas normal fora isso. No começo, tentavam encontrar parentes dos sobreviventes, mas não haviam muitos. Entre janeiro e março, 30% da população mundial tinha morrido. Quando chegou maio, estabilizou em 9 entre cada 10 pessoas falecendo. Só humanos. Bem, algumas das maiores populações artificiais de animais tiveram um destino parecido, as fazendas com milhões de galinhas reduzidas a um punhado de aves, gado caído pelo chão. O mundo entrou em pânico. Foi quando as pessoas começaram a correr sem pensar para onde. Mais alguns meses e o mundo chegou a um novo normal. Então veio o segundo golpe. Havia, afinal, algo em comum entre os sobreviventes: éramos todos estéreis. Alguns sobreviventes já tinham tido filhos antes, mas não houve nenhuma gravidez nem bebês desde então.

A maior parte das amenidades modernas continuou funcionando por um tempo. Os que sobraram foram rápidos em garantir que ao menos os sistemas de comunicação continuassem operacionais. Ainda é possível encontrar eletricidade graças a algumas usinas menores que são fáceis de operar com equipe reduzida, mas me contaram que não é nada parecido com o que havia antes. Existe um limite, afinal, para o que pode ser conservado. Os mais velhos chamam isso de “a extinção”, como alguém desligando interruptores um a um. A extinção também se refere à perda de esperança naquele primeiro ano. A humanidade, o que tinha restado dela, poderia sobreviver por algum tempo, mas qual é o sentido? Sem reprodução, o destino é certo, não importa o quão longe esteja.

Então, somos mais ou menos 700 milhões. Ainda é muita gente. Mas estamos espalhados pelo mundo, pequenos grupos aprendendo uma nova forma de viver. Minha Biblioteca é o centro do meu círculo de vida, a mercearia e o parque marcando os limites dos meus domínios, e o começo do território do que restou da cidade. Vivemos em harmonia, principalmente porque eles não enxergam motivo para vir aqui. Eu vou até eles quando quero companhia, ou para trocar algo que esteja faltando. Jonas e Martha são os únicos que me visitam de tempos em tempos, meus amigos. Eles sabem sobre os meus estoques, sobre a minha água, até sobre a eletricidade que o gerador da Biblioteca fornece e o combustível fóssil necessário para essa mágica acontecer. Mas eles ainda me perguntam de vez em quando “por que a Biblioteca?”

A natureza não demorou para tomar de volta o seu lugar de direito. Florestas floresceram mesmo dentro das cidades de concreto. O cenário parece com aquelas fotos de lugares abandonados ou com as ilustrações nas graphic novels da seção de Quadrinhos. O parque onde eu gosto de ler é bem bonito. Há um playground para crianças, um campo de futebol e um de baseball, e também uma pequena sala com banheiros bem no meio. Eu imagino as famílias que moravam nas casas em volta trazendo os filhos para o parque, as brincadeiras e os jogos nos campos de grama então curta. Agora eu vou lá para ler e quando quero aproveitar o sol. Eu sento em um dos brinquedos que parecem um castelo colorido e me perco num livro. Os esquilos e guaxinins me respeitam, e eu, eles. Há algo de reconfortante no som da natureza aqui. Algo que, hoje, está sendo perturbado por um barulho novo.

Não são as abelhas, estou acostumada a elas. O destino dos humanos foi também a ascenção das abelhas. Elas estão por toda parte agora, não há lugar onde você não escute o zumbido interminável. Bem, nenhum lugar além da Biblioteca. Mas eu até que gosto, quando venho aqui. O que estou ouvindo agora, o que está diferente, é um som chato e cadenciado, como um guincho, baixo e repetitivo, sob a música natural do meu parque. Eu tento ignorar, mas mesmo não estando alto parece chamar minha atenção como nada que eu já tenha ouvido. Não vou conseguir ler, sei disso agora, ao menos não antes de descobrir o que está fazendo o som.

Eu ando um pouco ao redor, assustando alguns esquilos pelo caminho, o barulho obscurecendo todo o resto, irresistível. Está em volta do hall no centro, quase escondido entre alguns arbustos altos. Algo que eu nunca tinha visto antes. Na verdade, algo que ninguém vê há tempos: um bebê.

Vários minutos se passam antes que eu consiga pensar no que fazer. Eu olho para ele primeiro tentando encontrar sentido naquilo, então acessando todas as imagens de bebês que já vi nos livros e revistas, esforçando-me para entender porque, mesmo que seja sem dúvida um recém-nascido humano, há algo de estranho na criança. Quer dizer, além do fato de que o primeiro bebê visto desde o incidente está abandonado no meio de um parque. É um menino. Ele parece saudável, e certamente foi bem alimentado até agora. Eu olho em volta procurando sinais de que alguém esteve aqui antes, mas não vejo nada. Por que o bebê parece tão estranho? A pele tem um tom vermelho-amarronzado claro que eu nunca vi antes, os olhos castanhos com um toque de verde. Eu o pego, tentando ao máximo reproduzir o pouco que sei sobre segurar bebês. Ele para de chorar assim que o levanto. Eu o viro procurando por machucados, mas sua pele está intacta. Seu cheiro é doce e morno. Quando o coloco novamente de frente para mim, eu vejo o que parecia diferente. Ou melhor, não vejo. Ele não tem umbigo. Sua barriga é uma superfície redonda, suave e ininterrupta.

Olho em volta mais uma vez, Ninguém, nenhum sinal. Pelo que sei, o bebê pode ter nascido aqui mesmo neste arbusto. Ele está aninhado no meu peito, dormindo profundamente. Pelo jeito o choro era só para chamar atenção. Eu tenho uma regra restrita sobre convidar pessoas para os meus domínios, o que normalmente não faço. Mas ele é só um bebê. Não posso simplesmente deixá-lo aqui. Ele não pode se alimentar sozinho, não pode nem andar. Eu organizo um canto onde ele ficará seguro mas ainda perto o suficiente para que eu o escute chorando. Tenho algumas fraldas no meu estoque – são ótimas para fazer limpeza – mas pelo que me lembro de ter lido, nem perto do que vou precisar. E minha mercearia não tem esse produto, vou precisar ir até a cidade, trocar algo. Não contava ir lá por mais três semanas. Jonas e Martha devem vir me visitar em alguns dias. Eles vão fazer perguntas, e desta vez não vai ser sobre a Biblioteca.

Passo o resto do dia lendo tudo que posso sobre bebês, preparando-me para esta nova vida que apareceu na minha frente. Eu imagino como as pessoas vão reagir à existência de um bebê. Eles provavelmente pensarão que eu sou a mãe, algo que não poderei provar o contrário. Eles vão querer vê-lo, todos eles vão querer vir aqui em massa para vê-lo. Não posso aceitar isso. Talvez haja alguém na cidade que possa cuidar dele melhor que eu. Não vou sair por aí perguntando, claro, isso levantaria suspeitas. Mas é possível descobrir um bocado de coisas sobre as pessoas só olhando para a forma como elas interagem nesses dias. Quando o bebê acorda, eu tento dar-lhe um pouco de leite, mas ele não aceita. Ele bebe água, mas não é comida de verdade. Eu tento um pouco de sopa. Seu rosto diz que ele não está gostando, mas ele continua comendo. Eu o limpo e o coloco para dormir novamente. De acordo com os livros, se eu estou certa sobre a sua idade, tenho mais ou menos 12 horas até que ele acorde novamente. O suficiente para uma visita rápida à cidade.

Existe uma razão para eu não querer ir até lá com frequência. Uma das minhas regras de sobrevivência é ficar no mesmo lugar, tentar sair o mínimo possível, permanecer no meu círculo de vida. Eu nunca deixei esta região, nunca viajei. Nunca fui além da cidade. Eu sei que há alguns assentamentos não muito longe mas, de novo, qual é o sentido? Tudo que eu preciso e não tenho posso trocar na cidade ao lado. E eu faço com que toda visita seja o mais eficiente possível, então eu só preciso ir até lá a cada dois meses mais ou menos. As pessoas até se preparam para as minhas visitas, sabendo o que eu geralmente troco e o que eu posso fornecer. É incrível como algumas pessoas são resistentes a mudança. A maioria do que eu forneço eles poderiam facilmente encontrar por eles mesmos se quisessem. Acho que é só a forma como a nossa frágil economia evoluiu. Eu forneço leite e carne – alguns animais de fazenda vivem à margem do meu círculo, do lado oposto da cidade, mas tenho certeza que existem outros por aí – e nozes das árvores no meu parque. Eventualmente alguém pede por livros e revistas, suspeito que pelo papel mais que pela leitura. Eles me dão roupas e combustível, produtos de limpeza, eventualmente ferramentas. Eu os ensinei a fazer uma pequena horta, eles respeitam o meu círculo. É uma convivência pacífica.

Jonas vem aqui praticamente dia sim, dia não. Martha vem menos, mas é o suficiente para que eu não me sinta solitária. Meus livros me fazem boa companhia. Eles são os primeiros que me veem chegando, estão sempre no posto abandonado que é agora a entrada da cidade.

“Ora ora ora”, Jonas está fazendo sua expressão travessa. “Acho que alguém está sem papel higiênico. Seus livros não servem para algumas coisas, certo?”

“Na verdade, estou sem fraldas. Tive um vazamento outro dia, usei tudo que tinha.”

“Então não é uma visita social.” Ele pula do balcão onde estava sentado para se juntar a mim.

“Alguma vez já foi?”

Jonas é alguns anos mais velho que eu. Ele tem algumas lembranças de antes do incidente, mas nunca fala sobre isso. No mundo de antigamente, ele provavelmente seria um atleta. Mais alto que a maioria mas bem magro, capaz de correr longas distâncias e incrivelmente forte para alguém sem massa muscular perceptível. Ele detesta a cidade mas, como todo mundo, não vê razão para sair. Martha é só alguns meses mais nova que eu, a pessoa mais nova que eu conheço. A pessoa mais nova que todos aqui conhecem. Alguns viajantes que passam pela cidade de vez em quando afirmam que ela é a pessoa mais jovem restante. Bem, não mais.

Eu achei que me ver novamente tão perto da minha última visita iria chamar um bocado de atenção, mas a cidade está distraída por alguma outra coisa.

“O que está acontecendo?” Eu estava prestes a fazer esta mesma pergunta quando Martha falou primeiro.

“Vocês que me digam. Vocês moram aqui.”

“Eu juro que não tenho nada a ver com isso.” Jonas, sempre propenso a pequenas brincadeiras, é o perturbador da paz oficial da cidade.

Todos estão amontoados em volta da praça principal da cidade, carinhosamente chamada de ágora. É um nome bastante apropriado, já que é o lugar onde todas as trocas acontecem, mas ninguém além de mim e de Arthur, o pai de Jonas e ex-professor de história – sabem o porquê. Arthur começou a chamar o lugar assim logo que o costume de fazer trocas ali se formou, e o nome acabou pegando. Eu já tinha lido bastante quando comecei a frequentar a cidade. Arthur apresentou-me a ágora com uma piscadela, e eu comentei que era bastante inteligente. Nunca vou me esquecer da sua expressão de alívio quando ele respondeu “Enfim, alguém que entende!”

Nós corremos até a ágora junto com os poucos que ainda não estão lá. Todos estão falando ao mesmo tempo. Pelo que posso entender entre todas as vozes, alguém desapareceu, e esse alguém foi visto por outro alguém saindo da cidade com um viajante, e um terceiro alguém jura que o segundo alguém jura que ela – a pessoa que desapareceu é mulher – carregava um bebê. Um bebê humano. Entre os “impossível”, os “mas ninguém viu ela grávida” e os “como ela pode ter tido um bebê depois de todo esse tempo?”, haviam sugestões de ir atrás dela. Loucas teorias conspiratórias surgiram rapidamente, incluindo uma história sofisticada de que a única comunidade com pessoas férteis estava tendo seus bebês roubados, e os ladrões tinham a intenção de comê-los. A maioria acreditava que eles só roubavam as crianças, mas ainda assim tinha um bocado de opiniões diversas. Acho que vou ficar com o meu por ora.

Então existem outros, ou ao menos existem pessoas que acreditam haver outros. Pela lógica, essa notícia seria recebida com alegria, mas as pessoas reagiram com medo, descrença e até raiva. “Por que agora?”, alguém perguntou. É uma questão válida. Mas, para mim, há uma outra antes: “Como?” Eu achei meu bebê no parque, sozinho, uma criança humana completamente normal não fosse pela cor da pele e a falta do umbigo. Ele estava simplesmente deitado ali, num arbusto, chorando para que eu o pegasse.

Está claro que não vou conseguir fazer nenhum tipo de negócio hoje, então começo a me afastar. Jonas puxa meu braço quando eu começo a andar.

“Ei, vejo você em breve, tudo bem? Amanhã?”

Eu respondo quase sem pensar. “Por que vocês dois não voltam comigo, passam a noite?” Ideia rapidamente aceita, eles estão aliviados pela chance de escapar. Eu não falo nada durante todo o caminho, deixando Jonas preencher o silêncio com suas piadas, como de costume. Até agora, Martha estava chocada com o desaparecimento da mulher e as histórias de um bebê, mas resistia a acreditar. Jonas não parecia interessado. Quando chegamos à porta, eu peço a eles para não surtar. Martha explode e pula de medo.

“Surtar sobre o quê? Sabia que você não poderia simplesmente aparecer no mesmo dia em que a cidade está alvoroçada. Ela está com você?”

“Não, mas tem mais alguém aqui.” Eu os levo até o berço improvisado com livros e cobertas. Ambos ficam em silêncio por longos segundos. É a primeira vez que Jonas não tem uma resposta na ponta da língua. O bebê está dormindo, de barriga para cima, sua respiração fazendo o tórax expandir e diminuir em ondas. Seus braços estão para cima ao longo da cabeça, que está virada para o lado de frente para nós. Jonas quebra o silêncio, como sempre.

“É tão pequeno e… vermelho!”

“Ele. É um menino. E ser vermelho não é a única característica ímpar que ele tem.” Eu puxo a fralda um pouco para baixo. Martha prende a respiração sentindo o suspense, mas não dura muito.

“O quê?”, ela expira com desapontamento.

“E dizem que toda mulher é uma mãe natural… Olhe para a barriga dele, Martha!” Jonas fala com seriedade, o que é bastante raro para ele.

“Estou olhando! O que eu deveria estar vendo? Não vejo nada!”

“Exatamente!” Estou me divertindo vendo ambos experimentar as mesmas descobertas pelas quais passei ontem. Jonas continua: “Normalmente as pessoas tem algo bem ali na cintura.”

Martha se sobressalta, segurando um grito com a mão e dando um passo para trás. Sua outra mão toca instintivamente sua própria barriga onde seu umbigo está. “Como… De onde ele veio?” O bebê se move um pouco, espreguiçando, e nós três tomamos um susto.

“Eu não sei. O encontrei no parque, simplesmente abandonado, chorando por atenção.”

“Talvez a Freya o tenha deixado lá, para protegê-lo dos viajantes.”

“Freya?”

“A mulher que desapareceu, aquela de quem todos estavam falando.”

Jonas continua falando com seriedade: “Quando exatamente você o encontrou?”

“Ontem, um pouco depois do meio-dia. Por que?”

“Eu vi a Freya ontem à noite. Ela não saiu da cidade até esta manhã.”

“Ainda assim, ela poderia tê-lo deixado lá antes disso.”

“Então como foi que viram ela deixando a cidade com os viajantes e um bebê?”

Estávamos todos pensando a mesma coisa. Jonas falou primeiro.

“Então provavelmente não é o único bebê.”

“E o que você vai fazer com ele?” Martha inclina-se sobre o berço, resistindo à vontade de tocá-lo.

“Não sei. Eu fui à cidade para conseguir mais fraldas, e talvez encontrar alguém que poderia cuidar dele.” Eu faço carinho no bebê para mostrar a ela que ela pode tocá-lo.

Ela se volta pra mim. “Bem, acho que não é a melhor ideia agora.”

O bebê acorda, come, nos o limpamos e ele dorme novamente. Na manhã seguinte, Jonas está brincando com ele quando Martha e eu acordamos.

“Quem diria que você teria tanto talento com bebês?”, Martha o provoca.

“Eu tive uma irmã mais nova. Ela nasceu só algumas semanas antes do… antes de tudo acontecer.” É a primeira vez que ele fala sobre sua vida antes do incidente. É também o tempo mais longo que ele já passou sem fazer piadas. “E agora? Vamos criá-lo como se fosse nosso?”

“Você não está curioso?”

“Sobre o quê?”

“De onde ele veio? Bebês não simplesmente aparecem do nada. Deve ter alguém procurando por ele.”

“Eu entendo o que você quer dizer. Então, por onde começamos?”

Deixamos Martha com o Bebê e vamos para o parque. Eu o mostro o lugar exato onde o bebê estava quando o encontrei. A vegetação no parque cresceu selvagem sem ninguém para domá-la. A grama está alta, há dentes-de-leão por toda parte, e uma porção de outras pequenas flores brancas. As abelhas fazem a festa na abundância de opções que elas têm agora. É bastante colorido. Algumas das flores de jardim das casas em volta propagaram para o parque e vice-versa, resultando em uma interessante mistura de cores, formas e aromas.

“Não tem nenhuma abelha.”

“O quê?”

“As abelhas, elas não vem aqui. Olhe em volta, elas estão em toda parte, como sempre em parques assim. Menos aqui. Digo, abelhas vão nas flores, eu entendo, mas elas eventualmente pousam em outras plantas, até constróem colmeias nelas. No mínimo, elas sobrevoam. Mas aqui elas não chegam nem perto. Estão nos contornando”. É verdade. Não reparei antes, talvez por estar distraída com o choro do bebê. As abelhas voam em volta, pousando nas flores e polinizando, mas não se aproximam desta planta. Eu me abaixo para examinar o arbusto, e percebo que nunca o vi antes. É mais ou menos alto, uns 70 ou 80 centímetros, com folhas largas e redondas, verde brilhante com muitos veios. Parece comestível.

“Esta planta não estava aqui antes.”

“Como assim, não estava aqui quando você achou o bebê?”

“Não, o bebê estava em cima dela, tenho certeza. Mas acabei de reparar que nunca a vi antes de achar o bebê.”

“E que tipo de arbusto é este?”

“Não sei.” Tenho vindo a este parque há anos. Conheço praticamente todas as espécies aqui – uma vez eu passei uma semana inteira vindo aqui com um guia de botânica, identificando cada flor, árvore e arbusto. Lembrar disso me deu uma ideia. “Mas eu sei como podemos descobrir.” Eu olho para o caule principal, tentando puxá-lo junto com as raízes, mas devem estar muito profundas e são fortes. Jonas também tenta, e mesmo sua força não consegue arrancar a planta. “Talvez eu consiga identificá-la só pela folha.” Ele pega uma pequena faca do bolso para cortar algumas folhas. Quando ele corta a primeira, ele para e dá um passo para trás. “O que aconteceu?”

“Não sei, senti um puxão quando estava cortando. Como se a planta tivesse sentido o corte e reagido.”

“Você voltou a ser engraçadinho? Não é o momento.”

Ele corta outra. “Não, é sério. Aconteceu de novo. Aqui, tenta você.”

Eu pego a faca e corto, sentindo o movimento instantaneamente. O arbusto reagiu ao corte, como se estivesse sentindo dor.

“Olha isto aqui.” Jonas está segurando as folhas que cortou para cima, apontando para a haste. Está saindo uma seiva vermelha opaca e pegajosa. Nos entreolhamos, sabendo o que o outro está pensando.

Voltamos para a Biblioteca. Martha está brincando com o bebê, usando alguns brinquedos da seção infantil e construindo um móbile com itens de escritório. Jonas e eu vamos direto para a seção de ciências, colocamos as folhas sobre uma mesa. Eu pego três livros de botânica e passamos a próxima hora folheando, Martha vem ver se está tudo bem de tempos em tempos. Olhamos para cada desenho e foto de planta que pudemos encontrar, comparando com as folhas do arbusto. Tentamos até ecossistemas distantes e exóticos. Em um determinado ponto Jonas pegou um livro de paleobotânica, mas nossa nova planta não estava em nenhum deles.

Eu olho tudo de novo, temendo ter passado despercebido por algo e tomar conclusões precipitadas, mas realmente não está aqui. No almoço, discutimos as ramificações de todos esses eventos, e eu me deixo ser convencida a procurar por outras plantas iguais e outros bebês. “Mesmo que as abelhas não toquem nela, a planta ainda precisa se disseminar de alguma forma. Você achou uma nova espécie isolada no parque, provavelmente uma semente levada pelo vento ou ingerida por algum pássaro que caiu ali por engano, mas tem que haver outras.” A lógica de Jonas é irrefutável e, surpreendentemente, a ideia de explorar me deixou animada, mesmo que isso signifique uma severa quebra da minha regra de permanecer no mesmo lugar. Mas enquanto eu estava pensando em uma simples caminhada pouco além dos limites do meu círculo, Jonas tinha toda uma missão de exploração planejada. “Vamos precisar de suprimentos”, ele disse. “E mochilas.”

Eu corro até meu quarto e pego a minha. Jonas e Martha riem alto.

“O que é isso?”, ela pergunta.

“Minha mochila. Você não disse que iríamos precisar?”

“E o que exatamente você acha que vai caber aí? Seu sanduíche num ziploc e alguns livros?” Até agora, eu não via nada de errado com a minha mochila do Monster High. Era perfeitamente boa para meus dias no parque e útil quando eu saia para tirar leite das vacas. Jonas explicou a missão para nós, prevendo vários dias além dos limites da cidade, escaneando uma grande área numa trilha organizada. É, eu vou precisar de uma mochila maior. “E o bebê?”, eu pergunto, “Não podemos deixá-lo aqui sozinho, e certamente não podemos levá-lo conosco.”

“E eu não vou ficar aqui”, Martha se apressa em dizer.

“Eu pensei nisso também”. Esse novo Jonas, não divertido, dos últimos dias está começando a me fazer sentir falta do antigo.

Eles voltam para a cidade para pegar equipamentos e suprimentos, incluindo uma “mochila de verdade”, como Jonas diz. Arthur vai ficar na Biblioteca com o bebê. Ele já me visitou antes, no começo. Eu o deixei pegar quantos livros quis, só porque sabia que ele não os usaria para fazer fogo ou para se limpar. Jonas explicou toda a situação a ele antes deles voltarem, mas ver o bebê ainda é um choque para o Arthur. Lágrimas rolam pelo seu rosto quando o bebê segura seu dedo. Eu começo a explicar como cuidar do bebê quando ele me interrompe.

“Eu tive filhos, sabia? Eu criei este aqui praticamente sozinho depois que sua mãe e sua irmã morreram”, ele disse apontando para o Jonas. Eu esqueci que haviam pessoas que já tinham cuidado de bebês. Eu esqueci que houve um mundo totalmente diferente antes do incidente.

Vamos para o sudeste, oposto à cidade. Um mapa da cidade que existia antes nos mostra alguns parques que são um bom começo para a nossa missão, mas Jonas nos avisa que podemos ficar várias semanas viajando. Preferimos evitar rotas conhecidas. Alguns minutos depois de começarmos a caminhar, chegamos no velho campo de futebol ao lado de uma escola, onde as vacas de quem tiro leite ficam. Eu paro bem na borda.

“O que aconteceu?”, Jonas volta correndo.

“Nada. É só que… mais um passo e eu vou passar do meu círculo. Mais um passo e eu vou estar o mais longe da Biblioteca que jamais estive.”

Ele pega minha mão e me puxa gentilmente. Não há nenhuma grande sensação de medo ou alívio, nenhuma epifania, nenhuma mudança. Ficamos de olhos atentos, e observamos as abelhas. A ideia não é achar uma outra planta isolada, mas um lugar onde elas estejam espalhadas. Vamos procurar por outros bebês também, mas só por conta de uma intuição coletiva de que existe uma ligação entre os dois. Não temos nenhum plano de verdade além disso.

“Talvez ele tenha vindo de um ovo.” Martha fala isso sem dar nenhuma explicação.

“Quem?”

“O bebê. Aliás, precisamos de um nome para ele. Que tal George?”

“Você pode chamá-lo como quiser”, eu digo. “O que você quis dizer com ‘vindo de um ovo’?”

“Ele não tem umbigo. Enquanto vocês estavam no parque eu li alguns dos seus livros sobre bebês. O umbigo é o lugar por onde o feto estava conectado à mãe, é como ele respira e se alimenta antes de nascer.”

“E daí?”

“Como esse bebê se alimentava e respirava antes? Eu entendo sua pele ter uma cor diferente, mas ele ainda precisa de alimento antes de nascer.”

“E você está dizendo que ele veio de um ovo, como um ovo de pássaro, de casca dura?” Jonas entra na conversa. “O que faria do arbusto um ninho? Deveríamos procurar por humanos voadores agora?” Nos três olhamos para o céu.

“Não sei. Só sei que animais sem umbigo nascem de ovos.”

“Você percebe como isso soa maluco, não?”

“Por que? Não é como se fosse um sistema novo. Na verdade, ovos existiam antes de cordões umbilicais.”

“Mas existe uma razão para termos evoluído, você não acha? Agora vamos passar a ter penas também? Talvez voltar para a água?”

“Só estou dizendo que existe um bebê sem umbigo, e talvez George nem seja o único. Ele veio de algum lugar, tem que ter uma mãe e um pai. Com tudo que aconteceu desde o incidente, quem sabe o que mais mudou?”

“Não é assim que a natureza funciona. Leva milhões de anos para um único passo evolutivo acontecer.”

“Bem, se o incidente provou alguma coisa, é que sabemos bem menos da natureza do que achávamos.”

A discussão é interrompida por um barulho à nossa esquerda. Felizmente eram só alguns esquilos pulando sobre folhas secas.

“Nunca falamos sobre o que vamos fazer se encontrarmos outras pessoas…” Eu tento manter um tom otimista, mas aparentemente Jonas também não tinha pensado nisso.

Normalmente, não há muita violência nestes dias. Com o punhado de pessoas que sobrou, a maioria dos grupos simplesmente tenta ficar na sua. Uma minoria viaja por aí e são quase sempre pacíficos. Mas enquanto houver seres humanos, haverá perigo. É por isso que mantemos distância da caravana de viajantes com que topamos na segunda semana da missão.

Encontramos uma trilha recém feita virando na direção exata em que estávamos indo. Uma consulta rápida entre nós e concordamos em manter nossa rota e observar um pouco. Avistamos a pequena caravana algumas horas depois de começar a andar na mesma trilha e reduzimos a velocidade para manter-nos longe. Eles parecem ser só umas poucas pessoas, três famílias no máximo, divididas em duas carroças. Estamos seguindo-os há dois dias, progredindo mais devagar do que o planejado. É por isso que resolvemos cortá-los pela direita, fazer uma volta grande para passar despercebidos, e reajustar o curso depois disso. Quando estamos de lado para eles, mais ou menos à mesma distância que quando estávamos atrás, Jonas faz sinal para que nos abaixemos e olhemos. Ele aponta para a caravana, onde uma mulher de quarenta e poucos anos está andando em frente a um dos carros, com alguém ao seu lado. Uma criança, mais ou menos dois anos, tom de pele vermelho-amarronzado claro. Nossa velocidade fica igual à dos viajantes de novo, porque ficamos irresistivelmente atraídos pela visão da criança.

“Estávamos com tanto medo de vocês quanto vocês aparentemente estavam de nós no primeiro dia. Depois esperamos que vocês fizessem contato.” A voz veio de trás de nós, nos fazendo pular e virar com os corações acelerados. Um homem, não muito mais velho que Jonas, com uma cesta cheia de frutas nos braços, mãos para cima sinalizando que não tem más intenções.

Eles estão viajando desde o incidente, ele nos conta, e não pretendem pretendem parar tão cedo. Eles gostam de explorar e acreditam que ainda há muitos suprimentos a serem descobertos. Na verdade, é assim que eles sobrevivem a maior parte do tempo. Eles aprenderam a fazer a comida durar mais e sabem de lugares com estoques praticamente intactos. “Quase ninguém pensa nas fábricas. As pessoas estavam tão acostumadas a ver comida nos supermercados que esqueceram que ela não simplesmente aparece ali.” Seu pai disse isso, um homem parecendo bem mais jovem do que sua idade real, apesar das condições ruins de vida atualmente. Ouvimos histórias das suas viagens, dos lugares que visitaram e pessoas que conheceram. Eles nos convidam para passar a noite, nos dando uma merecida folga nos nossos hábitos noturnos, que até então têm sido sacos de dormir ruins e barracas remendadas.

“Estou curioso”, diz Richard, o pai, na segunda noite. “Eu pensei que vocês perguntariam da nossa menina logo de cara.” Todos os olhos se voltam para Alícia. Ela tem o cabelo castanho escuro até os cotovelos, olhos acastanhados brilhantes, e está usando uma camiseta de adulto que vai até seus joelhos, com uma trança de fibras servindo de cinto. Ela é bonita e alegre, nem um pouco tímida, nos convidando a brincar com ela. Jonas diz que ela tem um vocabulário incrível para uma criança dessa idade, que é até estranho ouvi-la falar frases completas na sua vozinha infantil. “Eu acho que ela não é a primeira criança vermelha que vocês encontram”, Richard completa.

Contamos a eles nossa história, como o George apareceu na nossa vida e como estamos procurando por outras plantas como aquela. Ele nos conta que já vinha ouvindo histórias sobre bebês há anos, mas não tinha acreditado até encontrarem Alícia, mais ou menos da mesma forma que eu encontrei o George. Ele não se lembra da planta na ocasião, e como não viram mais nenhuma criança desde então não podem nos ajudar nisso. Mostramos a eles uma das folhas que trouxemos, mas eles não reconhecem. Chris, o homem que nos surpreendeu, me pede para descrever o arbusto.

“Pelo que posso deduzir, parece o tipo de planta que cresce em áreas largas sem muitas árvores. Eu acho que gosta bastante de luz solar.” Richard foi um professor de ciências antigamente, e Chris aprendeu a amar botânica. Não há muita semelhança física entre eles. Como é raro encontrar duas pessoas da mesma família que tenham sobrevivido, Jonas e Arthur sendo os únicos que os viajantes passando pela cidade já viram, eu imagino que Chris tenha sido um dos alunos de Richard. “Vocês não vão encontrar nenhuma área assim nesta trilha. Seria melhor tentar os campos a sudoeste daqui.” Ele nos conta da região perto de um rio que eles passaram antes, quase sem árvores. Como a caravana se abriga nas florestas, eles nunca pararam lá mais tempo que o necessário para pegar água.

Alícia está brincando com Jonas e Martha depois do jantar. Richard e eu estamos sentados perto do fogo. Olhamos para eles, eu particularmente interessada na forma como Jonas se comporta perto da menina. Eu pergunto ao Richard sobre o umbigo, ou a falta dele, nas crianças. Ele dá de ombros. “Depois do que aconteceu, eu passei a aceitar qualquer benção, grande ou pequena, sem pedir explicação. Eu reparei, claro, e eu sei que é estranho. Mas eu parei de pensar nisso faz tempo. É como a pele dela, é só parte de quem ela é.” Passamos mais uma noite com eles, trocamos alguns suprimentos – ganhamos mais do que damos, na verdade – e partimos para nosso novo caminho na manhã seguinte.

Eu queria ter um jeito de contatar o Arthur, ter certeza de que está tudo bem com ele e com George. Conforme avançamos na direção sugerida pelo Chris, a paisagem muda de árvores altas e florestas densas para plantas baixas com muito espaço entre elas. Passamos ao largo de algumas cidades, sem nunca entrar, mesmo que nossa curiosidade aumente cada vez que vemos um prédio. Estamos há mais de um mês na nossa missão e, de acordo com Jonas, a mais ou menos 300 quilômetros da Biblioteca. Sinto muitas saudades.

Nós encontramos outras das plantas pelo caminho, mas sempre um único arbusto no meio de uma vegetação normal. Mas, desde que as árvores maiores pararam de aparecer, temos visto a planta com maior frequência, o que nos dá um incentivo extra para progredir. Ainda assim, por nenhuma razão particular, eu começo a pensar no que vai acontecer se realmente encontrarmos muitas das plantas num mesmo lugar. Não é como se pudéssemos estudá-las ou tirar alguma conclusão além do que Chris nos disse. Talvez seja só o cansaço, mas o reforço motivacional que acabamos de ter deu lugar a uma completa falta de objetivo bem rápido, ao menos em mim.

Paramos em um riacho para encher nossas garrafas e eu peço para descansarmos um pouco. Martha corre e pula na água dizendo que parar aqui foi a melhor ideia desde que saímos. Passamos uma boa parte da tarde aqui, tomando banho e brincando no rio. Deitamo-nos na margem e estou quase dormindo quando Jonas chama nossa atenção.

“Vocês ouviram isso?”

“Ouviram o quê?” Eu esfrego os olhos e Martha tenta controlar seu cabelo selvagem.

“Fiquem quietas, e escutem.”

Não fazemos nenhum barulho por um tempo. Eu até paro de respirar no começo. Junto com o vento e com o barulho dos pequenos animais, há mesmo algo mais. Sons de água e gritinhos, risinhos, como uma porção de pequenas vozes rindo. Não está muito longe. Seguimos o rio pela margem em direção ao som, tentando não fazer nenhum nós mesmos.

Eu olho para a direita conforme nos aproximamos, toco no ombro do Jonas e mostro para ele. Ele faz o mesmo com a Martha. Ao nosso lado, quando a margem do rio dá espaço à vegetação, está um grande campo da planta, aquela que estamos procurando. Por um momento nós quase esquecemos o que realmente estamos buscando, mas o som está tão perto que não podemos parar. O rio faz uma curva logo em frente, e o que quer que esteja fazendo esse som parece estar logo depois disso. Ouvimos passos, palmas e risadas. Eu não reconheço, mas o barulho parece estranhamente familiar. Subimos um pequeno morro que se formou na curva do rio, apenas alguns metros de altura. Quando chegamos no topo, finalmente conseguimos ver.

Crianças. Muitas, muitas crianças, brincando na água e na margem, mais ou menos umas cem. Nós podemos ver algumas delas chegando e saindo por um caminho que desaparece no meio dos arbustos. Nós as seguimos pela lateral, tentando não ser vistos. Elas estão todas nuas, todas tem a pele vermelha-amarronzado clara e cabelos castanhos escuros. Nenhuma delas tem umbigo. Há crianças de diferentes idades, mas nenhuma delas parece ser mais velha que uns sete ou oito anos. Nós chegamos a uma clareira e podemos ver uma espécie de colônia, pequenas construções e ferramentas feitas de madeira e rocha. As crianças mais velhas parecem estar trabalhando, alimentando as mais novas ou construindo algo. Eles falam entre si, as pequenas vozes dizendo palavras e frases que não conseguimos entender. Parece uma vila bastante sofisticada, não um bando de crianças brincando de casinha. Nós percebemos que algumas delas estão fazendo algum tipo de trabalho no meio dos arbustos, do outro lado da vila. Martha toca no meu ombro e aponta para o arbusto logo ao nosso lado. No meio dele, as folhas estão fechadas, quase seladas, diferente das plantas que vimos até agora. As folhas parecem formar um casulo, a forma parecendo uma barriga de grávida prestes a dar à luz. À nossa volta, várias outras plantas em diferentes estágios de “gravidez”, mas a maioria delas está completamente aberta.

Ficamos com medo de perturbar as crianças e sermos pegos, então engatinhamos silenciosamente até deixamos os campos. Andamos mais um pouco antes de fazer nosso acampamento. A noite cai antes que qualquer um de nós diga alguma coisa. Desta vez, é Martha quem quebra o silêncio

“Então eles vem das plantas?”

“É o que parece”, eu respondo. “E faz sentido, pensando em como eu encontrei o George.”

“Mas elas são crianças. Crianças humanas!”

“Crianças, sim”, diz Jonas, “humanas, talvez.”

“Mas não faz sentido!”, Martha responde.

“Faz tanto sentido quanto a sua teoria dos ovos.”

“Não tem nada a ver.”

“Não dá pra saber. Talvez as plantas sejam só o casulo. A esta altura, estou disposto a aceitar qualquer explicação.”

“E quem toma conta delas?”

“Elas mesmas, pelo jeito. Não vi nenhum adulto por perto. Não vi nem mesmo um adolescente.”

“Vamos voltar”, eu digo, depois de ter escutado o bastante.

“Voltar para a vila deles?”

“Não”, eu respondo. “Voltar pra casa. Acho que o melhor é deixá-los em paz, e não falar disso para ninguém.”

A viagem de volta leva bem menos tempo que a de ida. Só contamos o que vimos para o Arthur, sabendo que o nosso segredo está à salvo com ele. No fundo, nós sabemos que eventualmente outras pessoas vão descobrir de qualquer jeito. Nem sabemos quantas dessas colônias existem por aí, talvez algumas pessoas já saibam delas. Mas como não há uma forma de ter certeza disso, quanto a esta nós vamos manter segredo.

Meses depois, voltamos para o mesmo caminho. Desta vez, levamos George conosco. Nós convidamos o Arthur, mas ele disse que só iria nos atrapalhar. Nós fazemos uma linha reta até a colônia, chegando lá em praticamente metade do tempo que levamos da primeira vez. Martha e Jonas me deixam com o George à beira dos campos. Eu caminho com ele nos meus braços, tão baixo quanto possível, tentando enxergar alguma das crianças mais velhas sozinha. Há uma menina agachada perto de uma das plantas. Eu me aproximo tão silenciosamente quanto posso, até que ela está só a alguns metros de distância. Eu tento parecer o mais inofensiva possível, e mostro a ela o George dormindo nos meus braços. Ela se aproxima, seu rosto muito parecido com o da Alícia. Eu me inclino para ficar da mesma altura que ela e gentilmente passo o George para os seu colo. Ele enlaça o pescoço dela com seus braços, sem acordar. Ela olha para mim, seus olhos cheios de gratidão, e se afasta, indo em direção à vila.

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