Como uma Folha numa Queimada

Sempre que eu queria relaxar, eu simplesmente a perguntava sobre seu dia. Ela tem um jeito de compor as frases e um ritmo particular em qualquer coisa que ela diz que é capaz de causar total descontração. Eu não sei como ela faz isso, mas é quase como se ela tivesse um botão ou algo que é ligado sempre que alguém a faz uma pergunta. Ela fala como se ela tivesse passado horas pensando naquilo, escrito diversos rascunhos e te apresenta um texto perfeitamente finalizado, cada palavra é importante. Mas ela faz isso na hora, todas as vezes. Eu a escuto falar como se escutasse uma canção de ninar, sendo gentilmente embalado e recebendo um cafuné ao mesmo tempo. Quando eu encosto a cabeça e suspiro alto, ela já sabe o que vai acontecer.

“Você vai apagar logo logo, não vai?”

Mas ela não para. Na verdade, ela continua falando enquanto passa a realmente me fazer cafuné, sabendo que meu olhos vão se fechar em breve, tendo perfeita consciência do efeito que ouvi-la falar tem em mim. “As palavras simplesmente me vêm à cabeça”, ela diz quando alguém pergunta como ela faz. Muitas vezes eu desejei ter um gravador ligado, porque teria se transformado em uma bela história. E sempre foi assim. Na faculdade, onde nos conhecemos, todos queriam fazer parte do grupo dela, o tempo todo. Ela fazia tudo ficar fácil. Depois que o tema era atribuído, o grupo o discutia e desmembrava, expondo todos os ângulos e considerando todas as consequências. No fim, tínhamos que apresentar ao professor uma resposta escrita. Um de nós pegava um papel e um lápis, e um outro só tocava no ombro dela, como se apertando o seu botão. Era o sinal de que tínhamos discutido o suficiente. Ela sempre começava dizendo “que tal assim:…” e nós simplesmente transcrevíamos o que quer que saísse da boca dela, uma redação perfeitamente finalizada, completa com pontuação e precisando de pouca ou nenhuma revisão.

Nossos filhos também faziam bom uso dessa habilidade. Eles adoram as histórias dela. Bem, o jeito dela contá-las. As histórias em si são sempre os bem conhecidos contos de fadas ou o enredo do desenho animado mais recente. Ela dá uma risadinha, e faz com que eles riam também, sempre que ela faz menção de pegar um livro quando eles pedem uma história. “Não, sem livro!”, eles gritam em uníssono, rindo. Eu me encosto à porta, às vezes apreciando a história mais que eles. O som da sua voz, a cadência, as ênfases repentinas e as minúsculas modulações de tom. É melhor que qualquer filme ou livro. Há cores no que ela conta.

Nós não nos casamos logo depois da faculdade. Na verdade, nem mesmo estávamos em contato depois da formatura. Eu só tive a chance de fazer parte do grupo dela duas ou três vezes, quando o professor decidia quebrar as panelinhas e incentivar diversidade. Eu estava namorando na época. Não sei se ela estava também. Não tínhamos muito em comum fora da sala de aula e, depois da graduação, nossos caminhos separados nos fizeram esquecer um do outro. Mas a vida, como sempre, tinha outros planos. Nos encontramos novamente numa reunião, a empresa na qual ela trabalhava participando de uma concorrência para ser parceira da companhia que eu gerenciava. Eu não a reconheci logo de cara. Ela não estava assim tão diferente, mas os anos separados apagaram a sua imagem na minha mente. Não a sua voz. Assim que ela se levantou, depois das apresentações iniciais e das conversinha inócuas, a sua postura me chamou atenção instantaneamente. Quando ela começou a falar, eu soube quem ela era, e também soube que a concorrência estava terminada. Mas eu apreciei observar a reação dos meus colegas conforme ela apresentava. Eu pude vê-los se submeter ao seu charme em alguns segundos e simplesmente desfrutar da paisagem depois. Para minha sorte, ela não estava lá só para ganhar a concorrência. A natureza dos nossos negócios requeria que trabalhássemos juntos a maior parte do tempo, a empresa dela praticamente tornando-se um departamento dentro da minha. Éramos ambos casados naquela época. Casamentos felizes. Mas fomos atraídos um pelo outro mesmo assim. Rompemos com tudo: nossos casamentos, nossos empregos, nossos círculos sociais. Deixamos tudo para trás para começar uma nova empresa, mudamo-nos para uma outra província.

As crianças chegaram logo depois, quando ainda tínhamos que fazer hora extra para que a empresa pudesse deslanchar. Mas nunca nos preocupamos. Ela decidiu continuar trabalhando, eu seria um pai dono-de-casa. Tirávamos férias no verão, saíamos para caminhadas com as crianças, apresentando a eles a vida ao ar livre que sempre quisemos quando pequenos. Não há nada como um deck que madeira sobre um lago ou uma cachoeira escondida para acalmar o espírito. Viajávamos de carro, e depois à pé, seguindo trilhas e acampando, comendo sopa quente feita sobre uma fogueira. Em casa, nossas noites eram de calma e equilíbrio. Nossa prole não se importava de se comportar e fazer suas tarefas, tanto da escola quanto da casa, contanto que tivessem uma história contada por ela no final do dia. Eu também não. Ela me falava relatórios inteiros quando chegava em casa. Eu escutava pelo prazer de ouvir sua voz mais do que pelo benefício da empresa. Tudo estava bem. Nós estávamos bem. Sem muito esforço ou planejamento, tínhamos alcançado a vida que sempre quisemos, uma vida de amor em abundância ao invés de carência de coisas materiais. De vez em quando, trocávamos de papel: ela ficava em casa e eu trabalhava na empresa.

A pessoa que ficava em casa era responsável por todas as atividades das crianças, o que incluía os encontros de pais e professores que insistem em acontecer durante o horário do expediente. Eu só soube da peça de teatro da escola quando já não tinha nada mais para ser argumentado, incluindo a sua participação como atriz principal. Por que uma mãe deveria participar da peça de teatro da escola era irrelevante. Mas os ensaios tomaram o que restava do seu já pouco tempo livre, conforme ela e a única outra mãe na peça praticavam os diálogos com o professor de teatro, que também era o ator principal. Por um tempo, eu perdi minhas histórias de ninar. Não as crianças, elas continuaram a se beneficiar das hipnotizantes fábulas todas as noites. Quando chegou o momento de trocar novamente, ela argumentou que a estréia da peça estava próxima e seria melhor que ela voltasse à empresa depois disso. Eu apreciei o tempo extra com as crianças, mas também teria apreciado o tempo regulamentar com a minha esposa. Eu podia discutir isso com ela, até tentei algumas vezes, mas no final eu sempre era convencido pela sua voz.

Eu a chamava sempre que precisava de convencimento especial para algum cliente, e ela sempre atendia. Era incrível, a forma como ela conseguia conciliar tantas atividades diferentes sem deixar nenhuma bola cair. Bem, nenhuma além das minhas histórias, mas eu acabei me acostumando a ser preterido. Esse, bem aí, foi o meu erro: não perceber que era tudo parte do seu comportamento subjacente. Isso e deixar-me convencer de qualquer coisa pelo simples som da sua voz. Vê-la feliz, florescendo e gostando tanto das aulas de atuação ajudaram a diminuir o meu já pouco desejo de mudar as coisas.

Quando começamos, logo depois que nos mudamos, foi como construir um novo universo. Ambos deixamos para trás qualquer coisa que não coubesse numa única mala média. Algumas roupas e os documentos essenciais, era tudo. Nossos divórcios continuaram correndo, nós simplesmente assinávamos os papéis conforme eles chegavam. Deixamos para trás casas, cônjuges e sonhos, para começar os nossos próprios. Nossa primeira residência foi uma quitinete de semi-subsolo praticamente sem mobília. Nada além de um colchão em cima do chão nu, um microondas e uma geladeira, nossas malas servindo de armário pelo tempo que fosse necessário. Comíamos em uma daquelas mesinhas de café-da-manhã na cama, debruçando-nos sobre a pequena bandeja lotada saboreando comidas instantâneas como se fôssemos uma rainha e um rei devorando um banquete. Não a simplicidade voluntária tão em voga atualmente, mas uma bastante apreciada mesmo assim.

Nós carregávamos nossa empresa conosco naquela época. Visitávamos clientes juntos, eu observando-a fazer sua mágica através das palavras, nada além de promessas e estratégias para mostrar do que éramos capazes. Em alguns meses já tinhamos feito um nome na praça e começamos a recusar clientes. Estar ao seu lado todas as horas de todos os dias foi a melhor parte. Isso nos aproximou, ainda mais. Seus olhos brilhavam, ela estava passando pelo melhor momento da sua vida. Ela confessou que gostava de trocar de grupos na faculdade, a excitação de conhecer gente nova, de mudar as coisas. Ela me reconheceu naquela primeira reunião, ela disse. Ela se lembrava de mim da faculdade, das poucas vezes que fizemos trabalhos juntos na época. Quando nossas empresas selaram a parceria, ela mudou tudo, trazendo todos sob seu comando com argumentos indisputáveis, sua maneira de dizer as coisas como se cada palavra tivesse sido preparada por semanas. Logo depois que o trabalho ganhou massa crítica, logo quando entraríamos novamente na rotina de uma máquina bem azeitada, foi quando começamos a nos perceber como mais que parceiros de negócios.

Pouco a pouco, a nossa vida juntos foi se mostrando. Quando compramos a casa, eu não esperava mobiliá-la completamente antes de pelo menos algumas semanas, mas uma única visita à Ikea resolveu a questão. Eu ficaria feliz dormindo no mesmo colchão em cima do chão nu pelo tempo que fosse necessário. Nós alugamos um escritório, contratamos funcionários, expandimos. Ela nunca parou. Nem quando estávamos grávidos, nem quando a sua barriga estava prestes a explodir. Ela trocava os móveis de lugar a cada duas semanas, tanto em casa quanto no escritório. Ela gostava de ver as coisas mudando. Quando o nosso primeiro menino começou a andar, ela estava grávida novamente.

Era a primeira vez em que não estaríamos juntos o dia todo, depois que ela voltou ao trabalho e me deixou em casa cuidando do nosso primeiro. Foi quando comecei a perguntá-la sobre seu dia, aninhando-me nas suas palavras. Foi quando eu descobri o que eu mais gostava nela, o jeito como ela fala, suas frases cuidadosamente trabalhadas, seu tom de voz. Como tudo que ela diz soa natural e espontâneo, e ainda assim é linguagem magistralmente construída. Seja um relatório integral dos nossos negócios, a descrição da reunião da tarde, os planos para nossas próximas férias ou sua própria versão de famosos contos de fadas, sempre foi mais sobre o jeito como ela dá vida e calor para tudo que diz. Como ela fala criando cores.

Ela não me deixou assistir os ensaios. Eu deveria cuidar das crianças, foi o que ela disse. Ela passou o dia da estréia inteiro preparando-se para a apresentação, saiu de casa no meio da tarde para uma última leitura e para checar o figurino, deixando-me com instruções claras sobre quando eu deveria chegar e onde deveria me sentar com as crianças. A sala estava lotada de pais e suas câmeras, ninguém se lembrando de como a excitação de ver seu filho no palco seria rapidamente derrotada pelo tédio e pelas habilidades teatrais geralmente horríveis das crianças. Eu era o único com meus próprios filhos na platéia comigo, esperando minha esposa aparecer no palco como Eurídice. Além de mim, só mais um pai e marido tinha um interesse especial na performance. Eu nem cheguei a conhecer a outra mãe na peça quando ela e minha esposa fugiram com o professor de teatro.

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