Sobras

O que a maioria das pessoas estava interessada em saber era a origem do nome, 102. É um nome bacana para um restaurante, eu acho, mas é claro que tinha uma história por trás. Bem, quando ele abriu da primeira vez, ficava em um lugar diferente e, por falta de uma ideia melhor, eles simplesmente colocaram o endereço como o nome, pendurando grandes números e letras de metal na fachada. Mas a parte do Crescent no nome, por algum motivo, nunca ficou no lugar. Mesmo feito do mesmo material que os números e pendurado da mesma forma, continuavam caindo. O 102 ficou no lugar até eles se mudarem, os mesmos três caracteres de metal usados na fachada do novo endereço. Continuar lendo

Lá Onde o Sol se Põe

Quando ela dispara o primeiro tiro, seu coração está acelerado, sua cabeça gira, e ela treme tanto que pensa que vai desmaiar. Ela tem certeza que errou o alvo mas, mais ou menos cem metros à frente, um homem está no chão, sangue jorrando de um buraco no seu peito. Ela está mortificada, ofegante, olhando ora para o cano fumegante ora para o corpo na sua propriedade. Um ruído vindo da casa a trás de volta.

“Sally, volte para dentro, agora!” Continuar lendo

RMS

Era o maior navio que o menino já tinha visto. Na verdade, era a maior qualquer coisa. Quando sua mãe lhe disse que eles iriam se mudar, ele não adorou a ideia, mas não foi contra também. Como um errante experiente, ele simplesmente aquiesceu. Seus poucos pertences foram fáceis de recolher; além de três ou quatro mudas de roupas e um travesseiro encardido, as únicas coisas que ele tinha de valor eram um velho cobertor e um carrinho de lata feito pelo Velho Floyd, o mendigo que fica no parque perto da sua futura ex-casa. Ele nem mesmo tinha uma mala. Continuar lendo

Relicário

O sol estava se levantando enquanto ele estava lá sentado sozinho no topo do morro com vista para a cidade, seus olhos no horizonte. O céu gradualmente mudando do breu profundo para o azul brilhante enquanto sua mente vagava em algum outro lugar, intocada por tudo que acontecia à sua volta. Ele não queria que outro dia começasse. Ele não se importava com a beleza da visão espetacular diante dele, pois ela não refletia o seu tumulto interior. Ele trocaria de bom grado a eternidade pela noite que estava acabando. Ele renunciaria seu desejo de viver se isso significasse passar mais alguns momentos com ela. Por que a lua se apaga? Por que se vai? Por que o dia está chegando? Por que o sol insiste em escalar para o seu lugar de direito no céu? Não está certo. Não há beleza no horizonte anunciando o alvorecer de um novo dia. Não hoje. Continuar lendo

A Bússola

Vinte minutos dirigindo e mais ou menos o mesmo tempo andando, e estávamos em uma das cavernas mais sensacionais do mundo. Perto o suficiente para meus pais me carregarem pra lá praticamente todo final de semana. Mas também, considerando que é possível atravessar o país de carro em pouco mais de oito horas, não há nada realmente longe na Islândia. Meus pais adoravam explorar as cavernas, descobrir os lindos cristais e fotografar as rochas vermelhas formadas por lava vulcânica. Eu gostava das que tinham um lago interno, as águas sempre tão serenas e límpidas. É uma pena que não é permitido nadar nelas. Eu entendo agora que é provavelmente por conta da acidez e da temperatura, mas por um tempo, quando criança, eu fiquei chateada com o Povo Oculto, porque eles não me deixavam mergulhar nas suas piscinas. Continuar lendo