O Outro Lado

Ela sempre odiou aquela parte. A obrigação de avançar pouco a pouco, deixando o corpo se ajustar às mudanças. Não era só a escuridão. Tinha também o frio, a humidade, os barulhos. Era um ambiente diferente, uma vegetação diferente, uma fauna diferente. E o cheiro. Era isso que ela mais odiava, o fedor. Ela nunca conseguiu identificar direito o que era, o que causava aquele odor fétido. Era como um aroma forte, desagradável, ácido e mofado, como se a carcassa pútrida de um animal estivesse lentamente sendo desintegrada em vinagre vencido. Tudo passava em alguns minutos, a incrível capacidade que o corpo tem de se acostumar com qualquer coisa nunca deixou de a impressionar. Claro, havia também um lado bom: era uma vista espetacular. O sol gradualmente escondendo-se no horizonte, o céu mudando de cor, as sombras cada vez maiores. Pena que tudo isso acabava antes da parte ruim começar, mas ela teria a chance de ver tudo isso de novo, ao contrário, quando voltasse. Assim que seus olhos se acostumaram com a ausência de luz, ela viu o brilho tremulante da tocha no lugar de sempre, o sinal de que seu amigo estava esperando por ela.

Não importa quanto ela resistia à transição ou quanto ela a odiava, ela sempre a fazia. Era preciso. Ela era uma das poucas dispostas a fazê-lo. A convicção de que existia uma outra forma de viver a propelia. Quando o Professor Stewart disse à classe que talvez, um dia, muito tempo atrás, a rotação e a translação do planeta não estavam em quase perfeita sincronia, ela riu junto com os outros. Ela não compreendia. Ninguém compreendia. Por tanto tempo quanto todos conseguiam se lembrar, pelo mais para o passado que os registros alcançavam, o lugar do sol no céu praticamente não mudava, nada além da sutil oscilação e do aumentar-encolher que permitiam inferir como os dois corpos celestes se moviam um em relação ao outro.

No começo, a própria ideia parecia atroz para ela. Imagine: um planeta onde o sol se move ao longo do céu, permitindo que sua luz e calor alcancem todos os lugares, permitindo que cada lado tenha períodos de luz e de escuridão. Quais seriam as implicações? Nossos corpos não estão preparados para algo assim. Era exatamente isso o que o Professor Stewart queria dizer. Nós evoluímos a partir da forma como o mundo funciona, tudo evoluiu. Mas podiam existir traços no nosso material genético provando que um dia vivemos a partir de paradigmas diferentes. É provavelmente por isso que nós somos capazes de aguentar ficar no lado escuro, uma vez que o choque inicial passa e nossos corpos se ajustam.

Espera aí. O quê?

Sim, ele tinha estado lá antes, ele tinha estado nas terras escuras. Não, não era letal, ao menos não se você tomasse as precauções necessárias. Era frio e úmido, mas era também cheio de plantas e animais parecidos com os que temos deste lado, sob o sol. Quem sabe? Talvez existissem mesmo pessoas lá, pessoas que, como nós, evoluíram sem ter o sol sobre suas cabeças constantemente. Ele vinha fazendo aquilo há anos, indo lá, coletando amostras, estudando espécimes, comparando adaptações. Ele descobriu uma espécie de cachorro vivendo no escuro com as mesmas características básicas dos que tínhamos no lado iluminado. Era maior, com um pelo longo, grosso e marrom claro, e aparentemente um olfato ainda mais aguçado. A principal diferença, entretanto, eram os olhos. Levemente maiores, com uma córnea de formato incomum que também era incrivelmente elástica. Ele descobriu que era comum nos animais do lado escuro, esses tipos de olhos. Uma vez ele ficou lá por quinze transições inteiras para estudar os efeitos da exposição prolongada em si mesmo. Ele carregava pequenos animais de um lado para o outro para fazer os mesmos estudos. Era mais fácil, ele descobriu, para os seres do lado iluminado se ajustarem ao escuro que o contrário. Seu cão do lado escuro, por exemplo, não conseguia manter seus olhos abertos por mais que alguns momentos e, quando o fazia, olhava sempre para baixo, para sua própria sombra, seus olhos claramente incapazes de suportar a claridade. O cachorro também experimentou um tipo de fadiga constante, aparentemente por conta do calor. Tudo que ele estudou e descobriu apoiava suas alegações: a rotação do planeta costumava permitir que o sol se movesse no céu.

Ele a mostrou tudo que aprendeu, tudo que descobriu. Ele estava lá na primeira vez em que ela pisou na escuridão, ele estava lá para dizê-la para manter a calma, para ir devagar, que tudo logo iria passar. Foi ruim da primeira vez. Continuou sendo ruim todas as vezes em que ela o fez, e quando o Professor Stewart morreu, ela quase parou de ir. Não fosse por um pequeno mas importante incidente, ela provavelmente teria deixado as aventuras de lado.

Curioso como ele era, o Professor também era cauteloso. Sua área de exploração era limitada a alguns quilômetros dentro da escuridão, uma zona que ele expandia pouco a pouco. Ele explicou para ela a sua “teoria da simetria”; quanto mais para dentro da escuridão, mais difícil seria para seres vivos se desenvolverem, assim como o centro do hemisfério iluminado era um deserto quente e seco demais para qualquer coisa prosperar. Não adiantava ir mais longe, ele dizia. Talvez, mas é consideravelmente mais fácil aquecer um lugar frio que esfriar um quente. Além disso, havia vida mesmo no epicentro da luz, lá onde o sol fica diretamente sobre as nossas cabeças. Pela mesma teoria, poderia existir vida no epicentro da escuridão. Ela não esperava chegar tão longe, mas a área do Professor poderia, e deveria, ser ampliada.

Sua primeira missão foi logo após a morte do Professor. Temendo que outras pessoas descobrissem suas aventuras antes que tivesse tempo de adquirir provas suficientes para justificá-las, antes de ter algo que as pessoas não apenas aceitassem, mas entendessem que era preciso explorar mais, ele afastou-se da civilização, trabalhando em quase completa solitude, visitado apenas pela garota e mais um punhado de outras mentes curiosas. Uma morte simples para um homem tão importante. Uma morte evitável, acima de tudo, se ele estivesse mais facilmente acessível. O já pequeno grupo foi cortado pela metade pelo seu falecimento, não havia sentido em continuar sem a orientação dele, disseram. Ao contrário, pensou a garota. Aquele era o momento de honrar a sua memória continuando o seu trabalho. Desta vez, entretanto, ela estava sozinha.

Quando ela planejou a viagem, sua primeira decisão foi a mais improvável: não haveria uma meta para a distância. Ela iria tão longe e para dentro quanto pudesse, ela avançaria por quanto tempo quanto ela fosse capaz de suportar. Ela estudou tudo que o Professor descobriu, analisou cada espécime que ele trouxe de volta, comparou com tudo que sabia. Para que funcionasse, ela teria que ser capaz de sobreviver com o que a escuridão a provesse. Ela carregaria provisões suficientes para uma semana, duas no máximo, então estaria à mercê da natureza. Mas ela estava confiante que era a melhor decisão. Ela nem esperou os efeitos da transição passarem; ela avançou corajosamente, experimentando cegueira temporária por alguns momentos e ficando tonta com o cheiro. Era ainda mais difícil contar o tempo no lado escuro do que era no claro, ou talvez ela simplesmente não estivesse acostumada. Ela quase não notou quanto alcançou o recorde do Professor, quinze transições, incapaz de dizer com certeza quanto tempo já tinha estado lá. Naquele momento, ela já estava mais longe do que o Professor jamais tinha ido, mas levaria ainda mais noventa transições e muitos quilômetros até ela se dar conta de que poderia ficar ali quanto tempo quisesse, e pelo momento que mudaria a sua vida para sempre. Provavelmente a do planeta todo.

Ela já tinha se acostumado aos ruídos da escuridão, ao som dos animais. Ela sabia que enquanto estivesse perto do fogo, não seria incomodada. Entretanto, ela acendia as menores fogueiras para não perturbar a vida selvagem mais que o necessário. É por isso que ela espantou-se quando viu uma outra fonte de luz bem à frente. Ela não conseguia saber se era uma grande fogueira distante ou uma pequena perto, mas não havia engano. Ela pensou que a sua aproximação havia sido tão incógnita quanto possível, mas não podia imaginar do que um ser que cresceu na escuridão era capaz. Quando eles estavam face à face, era como olhar por uma janela para outra dimensão, para ambos.

Era novo e estranho, e ainda assim familiar. Eles se pareciam, mas eram diferentes. Ele era praticamente todo coberto por pelos, grossos mas marrom-claro, como os do cachorro. Seus olhos eram maiores, e suas íris tinham um formato incomum. Ele ficava de pé assim como ela, andava e se movia do mesmo jeito também. Estava usando uma espécie de macacão de couro e carregava uma mochila. Ele, também, era um explorador. Nos primeiros momentos ambos congelaram, com medo demais para fazer qualquer coisa. Ela levantou vagarosamente a mão sinalizando que não queria fazer-lhe mal. Ele fez o mesmo. O gesto significava a mesma coisa para ambos? Ele abaixou a mochila e procurou algo dentro, que apresentou a ela. Era um instrumento, algo que ela conhecia bem. Uma pequena pinça de metal usada pelo Professor para coletar amostras.

Com as visitas, eles descobriram que não apenas suas aparências físicas eram parecidas, mas também muitos dos seus hábitos e, surpreendentemente, o idioma. Não era o mesmo, mas era parecido o suficiente para permitir algum entendimento mútuo até que ambos aprendessem a língua do outro. Eles tinham tantas questões, queriam compartilhar tanto. Mas sabiam que precisavam ser cuidadosos, nem todos estavam prontos para saber ainda, dos dois lados. Ela sentiu uma súbita tristeza por ter encontrado o que poderia muito bem ser a prova definitiva da teoria do Professor. Ele a contou que o viu uma vez mas nunca se aproximou, principalmente por que ele nunca se aventurava longe o suficiente. Era difícil para ele deixar a escuridão, seus olhos começavam a doer assim que estava na região crepuscular entre o escuro e a luz.

Naquela vez, quando ela entrou na escuridão, suportando mais uma vez o frio e os barulhos e o cheiro, ela sabia que estava prestes a fazer tanta diferença na vida dele quanto o Professor fez na dela. Quando ela viu o seu fogo tremulando ao longe ela quase correu, mas sabia que o lodo provavelmente a faria cair se tentasse. Ele não tinha ideia, o que deixava tudo ainda mais excitante. Ela vinha organizando o laboratório do Professor e encontrou novas anotações e equipamentos, coisas nas quais ele estava trabalhando e não tinha tido tempo de contar a ninguém. Um conjunto particular de cadernos a interessou particularmente: o Professor vinha estudando a estrutura ocular do cachorro, e inventou um jeito de fazer com que ele permanecesse de olhos abertos. Ela teria que adaptar para o formato de cabeça diferente, mas a ideia principal iria funcionar.

Eles comeram primeiro, trocando receitas dos dois lados como sempre faziam. Então eles conversaram, treinando mais os idiomas um do outro. Então ela levantou-se e fez-lhe menção para que a seguisse. “Eu sei”, ela disse, interpretando seu olhar confuso, “seus olhos. Eu tenho algo pra você.” Ela colocou em suas mãos um estranho aparato, uma faixa de couro com duas estruturas redondas amarradas, uma espécie de vidro esfumado em cada uma. Ele entendeu instantaneamente para que serviam. Ele colocou o aparato na cabeça sem cobrir os olhos e sorriu para ela. Conforme caminhavam em direção ao lado iluminado, ele resistiu o quanto pode antes de ajustar o equipamento. Mesmo acostumado ao escuro como estava, a interação entre a luz e as lentes ainda levariam algum tempo. Então eles se deram as mãos e, pela primeira vez, ele viu o sol surgir no horizonte, sentiu o calor na sua pele. Para ele, também, havia um cheio estranho e ruim, que logo passaria, mas ele nem estava prestando atenção pois, pela primeira vez na vida, iria saber como era o mundo do outro lado.

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