O Protetor

Minha mochila pesava mais ou menos vinte quilos, o sol estava em seu zênite, eu tinha esquecido de reaplicar protetor solar e meus óculos de sol estavam escorregando pelo meu nariz por conta do suor. Todos os elementos de uma decisão estúpida, e eu sabia. Eu sabia antes de começar a subir o morro entre os falsos gritos de encorajamento dos meus amigos trilheiros e campistas. Eu sabia que não deveria ter dado ouvidos ao desafio, que eu deveria simplesmente ter ignorado. Mas eles sabiam que eu não conseguia resistir a um “duvido”, os bastardos a quem eu concedo o privilégio de chamar de amigos. Então lá estava eu, subindo a ladeira rochosa com todo o meu equipamento, porque eles duvidaram que eu conseguiria chegar até o topo e ver se a vista era realmente tão incrível quanto eu disse que seria. Idiotas. Todos, o grupo inteiro. Inclusive eu.

Eu quis desistir no meio do caminho, mas eu sabia que teria que aguentar as provocações até o final da viagem. Quem eu quero enganar? Até o final da minha vida. Eles nunca iriam me deixar em paz. Ainda assim, a maior idiota sou eu. Sou eu quem deveria ter dito “não” pra início de conversa. Sou eu quem deveria ter dito que todos podíamos subir, deixar nossas mochilas e ir, não levaria mais que alguns minutos, e não era como se tivéssemos reservado um horário ou algo assim. Eu nunca deveria ter dado a eles a oportunidade de começar uma frase com “duvido que você…” Mas ali estava eu, quase no topo, quase não sentindo mais minhas pernas. E ainda tinha o caminho de volta, e o resto da trilha até o acampamento. Idiota.

Então eu fiquei o tempo que quis no topo. Sentei no chão, tirei algumas fotos com meu celular só para ter prova definitiva de que eu tinha chegado lá. Eu já tinha tomado metade do meu cantil, o que deveria ter durado até chegar no acampamento, quando notei que os meus não eram os primeiros pés a pisar ali. Eu não era a melhor nessas coisas, mas eu jamais chamaria o Steve para ver. Eu tentei lembrar de tudo que ele costumava dizer quando descobria algum rastro, o jeito como ele analisava. Tinha muito vento lá em cima, e a terra não estava muito compactada, o que queria dizer que as pegadas que eu estava vendo eram relativamente recentes. E iam para dois lados. Eu andei em uma das direções, vi que dirigiam-se para uma área de mato cerrado. A outra também, exceto que parecia haver uma clareira não muito longe. Quase imperceptível, mas definitivamente estava lá. Eu forcei meus olhos para focar naquele ponto específico, e não sei se era a minha mente pregando peças, mas parecia que era um pequeno acampamento, traços de fogo no chão. Eu olhei para as pegadas novamente, para o jeito como elas iam e vinham, percebi as poucas folhas quase formando uma trilha deixada por alguém carregando galhos. É o tipo de coisa que o Steve diria. Eu quis que ele estivesse ali comigo para confirmar tudo aquilo, mas eu também estava brava com ele, com todos eles. Então decidi não contar nada daquilo para ninguém e desci.

Eu não conseguia sentir mais meu ombros quando finalmente tirei a mochila, que àquela altura já pesava uns 70 quilos. Meu completo silêncio durante o resto da trilha foi o suficiente para que as provocações sobre o desafio e a subida desaparecessem durante a primeira hora. Na metade do caminho entre o morro e o local do acampamento, eles começaram a se preocupar se eu estaria muito exausta para continuar, e os três rapazes do grupo ofereceram-se para carregar o meu equipamento. Não fui tão inocente a ponto de ceder. Também estava muito distraída com a presença de mais alguém na área. Não me lembro de ter armado a minha barraca, ao ponto em que suspeito que um dos meninos o fez por mim. Provavelmente Steve.

Minha cabeça estava em outro lugar enquanto o grupo conversava em volta da fogueira na primeira noite. Eu alternava entre olhar na direção do morro e da provável localização da clareira, tentando ouvir entre os risos e baboseiras do meu grupo. Normalmente ficamos nisso a madrugada inteira na primeira noite de acampamento, mas desta vez todos vieram com uma desculpa esfarrapada para dormir mais cedo. Eles provavelmente o fizeram por mim, culpados por terem me cansado com o desafio estúpido, acreditando que meu silêncio era devido ao esforço da subida. Antes de fechar minha barraca, quando todos já estavam deitados, eu tentei ouvir atentamente mais uma vez, procurei por sinais de qualquer luz vindo da direção da clareira. Não sei se era o que minha mente queria ver, mas havia um leve tremular ao longe.

Então, na manhã seguinte, fingindo sair para uma caminhada – o que eu normalmente fazia, o que tornou as coisas mais fáceis – eu andei na direção da clareira. Mais uma vez, desejei que Steve estivesse ao meu lado, olhando para o chão e fingindo ser um índio rastreador. Entre o teatro e as explicações excessivamente longas, ele normalmente estava certo. Mas eu não era tão ruim assim com aquilo. Levei um pouco mais de tempo do que o esperado, mas achei. Não havia ninguém lá, mas havia uma espécie de cabana feita de folhas e galhos, sinais de fogo recente no chão, e as mesmas marcas de bota indo e vindo. Instintivamente, virei-me para o morro, e talvez fosse a minha cabeça novamente, mas eu pude ver uma sombra se movendo.

Eu não poderia esperar, nem mesmo sabia se deveria. Mas eu estava atraída por quem quer que estivesse ali. Eu queria conhecer aquela pessoa. Havia algo na forma como o seu acampamento estava organizado, em quão pequeno a fogueira parecia ter sido. Sem falar na cabana feita de árvores. Eu pensei sobre isso por alguns instantes e decidi deixar um bilhete. Expliquei que vi a clareira do topo do morro, que éramos um grupo de amigos acampando, a direção do nosso acampamento, dizendo que quem quer que estivesse ali era bem vindo a se juntar a nós. Eu fiquei com o bilhete na mão por um momento, sem ter certeza do que fazer, pensando no que os outros falariam se eu lhes contasse o que estava prestes a fazer. Então um barulho vindo das árvores me assustou e eu corri de volta, deixando o pedaço de papel para trás.

“Eu pensei que essas suas caminhadas fossem uma coisa para se acalmar”, disse Steve vendo-me chegar ofegante.

“Eu ouvi um barulho e me assustei…”, admiti com vergonha, contando a meia verdade o melhor que podia. Todos estavam prontos para a primeira atividade em grupo do dia: trilha até uma cachoeira próxima, algo que não tinha considerado quando deixei o bilhete. E se essa pessoa aparecesse quando não houvesse ninguém ali e levasse nossos suprimentos? Nós escolhemos aquele parque, aquela localização e aquele mês especificamente para que pudéssemos ficar em paz, e então eu convidei alguém que eu sequer havia visto. Eu tentei esquecer sobre aquilo, o que estava feito estava feito. A água massageando minhas costas tornou fácil levar minha mente para outro lugar, ao ponto em que eu tinha literalmente esquecido quando chegou a hora de voltar.

Tínhamos ficado na cachoeira o resto da manhã e a maior parte da tarde, e ninguém lembrou de levar comida além de alguns petiscos. Todos estavam famintos, e quando chegamos de volta nós rapidamente entramos nos nossos papéis usuais de cozinha de acampamento. O meu era preparar a comida propriamente dizendo, a começar por organizar três fogareiros de tamanhos diferentes. Jack organizava a comida, cortando e deixando todos os ingredientes prontos para que eu os usasse. Steve cuidava das bebidas e de arrumar a “mesa”, incluindo deixar a fogueira pronta para ser acesa já que sabíamos que já estaria de noite quando começássemos a comer. Lisa cuidava do nosso estoque, garantindo que não exageraríamos no uso de nada do que trouxemos e que teríamos suficiente para os outros dois dias em que ficaríamos ali. Julie e Eric voltaram para a cachoeira para buscar água, já que todos esquecemos de reabastecer nossos cantis.

Eles voltaram para encontrar tudo praticamente pronto, e nos sentamos com nossos garfos-colheres e outros utensílios de acampamento, comendo, bebendo e rindo. Já que ninguém estaria disponível para tocar ou cantar, Eric colocou sua caixa de som Bluetooth numa árvore ao nosso lado e providenciou a música. Ninguém ouviu os passos se aproximando, ninguém reparou na mão indo em direção ao botão de desligar da caixa de som. Todos pulamos de susto, um pouco de comida voou, quando nosso visitante nos deu sua primeira lição:

“Vocês vão atrair todo tipo de vida selvagem com esse tanto de comida espalhada por aí.”

Ele não parecia querer nos machucar. Pelo contrário, na verdade. Por trás da barba e dos cabelos desgrenhados e prateados, podíamos ver olhos cheios de generosidade. E um leve sorriso ao ver Steve “protegendo” o grupo com o seu garfo-colher. Ele olhou para nós e para o nosso acampamento, esperando que tomássemos a iniciativa seguinte.

“Você veio!”, eu disse me levantando. Todos olharam para mim com basicamente a mesma expressão. Um deles estava intrigado por quem eu poderia ser. Os outros cinco estavam intrigados pelo fato de que eu estava acolhendo aquele homem. “Quando eu estava no topo do morro, vi sinais de pegadas e uma clareira no meio do mato”, comecei a explicar. “Então esta manhã fui até a clareira e, já que não o encontrei, deixei um bilhete.” Os olhos do homem moveram-se para os meus amigos, esperando suas reações, que foram variações de um olhar dizendo “você fez o quê?” Eu ia explicar mais, compartilhar minha lógica, mas ele falou primeiro.

“Dá para perceber que não é a primeira vez que vocês fazem isso, mas ainda há coisas que vocês deveriam pensar em fazer diferente, além de estocar melhor a sua comida.”

“Desculpe, mas quem é você?”, Jack perguntou.

“Ah, perdão. Faz tanto tempo que me esqueci de como se faz isto. Meu nome é Zacharias. Mas podem me chamar de Zach.”

“Bem, Zach, você acertou uma coisa. Já fizemos isso antes, muitas vezes. Praticamente duas vezes por ano desde a faculdade, então estamos bem acostumados.”

“Hum… Então vocês sabem que uma fogueira deste tamanho não só desperdiça lenha mais também demora mais a apagar, e quando apaga deixa tudo com cheiro de fumaça.”

Todos olhamos para o fogo que tínhamos acabado de acender. Estalava alto e ainda tinha a fumaça densa e escura do começo, a parte que eu mais detesto. Zach andou até lá e, usando nada além das suas mãos, puxou alguns dos galhos do fogo, apagou-os, rearranjou os que restaram e circulou tudo com uma trincheira com pedras. Em segundos, não havia mais fumaça, o fogo ia só até a altura dos tornozelos, e ainda tínhamos a mesma quantidade de luz. “Agora, sobre a sua comida”, disse Zach, andando na direção da nossa despensa improvisada. “Isto provavelmente é uma cópia do que vocês tem em casa. Não vai funcionar aqui.” Ele apontou para os outros suprimentos empilhados ao lado de uma das barracas. “Vocês devem manter alguns tipos de comida separados dos outros. Frutas macias de frutas duras, por exemplo.” Ele pegou um cacho de bananas. “Isto aqui só vai durar mais dois ou três dias, e vai atrair moscas mesmo antes disso. Deixem embrulhado.”

“Não vamos ficar aqui mais do que isso, de qualquer forma”, disse Steve, já hipnotizado pela forma como Zach parecia estar em seu elemento.

“Sério?”, respondeu Zach. “Com esse tanto de comida, daria para ficar mais uma semana, talvez até dez dias.” Ele olhou em volta para o que, então, começou a parecer muito mais do que precisávamos. “E nem estou falando de usar o que a natureza oferece aqui. Vocês sempre trazem esse tanto de comida extra?”

Eu podia ver Jack querendo dizer que não pretendíamos levar comida de volta, mas resistindo. “O que mais você pode nos dizer?”, ele disse ao invés do que estava pensando.

“Suas barracas deveriam estar mais próximas umas das outras. Vai ajudar a conservar o calor, e tornar mais fácil a proteção contra visitas selvagens.”

“Visitas selvagens?” eu disse, pensando em mais eremitas como ele.

“Sim, animais. Há vários criaturas aqui que adorariam colocar as patas em algumas das suas coisas, e que não teriam medo de um pequeno fogo.” Lisa e eu olhamo-nos uma à outra.

“Que tipo de animais?”, ela perguntou.

“Ah, tem linces, pumas, coiotes, esquilos, marmotas, ratos. Se vocês derem sorte, podem ver um urso. Sem falar nos voadores.”

“Pássaros?”, Lisa já estava encolhida de medo.

“Sim. E morcegos, claro”, ele disse, tão casualmente como se estivesse falando do tempo. “Mas tenho certeza de que vocês pesquisaram tudo isso antes de vir para cá.” Nossos olhares mútuos nos entregaram. Seu olhar foi suficiente para que entendêssemos que tínhamos dado sorte até então.

Lisa quebrou o silêncio desconfortável que se formava. “E como você faz isso?”

“Faz o quê?”

“Sabe disso tudo.”

“Ah, eu já estou aqui há algum tempo.” Nos entreolhamos novamente, percebendo pela primeira vez com quem estávamos falando. Pelas próximas horas, ele nos ajudou a rearrumar nosso acampamento, nos mostrou como fazer uma fogueira melhor – usando nada além do que a natureza nos provia, além de tudo – e nos ensinou a diferença entre os vários tipos de comida que tínhamos levado, como separá-los por tipo e vencimento de forma que não interferissem no gosto uma da outra, durasse mais, e ficasse protegida de animais. Truques simples como manter algumas velas aromáticas, ou mesmo aquelas folhas de amaciante de roupas – que a Lisa sempre trazia para deixar suas roupas com cheiro de lavadas, e evitar que o odor ficasse muito forte depois de usadas – em volta do acampamento para evitar evitar a maioria dos visitantes. Tomar cuidado com sobras – ou, melhor ainda, evitá-las completamente. Foi quando ele falou de novo da quantidade de comida que tínhamos. Nosso cálculo de quantidade sempre esteve errado. É por isso que sempre tínhamos sobras e levávamos um pouco de volta conosco. Ele disse novamente que poderíamos ficar ali facilmente mais uma semana só com o que já tínhamos, e até mais dez a doze dias se adicionássemos o que era possível pegar na natureza sem esforço. Entendemos isso como um convite para ficar mais tempo, então ficamos. Começamos a desmontar o acampamento exatamente doze dias depois daquilo.

Zach voltou quase todo dia, ajudando-nos a redescobrir os prazeres de acampar. A gente pensava que aproveitava a natureza antes, mas ele nos mostrou um lado diferente, onde abandonávamos ainda mais nossos modos da cidade e nos entregávamos ao selvagem. E mesmo depois de tudo que ele nos ensinou, ainda queríamos saber mais, então a iminência da nossa partida nos fez soterrá-lo com mais perguntas, às quais ele respondia com alegria. Mas realmente tínhamos que ir. Nossa estadia já havia sido prolongada muito além do que esperávamos, com mais conforto e aproveitando tudo melhor, mas nossas vidas nos esperavam. Como um bom professor, ele ficou ao lado nos observando colocar tudo de volta, nos dando as últimas dicas de como dobrar melhor as barracas, arrumar as mochilas, distribuir o peso.

“Você nunca nos disse exatamente quanto tempo faz que você está aqui”, Steve perguntou. Ele era o mais interessado em tudo que Zach tinha a dizer.

Ele respondeu depois de um silêncio quase embaraçoso. “Não me lembro. Parei de contar muito tempo atrás.” Ele olhou para o morro, talvez lembrando-se da vida que tinha antes.

“E como é que deixam você morar aqui? É uma reserva florestal, um parque protegido. Eu pensei que não era permitido fazer o que você faz.” Jack não conseguia evitar pensar nos aspectos práticos e legais de tudo.

“Não me deixam. Ninguém sabe que eu estou aqui. Eu me tornei bastante bom em permanecer à sombra, evitar os olhares, como qualquer outro animal selvagem. Sua amiga aqui foi a primeira que me encontrou.” Eu podia sentir os olhares de todos em mim, especialmente do Steve.

“Não se preocupe”, disse Lisa, “não vamos contar pra ninguém.”

“Ah, eu sei”, Zach mordeu uma fruta, um pouco de suco escorrendo pela sua barba. “Senão não deixaria vocês partirem.” Ele estava tão sério quanto sempre esteve. Outra mordida na fruta e ele nos agraciou com uma piscadela, aliviando a tensão que suas últimas palavras tinham criado. Ele nos desejou um bom retorno, disse que gostou de ter companhia pra variar, e caminhou para dentro do mato.

“Espere, mas por que você pra cá?”, Jack perguntou. Mas ele já tinha desaparecido, nada além dos sons da natureza ao nosso redor. Terminamos de organizar as coisas em silêncio, fizemos o caminho de volta para os carros da mesma forma. Antes de sair, olhei em direção ao seu acampamento, esperando enxergar qualquer sinal, por mais sutil que fosse, de que ele estava ali, mas só haviam as árvores. Esperei vê-lo novamente, o protetor da floresta, nosso protetor, mesmo sabendo que provavelmente aquela tinha sido a última vez.

Emilia

Aí deixaram um bebê na minha porta. Assim, como se estivéssemos nos anos 1800. Eu acordei, pronto para ir para o trabalho, segurando meu café em uma das mãos e minhas chaves na outra, e quando abri a porta lá estava. Ela. Era uma menina. Toda aconchegada em uma pequena cesta, embrulhada num cobertor verde-claro, dormindo profundamente. Sem bilhete, nenhum sinal de alguém ao redor, um bebê deixado na porta de um estranho no meio da madrugada. Continuar lendo

Vende-se

Dirigindo pela estrada estreita cheia de curvas amenas, depois de um longo tempo passando pela beira de um lago à sua esquerda, indo para o norte, Kevin não conseguia parar de pensar na sorte que teve. Ele tocou sua testa onde havia um galo que ainda doía. Ele olhou para as marcas nos seus braços e nas suas mãos, formas ovais com um gradiente de cores indo do vinho nas extremidades, rosa perto da borda, para amarelo no centro. Elas lembravam as folhas nas árvores pelo caminho, tons de outono alcançando o máximo da sua beleza. Não fosse pelos verdes, o espetáculo de cores nas montanhas seria similar às que estavam no seu braço fino, seu corpo inapto para qualquer trabalho físico, ainda menos para brigas. Ainda assim, ele tinha saído vitorioso, ao menos daquela vez. Tinha dores pelo corpo todo, mas estava de pé.

De pé. Era um pouco de exagero. Ele não chegou a desmaiar, mas isso não quer dizer que ele saiba realmente o que aconteceu. Ele se lembra de ter sido atacado, um primeiro golpe no seu ombro que o jogou no chão, seguido por uma série de chutes rápidos no tórax e na virilha. Esses o forçaram a expirar, deixaram-no sem ar, e sem tempo para proteger a cabeça antes de ver o pé vindo em sua direção. Então, um estampido alto, o corpo do seu adversário caiu por si próprio. Escorregou em algo pegajoso no chão, vermelho. Sangue. Seu sangue, que escapava da sua boca em erupções dolorosas. O pé fez ainda outra tentativa, a perna movendo-se para o lado atingindo suas têmporas muito mais gentilmente do que os outros golpes e, em um movimento rápido, levantando-se novamente. Instinto puro o levou a esticar seu braço e alcançar o outro pé, puxá-lo para si enquanto o atacante ainda retomava o equilíbrio. De volta ao chão, outro estampido, seguido de mais um e de um grito. Kevin levantou a cabeça por tempo suficiente para ver seu inimigo tocando a parte de trás da sua. Parecia que teria alguns segundos para se recuperar, ficar de pé, talvez correr. Seu coração estava disparado e sua respiração estava curta e rápida. Ele ainda estava sentado quando foi puxado para cima, mãos fortes agarrando seus ombros, garras poderosas quase quebrando suas clavículas. De alguma forma, Kevin conseguiu aproveitar-se da puxada colocando um pé no peito do inimigo, seguido pelo outro e por um empurrão feroz. Foi o suficiente para livrar-se das garras, mas Kevin não tinha calculado a falta de suporte uma vez que a manobra tivesse terminado; ele caiu duro no chão, suas costas batendo no concreto como uma tábua. E então botas vindo novamente em sua direção, incansáveis, punhos cerrados ao lado.

Suas mãos doíam no volante. A estrada era linda, cercada por árvores e lagos, pequenas casas charmosas aqui e ali. Mas Kevin não estava aproveitando a paisagem. Ele não tinha escolhido aquele caminho pela sua beleza. Na verdade, não tinha feito nenhuma escolha, virando para qualquer caminho onde acreditasse haver menos tráfico. Se ele tivesse prestado atenção, a paisagem poderia tê-lo ajudado a se acalmar, aliviar um pouco da tensão das últimas horas, talvez conseguir entender o que estava de fato acontecendo.

Ele mal teve tempo de se levantar e começar a correr, sem saber para onde. Foi quando teve um primeiro vislumbre de onde estava, e também quando percebeu que não seria capaz de chegar na saída e fugir. Outro lapso de memória, incontáveis minutos – ou mesmo horas – que ele não conseguia se lembrar, e ele estava andando ao lado de um riacho, água correndo sobre um lindo leito rochoso. Havia sangue nas suas mãos, braços, e ele estava sem um dos sapatos. Sua cabeça girava e sua boca tinha o gosto amargo de vômito. Ele olhou em volta, viu uma grande construção, um tipo de antiga fábrica, e o que parecia ser o rastro do seu próprio sangue levando a ela. Curvando-se na água, ele lavou o sangue das mãos e o gosto horrível da boca, sentou ali pelo que poderia ter sido um dia inteiro.

Não saber onde estava não quer dizer que Kevin não conseguiria encontrar o lugar que estava procurando. Era uma zona rural montanhosa, era certo que ele acabaria em algo parecido com um penhasco em algum momento. Ele observou sinais de visitantes recentes, lembrando-se do quão vazia estava a estrada que o levou ali. O velho carro reclamou quando a estrada de terra ficou mais íngreme, mas continuou subindo. Só quando chegou ao topo Kevin pareceu parar e apreciar a paisagem. Uma floresta colorida cobria uma magnífica cadeia de montanhas, umas poucas casas espalhadas, a maioria perto do lago bem no meio disso tudo. Diretamente abaixo dele, um penhasco terminando em um rio escondido pelos pinheiros altos, tornando o lugar ainda mais perfeito. Ele parou o carro no ponto em que o chão dava lugar à parede rochosa. Um leve empurrão e o Dodge Colt cinza-azulado 1986 mergulhou de frente para o rio e as árvores abaixo.

Andar um pouco para cima e para baixo do riacho revelou que não havia mais nada ao redor, então ele voltou para a velha fábrica, mesmo temendo o que poderia esperá-lo dentro. O rastro de sangue levava para uma porta de aço, que abria para um vasto interior espetado por colunas. Havia móveis velhos e sucata por todo lado, exatamente o que espera-se encontrar em um lugar assim. Exceto pelo corpo preso em uma das colunas, suspenso pelo gancho de uma das velhas máquinas. Sangue pingava das mãos, e um revolver totalmente carregado estava no chão diretamente abaixo. Ele estava lutando com aquele homem, e estava perdendo. Sorte pura permitiu que Kevin vivesse para ver outro dia. Mas a arma no chão não parecia se encaixar; se o inimigo a tinha desde o começo, por que não usá-la? Relutante, ele revistou o corpo para encontrar um distintivo e uma carteira; um detetive de polícia. Corrupto, a julgar pela quantidade de dinheiro em seus bolsos e pela violência do seu ataque. Ele precisava de Kevin vivo, a julgar pelo fato de que este ainda podia respirar. Não fazia sentido, mas aquele não era o momento de descobrir o que havia acontecido. Ele tinha um outro problema para resolver.

A solução apareceu por si própria algumas curvas abaixo, na estrava que passava em frente à fábrica abandonada. $500 por um carro, não importa quão antigo ele seja, é uma pechincha. Tudo que Kevin precisava era que ele funcionasse, e funcionava. Ele não queria firulas, nem mesmo muito espaço. Só precisava de um porta-malas grande o suficiente para um corpo.

Tatuagem de Gato

Allyson acordou assustada, como se estivesse sonhando que estava caindo, e derrubou seu celular e o copo d’água do seu criado mudo, tornando aquele começo de dia em algo já não muito agradável. Ela sentou-se no travesseiro esperando sua respiração e seu pulso voltarem ao normal antes de colocar os pés no chão gelado, perguntando-se onde teriam ido parar suas pantufas.

“Quem está aí?”, ela perguntou. “Não, sério, quem está falando?”

Sua confusão foi agravada pelo fato de que não havia mais ninguém no quarto.

“Ei, pare com isso!”, ela gritou, uma nota de medo em sua voz. “Eu disse pra parar!” Continuar lendo

Desde o Começo

A noite já estava tão avançada que era possível considerar já manhã. Sentado em frente à sua mesa de trabalho, John olhou para a bagunça de livros abertos com várias páginas marcadas por pequenos e coloridos adesivos; um monte de papéis mostrando desenhos, esquemas, anotações e diagramas; canetas de diferentes tons e espessuras espalhadas; e seu computador com a tela brilhando, várias janelas abertas, o navegador mostrando não menos de duas dúzias de abas abertas. Continuar lendo