Paraíso num Dia Perfeito de Primavera

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Ela conseguia sentir. O beijo morno e suave, o cheiro salgado, a textura de milhões de grãos minúsculos entre seus dedos do pé, o ritmo calmo da música. Ela estava lá, com ele, sentindo o sol queimar sua pele em um bronzeado perfeito, a sensação de purificação que só o suor consegue prover. Uma cascata de emoções e memória a transportou, como se ao invés de simplesmente segurar aquele pedaço de papel retangular ela tivesse sido magicamente transportada para um tempo em que tudo parecia mais simples. Ela estava lá, com Julien, ambos no auge da juventude, sentados na baía sentindo a brisa, compartilhando seus planos para o futuro. “Viajar”, ele disse, “eu quero ver um pouco mais do mundo antes de pensar em qualquer outra coisa.” Ela também sonhava com aquilo, mas sabia que seus pais jamais permitiriam.

O cartão postal chegou quando ela já tinha esquecido daquilo tudo há tempos. E veio com calma, aparentemente. Apesar de não ter as bordas enrugadas, era um cartão antigo. A imagem, uma cena de praia, ela claramente uma daquelas fotos em preto e branco colorizadas depois de tirada, para impressão, aquelas cores meio lavadas, os tons de pele não correspondendo muito à uma pessoa de verdade, os verdes e marrons das árvores um pouco esquisito. Ela lembrava de ter visto cartões assim nas coisas da sua avó quando ela faleceu. Poderia ser um daqueles, uma lembrança de um parente que se foi, uma pequena peça histórica vinda de um baú, distribuída entre os entes queridos. Mas aquela chegou pelo correio naquele mesmo dia, e tinha seu nome e endereço escrito. E praticamente mais nada. Nenhuma mensagem, nome do remetente. Só duas letras: J.O.

Julien Owen. Eles tiveram um lance no último ano do secundário quando ambos se descobriram na mesma cidade costeira para o verão, ambos finalmente contentes de seus respectivos pais terem escolhido aquela praia em particular. O que eram olhares e sorrisos cruzados no corredor transformou-se em longas caminhadas pela areia, longas conversas ao por do sol, esperando por um beijo que nunca aconteceu. Ele tinha grandes planos, iria sair assim que a oportunidade aparecesse, e gostava muito dela. Foi Julien que nunca deixou nada acontecer, que continuava falando quando ela desejava seus lábios silenciados pelos dela. Já estava tudo certo na época. Ele partiria no fim do verão, exploraria o mundo como sempre quis, viveria em outros países por alguns meses, talvez anos. “Mas eu quero manter isto, quero você na minha vida. Eu vou te escrever, o tempo todo, contar das minhas aventuras maravilhosas.” E ela escreveria de volta, manteria a conversação acesa até o momento em que ele voltaria, se instalaria e, talvez, finalmente seria a sua vez. “Seremos amigos por correspondência”, ela respondeu.

O cartão estava nas suas mãos como se fosse a coisa mais frágil do mundo. Ela o segurava gentilmente pelas bordas, nunca tocando a superfície, temendo que a oleosidade dos seus dedos danificariam o presente. O cartão girava enquanto ela se lembrava do último dia na praia, as promessas que nenhum dos dois cumpriu. Ela se perguntava por que agora, daquele jeito, por que um cartão antigo, muito mais velho que a amizade interrompida. Por que nenhuma mensagem. Conforme o cartão dava voltas em si mesmo, ela viu marcas bem fracas, quase a ilusão de um vislumbre, algo escrito depois apagado, só as pequenas depressões no papel, fantasmas das letras que estiveram ali. Talvez ele tenha escrito algo num papel que estava sobre o cartão. Não era muito, e era conseguia ler ainda menos. Alguns números, era tudo. A esperança desapareceu tão rápido quanto chegou. Seu nome e endereço haviam sido escritos recentemente. As letras grossas e fortes quase destacadas sobre o papel antigo, como o carimbo. Duas novas adições a um cartão postal de várias décadas atrás. Ambos no lado direito, tinta preta no amarelado da areia. Havia números ali também. Uma data, mostrando que o cartão havia sido postado só uma semana antes.

Ela olhava fixamente para o verso do cartão sem realmente enxergá-lo, sua mente vagando tão longe que seus olhos poderiam estar fechados. Seus últimos momentos juntos passava na sua cabeça, o jeito como o por do sol fazia seus olhos brilharem, seu cabelo mal cortado dançando como uma alga ao vento, o brilho dourado da sua pele. Eles tinham corrido, brincado na areia, o salgado do ar aumentando o da pele, o gosto que ela furtou de um abraço. Sem aviso, ela foi arrastada de volta à realidade, o símbolo e os números pulando nela como se clamando por atenção. Havia algo naquele carimbo, além dele ser novo, algo que a puxou de uma memória direto para outra.

A caixa estava no fundo do armário, atrás de mais sapatos do que ela se lembrava de ter, bem mais do que ela precisava. As bordas da tampa estavam rasgadas, o papel desbotado, tudo estava empoeirado. Quantos anos fazia que ela vivia naquele apartamento? É provavelmente o mesmo tempo que a caixa permaneceu intocada. Seu peso ainda era familiar, e só remover o elástico que segurava a tampa foi suficiente para que ela começasse a se lembrar do que havia dentro. Papéis antigos, envelopes, páginas de caderno arrancadas, souvenires do passado. Ela vasculhou, sua mãos tentando puxar precisamente o que ela estava procurando. Era um pequeno pacote, seguro por um bracelete que ele fez com hastes de dentes-de-leão naquele último dia. Ali estava a primeira carta que ele mandou, que era também a última. Mais de trinta anos atrás, mas algo no carimbo pulou sobre ela, fazendo-a saber que ela já o tinha visto antes. Ele contava quão excitante era o começo da sua aventura, como ele não podia esperar para mostrá-la tudo, como quase não conseguia aguentar de saudade. A carta também não tinha um endereço de remetente, algo sobre ele enviá-la de um lugar diferente daquele onde havia escrito, sabe como é, viajando um bocado. Três fotos também estavam no pacote, os dois juntos, jovens rostos em imagens amareladas. Como seria seu rosto depois de trinta anos? Por que ele não escreveu de novo? Por que ela nunca respondeu? Como seria possível manter contato daquele jeito? Cartas que levavam semanas para chegar, palavras não mais relevantes quando lidas. E se houvesse internet naquele tempo? Internet. Como é que ela nunca tinha procurado por ele?

Estava ali o tempo todo, o poder de procurar por qualquer coisa, qualquer um, desde o dia em que ela ouviu pela primeira vez os ganidos estranhos anunciando que ela estava então conectada ao mundo inteiro através do seu computador. Ela deixou a chance lhe escapar, distraída por incontáveis e-mails de corrente, vídeos de gatinhos, e GIFs animados. Quando ela digitou seu nome no Google, tinha certeza de que o primeiro resultado seria uma foto recente, acompanhada de um sumário das últimas três décadas da sua vida. Ela encontrou Julien Owen na internet. Um monte deles. Nenhum o que ela procurava. Ele não tinha perfil no Facebook, não tinha conta no Twitter, não tinha Instagram. Ele até tentou o Google+, só para ter certeza. O mais próximo que chegou foram algumas referências em listas de estudantes, bem antes dele partir. Tudo que ela queria era ver seu rosto de adulto. Depois de meia hora olhando para homônimos desconhecidos, ela desistiu.

Haviam mais ou menos doze abas abertas no seu navegador, o resultado da sua busca infrutífera por um Julien online. Ela clicou no pequeno X em cada uma sem realmente prestar atenção nas suas ações, os pensamentos em outro lugar, sonhando acordada com encontrá-lo novamente, surpreendê-lo com uma visita. Talvez não seria uma surpresa, já que ele a mandou um cartão postal. Seria um convite? Por que não escrever algo? Os números, as marcas sutis no cartão, foram para a sua mente assim que ela estava para fechar a última aba, e o navegador. Valia a pena tentar. Ela digitou os números, e os resultados mostraram um local específico. Tão específico que havia um mapa no topo da lista. Ela agradeceu mentalmente aos deuses da Internet por criarem ferramentas tão incríveis, e examinou a sua primeira pista, talvez a única que ela precisaria. Era um endereço. Ou quase, pelo menos. Um código postal de uma rua em uma pequena ilha do Caribe. Olhando as fotos do lugar, ela reconheceu algumas das coisas que Julien a contou naquela única carta.

Ela mal se deu conta de que estava viajando antes de ter que passar pelos procedimentos de segurança no aeroporto. Depois de encontrar o mais próximo que conseguia chegar de uma localização do seu amigo, ela comprou a passagem, arrumou as malas e saiu. E então estava sendo revistada. Só no avião ela se preocupou com quanto tempo a viagem levaria. Bem, eram horas suficientes para terminar um livro ou dois – que ela não tinha trazido – e ainda tinha uma escala no meio. Se ela tivesse olhado só um pouco antes, na sala de embarque, ela poderia ter comprado algumas amenidades, mas não tinha mais como escapar da falante senhora aposentada sentada ao seu lado pelas próximas 13 horas. Quando o avião pousou e os passageiros foram direcionados para uma escada acoplada diretamente à porta – não tinha aquele corredor levando direto ao aeroporto – ela percebeu que também tinha esquecido seus óculos escuros. Havia tanta luz estimulando suas retinas que ela mal podia apreciar o belo e ensolarado dia de céu azul. O vento teria feito voar seu chapéu, se ao menos ela tivesse trazido um.

Por pura sorte, ela pousou pela manhã, o que a dava praticamente o dia todo para procurar pela rua antes de ter que fazer o check-in no hotel que ela não tinha reservado. Ela falou na sua melhor imitação de espanhol para o motorista do taxi que a respondeu em perfeito português. Ela tinha certeza que era aquele o endereço? Não tinha nada demais para ver naquele lugar. Se ela quisesse, o motorista poderia levá-la a algumas ruas bem bacanas antes dela ir para a casa do seu amigo. Como assim, ele não sabia que ela estava lá?

Bem, lá estava ela, no começo de uma rua aparentemente infinita num bairro de subúrbio cheio de casas idênticas. Era perto o suficiente da praia para ser possível ouvir as ondas batendo. Ela andou ao longo de toda a rua, incapaz de discernir uma casa da outra além de alguns detalhes estéticos pequenos. Ela estava pronta para começar a bater nas portas aleatoriamente quando um aroma chegou no seu nariz. Era como o cheiro de paraíso num dia perfeito de primavera, doce na medida certa, levemente frutado, naturalmente floral. A fez lembrar de dias mais alegres e amores passados. A fez lembrar de algo que ela tinha cheirado recentemente. Ela pegou o cartão postal e o colocou perto do nariz. Sim, era o mesmo cheiro, como ela não tinha percebido antes? Era o cheiro da sua flor favorita.

À sua esquerda, a casa idêntica a todas as outras à vista, a mesma porta de madeira não pintada, as mesmas paredes amarelo pálido e as telhas vermelhas. Não fosse pelo florescente canteiro de lilases embaixo da janela da frente, poderia ser a casa de qualquer pessoa. Ela andou devagar pela entrada, parou perto da porta e levantou a mão. O que ela diria para ele? Por que ela tinha ido? Talvez não houvesse necessidade de dizer nada. Essa era a sua esperança quando ela bateu pela primeira vez. Seu coração batia forte cada segundo que ele não abria a porta. Ela bateu novamente, e uma terceira vez antes de perceber que ele provavelmente não estava em casa. Por que estaria? Era o meio da tarde de um dia de semana, ele estaria trabalhando como todo mundo. Ela encostou-se à porta, tocando-a e pressionando, deixando o aroma mágico preencher seu espírito novamente. Ela estava para se virar e ir embora, voltar mais tarde para tentar novamente, quando a voz veio da rua.

“Você veio.”

Outra Chance

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Era sábado e Kevin, como de costume, decidiu ficar na cama mais um pouco. Nada no mundo o faria sair do conforto que o aninhamento do seu edredom atingia durante a noite. Ele teria ficado ali mais uma hora no mínimo, não fosse um dos sons mais estranhos o impedindo de sequer fechar os olhos novamente. Continuar lendo

Esconde-esconde

Eu me lembro da primeira vez em que fui ao circo. Só cinco ou seis anos, rodeado por todos os sons e cores e músicas daquele lugar mágico que conseguiu a magnífica impossibilidade que é ser mais surreal que a imaginação de uma criança. Eu não estava muito a fim no começo. Era provavelmente um domingo, e eu queria ficar em casa e tomar sorvete. Nós já tínhamos ido ao parte no dia anterior e a uma festa naquela mesma semana, todas aquelas atividades sociais estavam interferindo com meu hábitos restritos de desenhos animados. Meus pais passaram uma boa hora me convencendo. Tentaram de tudo, explicaram em detalhes como haveriam trapezistas, palhaços, mágicos, um elefante fazendo truques como um cachorro. Eles apelaram para comparar tudo com o colorido e os barulhos dos desenhos animados que eu assistia. Nada funcionou. Nem mesmo prometer o sorvete mais delicioso que eu jamais tomaria. Continuar lendo

A Máquina

“E assim declaro Mark Robinson o único recipiente de todos os meus bens.” Mark segurava o documento certificado em suas mãos, incerto do que estava acontecendo. Estava assinado por William Pearce, cujo executor do testamento estava pacientemente à sua frente, dando-o tempo para compreender a situação. Tinha sido um caminho bem estranho até ali, do momento em que atendeu a primeira ligação dizendo que tinha herdado algo, ao longo processo de confirmação da sua identidade, até finalmente conhecer o homem que o entregou o documento que acabara de ler. Tudo era vago e genérico como aquela última frase. Continuar lendo