Outra Chance

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Era sábado e Kevin, como de costume, decidiu ficar na cama mais um pouco. Nada no mundo o faria sair do conforto que o aninhamento do seu edredom atingia durante a noite. Ele teria ficado ali mais uma hora no mínimo, não fosse um dos sons mais estranhos o impedindo de sequer fechar os olhos novamente. Começou com um zumbido irreconhecível, ao longe, como uma máquina problemática reclamando. Então, como se alguém tivesse aumentado subitamente o volume, cresceu para um trovão contínuo e inexorável, uma melodia irritante formada por milhares de vozes indistinguíveis. Não se parecia com nada que ele já tivesse ouvido antes, e estava impedindo que ele tivesse seu merecido descanso.

Enquanto se dirigia para a janela, ele conseguiu isolar alguns dos chiados que, incrivelmente, pareciam ser pássaros. Muitos deles. Não fazia sentido, já que ele morava no décimo quarto andar de uma área altamente urbanizada, mais acostumada a sirenes distantes que cantos de pássaros. Abrir a janela só aumentou a confusão, o céu era uma massa cinzenta que se movia, escura como se ainda fosse o meio da noite. Seus olhos precisaram de alguns segundos para se ajustar, e sua mente um pouco mais do que isso para acreditar. Eram de fato pássaros, aos milhões, talvez bilhões, todos voando na mesma direção, um enxame gigante de todas as espécies de pássaro que ele conseguia imaginar. Ele olhou para fora, hipnotizado, por um minuto inteiro antes de se dar conta de que não parecia ter fim. Eles estavam voando bem antes dele chegar à janela e não tinham diminuído nem um pouco. Kevin andou até a sala para poder ver melhor da sacada mas, logo que moveu sua mão para a maçaneta, um dos pássaros, um pombo, caiu morto sobre a mesa de metal que ele mantinha lá fora. Haviam tantos pássaros que era impossível que eles conseguissem desviar uns dos outros, ou dos prédios. Os estampidos que ele ouvia eram os pobres animais batendo na parede, na sua parede.

Ele estava acostumado a descer o elevador todo dia, mas nunca tinha demorado tanto. Uma parte dele ainda imaginava que tudo poderia ser um sonho do qual ele logo iria acordar, mas a brisa fria entrando pelo pijama que ele ainda usava parecia assustadoramente real. Kevin juntou-se à multidão de pescoços virados para cima e corpos eventualmente desviando de um pássaro que caía. Eles estavam todos impressionados com o estranho evento quando algo bateu em sua panturrilha. Um gato, correndo como se sua vida dependesse disso, passando pelas centenas de pernas humanas à sua frente. Dois outros gatos passaram quando alguém lá atrás soltou um grito. Todos se viraram e olharam aterrorizados ao que parecia ser todos os pequenos animais terrestres que vivem nas cidades juntando-se aos pássaros naquela misteriosa migração em massa. Cães de todas as raças e tamanhos, gatos, esquilos, ratos, guaxinins, galinhas, lagartos, gambás, coelhos, porquinhos da Índia. Um macaco fazia o mesmo caminho pendurado nos cabos elétricos. As pessoas tiveram que abrir passagem para os animais. Kevin espremeu-se de volta para o seu prédio, apavorado.

As notícias mostravam o que todo mundo conseguia ver ao vivo, dizendo que era um evento sem precedentes, e que os especialistas não conseguiam entrar em acordo sobre o que estava acontecendo. Migrações em massa não eram incomuns, mas normalmente aconteciam dentro de algumas espécies, em momentos específicos do ano, para direções pré-determinadas, nada que correspondia ao que eles estavam vendo. Animais domésticos matavam-se tentando escapar e juntar-se à multidão selvagem. No dia seguinte, os canos de esgoto estavam entupidos com animais que preferiam o submundo. Tudo, desde ratos a baratas a aranhas desapareceu, deixando para trás os corpos inertes daqueles que ficaram presos nos espaços restritos do subsolo. A água não conseguia passar, os serviços foram interrompidos, até que a cidade conseguisse dar um jeito de remover todos os animais mortos e deixar o saneamento básico passar. Mesmo assim, o cheiro permaneceu por vários dias, uma memória sombria dos dias mais estranhos nas vidas de todos.

No terceiro dia, era oficial: todas as criaturas móveis, exceto os humanos, tinha desaparecido. Destituídos dos bichos que juntos superavam os humanos em uma proporção de três para um, e ajudados pela terrível experiência que deixou os homo sapiens remanescentes assustados, as cidades e vilas experimentaram uma consequência bizarra: um grande silêncio tomou conta. Não havia mais nenhum barulho a não ser o que faziam os aterrorizados seres humanos. Ninguém poderia imaginar o peso que aquela comunidade a quem poucos davam atenção poderia estender-se até a atmosfera de um lugar. Nenhum inseto, nenhum animal de estimação, só as expressões confusas das pessoas. Mesmo o ar parecia ter parado numa completa e sinistra ausência de movimento. O mundo ainda se perguntava o que teria acontecido, enquanto a mídia mostrava que tinha acontecido em todo lugar ao mesmo tempo, e aparentemente os bichos tinham um destino preciso: o mais longe possível de qualquer ser humano.

O primeiro impacto visível da migração começou a aparecer alguns dias depois. Sem as outras criaturas para fazerem suas partes, as plantas começaram a morrer, não importava quanto se cuidava daquela samambaia na varanda. Algum elemento chave tinha desaparecido com os animais. Não era só a polinização: plantas usavam os insetos como proteção contra todo tipo de inimigos, especialmente os microrganismos que foram os únicos a ficar além dos humanos. Outro resultado talvez ainda mais sombrio teve um impacto ainda maior. Apesar do fato dos serviços executados pelos humanos ou máquinas ter sido retomado, o lixo começou a se acumular. Grandes pilhas que simplesmente não conseguíamos controlar rápido o suficiente cresciam em cada canto, sobrecarregando as pessoas acostumadas a lidar com os dejetos. Ao que parecia, ratos, baratas, pombos e afins, os bichos que gostávamos menos e que talvez estivéssemos mesmo felizes em ver partir, os que associávamos com ambientes sujos e com doenças, ajudavam um bocado no controle do lixo. Quem poderia imaginar? Menos de uma semana depois, as pessoas desejavam o retorno das criaturas mais sujas. Mas o seu desejo não seria realizado.

Isso era tudo que Kevin conseguia obter das notícias que sua TV, agora sempre ligada, vomitava o dia inteiro. Quando os animais terrestres desapareceram, muito antes dos primeiros efeitos serem sentidos, ele decidiu fazer um estoque de suprimentos, fazendo uma preparação improvisada para emergências. Ele continuou indo lá fora nas primeiras semanas, cuidadosamente atualizando seu estoque, fazendo notas mentais doe estado geral das coisas, esperando pelo fim iminente. Porque esta era a única coisa da qual ele estava certo: não poderia ser um evento isolado. As criaturas não acordaram um sábado e decidiram fugir da coexistência humana. Para ele, era apenas o começo, o primeiro sinal de tempos ainda mais sombrios por vir.

E Kevin estava certo. Do alto do seu pequeno apartamento no décimo quarto andar, ele viu a esperança desaparecer dos rostos, o rápido aumento e o declínio da violência quando as pessoas se deram conta de que não adiantaria nada. Tudo mudou num ritmo rápido, um mundo que acordou em meio a uma confusão, subitamente caindo no esquecimento.

Ele não foi o primeiro a fazê-lo Na verdade, ele vinha adiando o quanto possível. Não existia um meio de saber o que estava lá fora, o que ele encontraria. Não havia como saber qual seria a reação dos animais à reaproximação dos humanos. Era arriscado, e mesmo que houvesse a crença generalizada de que era um risco calculado, isso não era verdade.

Então Kevin checou pela terceira vez o conteúdo da sua mochila e das duas bolsas que ele conseguia carregar. Ele esperou a noite toda pelo momento perfeito para sair do prédio, planejou a rota mais direta para sair da cidade o mais rápido possível. Ele estocou combustível nas últimas semanas mas estava ciente de que seu carro só aguentaria levá-lo até um certo ponto. Ele pensou em chamar alguém, amigos, qualquer um que quisesse sair antes que as coisas piorassem ainda mais. Mas ele sabia que teria que fazê-lo sozinho.

Dois mil quilômetros depois, seu carro estava prestes a se desmontar. Ele ainda tinha combustível, mas a máquina não conseguia ir mais longe. O pneu esquerdo traseiro tinha quase desaparecido, o direito também. Ele tinha saído da estrada assim que estava fora dos limites da cidade. O caminho não importava, já que ele não sabia para onde estava indo. Ele passou por outros viajantes, o desejo de dar-lhes carona sempre presente. Sem perceber, eles estavam todos, assim como os animais, indo na mesma direção. A vegetação deu espaço ao deserto, mas ninguém fazia o caminho de volta. Quando Kevin ouviu o último clangor que seu carro poderia fazer, tudo à sua volta era uma paisagem bege, até onde os olhos conseguiam enxergar. Tudo, exceto por um ponto escuro quase tocando o horizonte. Poderia ser uma ilusão, uma miragem, mas era tudo que ele tinha para seguir.

Um grande muro de madeira o recebeu, seus pés e pernas lutando para mantê-lo ereto. Talvez fosse uma ilusão, porque ele conseguia sentir um vento fresco beijando seu rosto através das fendas no muro e, o que certamente era sua mente pregando-lhe peças, ele ouvia os sons que sentia tanta falta. Uma pequena porta abriu-se para deixar dois homens passar. Kevin olhou para eles, colocou suam mochila no chão e vasculhou-a pelo único conteúdo ainda ali. Ele deu aos homens seu cantil quase vazio, e desabou. Dois braços fortes que ele não conseguia mais sentir transportaram-no para dentro dos muros.

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