Paradoxo

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Aquele era o pior jeito de acordar. No meio de um sonho, um baque alto vindo da sala fez Megan pular na cama, a mente confusa entre as belas imagens onde estava e a escuridão do quarto, o coração acelerado pelo susto, respiração ofegante como se tivesse acabado de correr 100 metros rasos. Alguns momentos naquele estado semi-acordada e ela nem tinha mais certeza de que tinha realmente ouvido um barulho. Que horas eram? Nem três ainda, ela não deveria levantar por mais quatro horas no mínimo. Ela dançou por um chão rodopiante no caminho para checar o que aconteceu. Estava tudo escuro, seus olhos ainda se ajustando, seu cérebro muito mais interessado em voltar para aquela terra onírica do que encontrar um improvável perigo. Viu? Tudo está tranquilo, agora volte para a cama! Sim, era só uma sala escura, mas era a sua sala escura, ela teria notado qualquer pequena mudança, não teria? As cobertas ainda estavam quentinhas, não as deixe voltar a ficar frias.

Ah, o calorzinho, o aconchego, o jeito como o colchão parece ter o formato do seu corpo gravado. O sonho já era, mas ela ainda conseguiu entrar em outros reinos nas quase cinco horas de sono que teve depois do incidente. Espera aí, cinco? Ótimo, agora ela estava atrasada. Vestir-se e engolir o café da manhã não foi muito melhor que o susto da noite. O café só começou a fazer efeito no segundo semáforo, quando uma sensação estranha se instalou lá no fundo da sua cabeça, algo que ela não conseguia identificar direito. Tinha deixado a porta aberta de novo? A torneira da cozinha? Não, não era isso. Era algo novo, diferente, como uma imagem que parece estar fora de lugar. Mas toda a concentração do mundo não a deixou mais perto de descobrir, e o trabalho acalmou um pouco seu cérebro. Ela olhou para a própria mão, a mancha vermelha no dedo provando que ela tinha feito o X no dia anterior no calendário antes de sair, então era uma coisa a menos para se preocupar.

Ela já estava ficando cansada desses sustos. Quando telefone tocou, ela estava naquele pequeno universo de total concentração, onde pouca coisa existe além da tela do seu computador e praticamente nenhum som consegue perturbá-la. Ela deu uma bronca em si própria por não ter colocado no silencioso antes de checar quem teria a audácia de invadir seus domínios sem ser convocada. Cathy, a vizinha. Claro. Se alguém seria tão corajoso, certamente seria ela, a antítese de tudo que Megan acreditava que era. Cathy era uma esposa bibelô, vivendo às custas do marido, em casa a maior parte do tempo mas sem realmente fazer nada, indo de carro à padaria na esquina, comprando sapatos ou vestidos ou joias ou o que quer que fosse que mulheres como ela gostavam ultimamente. Ainda assim, era estranho. Desde que Megan explicou à Cathy o sentido de ter um emprego, ela não tinha ligado novamente. Aquela era a única razão pela qual ela apertou o botão verde.

O que foi? Não, ela não estava doente. Como assim, por que Megan estava em casa? Ela não estava! Sim, ela estava no trabalho, não tinha ninguém em casa, elas deveriam sim se encontrar qualquer dia desses, mas naquele momento Megan estava atolada de trabalho, talvez em um mês ou dois. Aquela mulher tinha um rendimento de palavras por minuto incrível, era digno de nota. A ligação não só deixou Megan cansada, mas fez com que a pulga atrás da orelha voltasse com força total. Havia algo de estranho. E, tão louca quanto a Cathy era, ela não era propensa a delírios, ao menos não do tipo em que se vê coisas. E ela viu alguém na casa da Megan. Uma das várias vantagens de ser hiper eficiente era saber que você sempre estava ligeiramente à frente da sua lista de tarefas, o suficiente para poder sair um pouco mais cedo se algo acontecesse.

A primeira coisa que Megan fez quando abriu a porta da cozinha foi olhar para o calendário na parede. Ela tinha essa mania, mesmo com toda a tecnologia à sua disposição e sendo uma aficionada por engenhocas, ela sempre tinha um daqueles grandes calendários de parede, com uma bela imagem no topo e a grelha de dias abaixo. Algumas datas marcantes e feriados já vinham impressos e Megan adicionava alguns dos seus próprios, caso toda a tecnologia à sua disposição não colaborasse. Havia um X grosso feito com marcador permanente vermelho no dia anterior. Ela riu do próprio suspiro de alívio e começou a ferver água para um chá. Quando passou para o outro lado da bancada para deixar a bolsa no sofá, ela reparou numa encomenda em cima da mesinha de centro. Estranho. Ela não se lembrava de tê-la recebido, mas a assinatura no recibo de entrega era definitivamente sua. Não era uma caixa grande, mas o que quer que estivesse dentro certamente era pesado. Havia uma carta em cima do monte de bolinhas de isopor protegendo o conteúdo, de um tio tão distante que ela só se lembrada do nome sendo dito uma ou duas vezes pela sua avó. Ele dizia algo sobre ela ser a única pessoa na família com a habilidade para operar a máquina e também a única que daria a devida atenção ao pedido reforçado de mantê-la à salvo. Era uma carta longa, oito ou nove páginas frente e verso. O que queria dizer que era algo para ser lido mais tarde. Enquanto ela estava escavando o aparelho das profundezas das bolotas brancas, sua chaleira a avisou que a sua água estava pronta para fazer aquele delicioso chá. Ele estaria na temperatura ideal depois que ela saísse do banho. Ela pegou a caixa e as bolinhas de proteção e deixou a máquina em cima da bancada da cozinha.

Poucas coisas são mais gratificantes que uma boa ducha. Ela tem o poder de lavar não só a pele mas também o dia. É como uma poderosa recarga rápida, algo que Megan sempre quis que seu celular tivesse. Ela veio do quarto já sentindo o gosto forte do earl grey quando seu coração quase parou. A máquina tinha sumido. Estava bem ali, a poucos centímetros do chá, minutos atrás. Sua cabeça virou para a direita e para a esquerda até que ela viu o aparelho em cima da mesa de jantar. O chuveiro estava tão bom a ponto de fazê-la esquecer algo que tinha feito tão recentemente? Certamente parecia que sim, mas de qualquer forma era estranho. Ela pegou o chá e a carta e foi até a mesa. Da terceira página em diante, seu tio descrevia a operação da máquina, o que parecia ser bastante simples, mas havia algo estranho sobre a sua função. Deslocamento relativístico, era o nome. Ela estava lendo as instruções e examinando a máquina ao mesmo tempo, chá e carta em uma das mãos, a outra girando o aparato. Foi em uma dessas voltas que ela acidentalmente apertou um botão. Houve uma súbita sensação de freada, como o movimento inercial quando um carro para, mesmo ela estando parada em pé. Depois, era o meio da madrugada.

A xícara de chá, felizmente vazia, caiu da sua mão enquanto ela tentava entender o que havia acontecido, fazendo um baque alto em um ambiente totalmente silencioso. Era a sua sala, a sua mesa, o seu tapete quase estragado pelo chá. Tudo era o mesmo, exceto que era como se alguém a tivesse empurrado gentilmente enquanto apagava o sol. Ela se abaixou para pegar a xícara e ouviu um barulho vindo do quarto. Era possível? Em um rápido movimento, ela escondeu-se atrás da bancada da cozinha bem a tempo de não ser vista. O rangido da porta do quarto a garantiu que era seguro sair e olhar pela única coisa certa no meio de toda aquela loucura. Seu calendário na parede não tinha mais o X vermelho sobre o dia anterior.

Aquele seria um bom momento para ter alguma habilidade especial, tipo leitura dinâmica. De alguma forma, parecia que as já muitas páginas da carta tinham duplicado, e o conteúdo tinha se tornado subitamente indecifrável. Ela releu várias vezes, com medo de tocar na máquina novamente antes de entender como ela funcionava. Aparentemente ela não tinha as habilidades que seu tio pensava que tinha. Era loucura. E impossível, de acordo com tudo que já tinha lido ou ouvido. Ela quis procurar outros sinais, outras provas, mas temia que isso fosse perturbar o sono do seu eu no passado.

Ela esperou pacientemente pelas próximas horas até ter a casa para si novamente. Ficar andando de um lado para o outro não ajudou a acalmá-la, como também não ajudou ler a carta pela enésima vez. Ela ia da mesa de jantar até a área de estar até a cozinha e de volta, tão absorvida em tentar resolver a situação que não reparou que Cathy a vizinha acenava continuamente para ela do outro lado da rua. Além do botão que ela acidentalmente apertou, não haviam outros meios de mudar nada na máquina. Ao menos nada que ela conseguisse ver. Deveria haver um jeito de viajar de volta. E seu tio tinha certeza que ela possuía as habilidades para tanto. Era claramente um protótipo, cabos e fios emaranhados dentro de uma estrutura de metal feita de sucata e soldas desiguais. Havia algo na carta sobre conectar uma fonte de energia e sobre a bateria, que não a deixaram menos ansiosa. Ela estava começando a inventar um jeito de transcrever as instruções na carta na forma de um manual de verdade quando alguém bateu à porta.

De acordo com o olho mágico, havia um entregador do lado de fora. Ela hesitou por alguns instantes antes de decidir agir naturalmente. Ainda era a sua casa, afinal de contas. Ela assinou o recibo e pegou o pacote, que foi rapidamente transferido para a mesinha de centro. Organizar as suas ideias, e as da carta, a acalmaram, como encontrar pouco a pouco a solução para um problema. Ela começou a se concentrar nas partes sobre a operação da máquina ao invés de prestar atenção à sua função, cuidadosamente relacionando cada descrição com o objeto físico sobre a mesa de jantar em frente a ela, e depois de algumas horas ela tinha uma boa parte daquilo estruturado, mas um carro estacionando na garagem a interrompeu.

Megan esperava por aquele momento. Depois de tantas horas em confusão, ela finalmente estava tomando as rédeas da situação. Ela foi para a porta da frente sem fazer barulho, saiu e foi para o fundo, então para a garagem assim que a outra Megan estava dentro da casa. Haveria bastante tempo para terminar o trabalho e voltar se ela não tivesse esquecido a máquina lá dentro. Droga, e ela pensou que estava se tornando uma bela aventureira. Um erro de principiante que quase a fez perder a calma. Mas não havia razão para pânico. Pelo que ela se lembrava, ela tinha alguns minutos antes de poder fazer qualquer coisa, então continuou trabalhando na carta. A chaleira apitando deu-lhe o sinal para ficar pronta. Ela chegou perto da parede, ouvindo os passos do lado de dentro dirigirem-se para o quarto, então para o chuveiro. Em um movimento contínuo, ela entrou na cozinha, pegou a máquina de cima da bancada e voltou para a garagem.

Na confusão de cabos e circuitos, seu tio aparentemente tinha esquecido de incluir um jeito fácil de ajustar as configurações. Ele estava mais interessado em testar sua teoria de deslocamento relativístico do que em construir uma máquina fácil de operar. Felizmente, ele tinha sido detalhado o suficiente na carta para permitir que ela encontrasse ao menos a única chave que a interessava naquele momento. Não foi fácil, e ela não tinha nem de longe certeza de que estava certa, mas só havia uma forma de descobrir. Ela respirou fundo e apertou o botão, sentindo o movimento inercial a transportando de volta.

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