Intervenção

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É difícil explicar para os outros o que eu faço. Todos querem detalhes que eu não só sou incapaz de dar, mas sou também proibido. Cláusulas de confidencialidade. Mas mesmo que eu pudesse dizer tudo, provavelmente levantaria ainda mais questões que antes. Em termos simples, eu salvo empresas. Eu intervenho quando as coisas já estão indo ladeira abaixo há algum tempo, coloco tudo em ordem e dou à companhia uma maneira de permanecer à tona por um tempo. Mas não sou só um consultor, não mais. Eu não entro em um lugar para olhar rápida para os números e depois passar uma semana dando conselhos vazios antes de entregar a minha fatura. Eu atuo de um jeito muito mais profundo, promovendo mudanças reais de dentro para fora. É uma tarefa que demanda tempo, seis meses no mínimo, frequentemente mais de um ano, durante o qual eu me torno quase um funcionário regular, mesmo que seja um funcionário com mais poder de decisão que o presidente da empresa no momento. É algo tão específico que a maioria do meu trabalho acontece em empresas que são parte de outras empresas maiores, grandes o suficiente para poder pagar meus honorários e as minhas exigências para ser deslocado uma a duas vezes por ano. Depois de tanto tempo fazendo isso, e conseguindo resultados, estou em um ponto em que as pessoas que me procuram para obter meus serviços sabem que todo esse trabalho vale à pena.

Acontece que eu sou exigente quando a questão é as minhas condições de moradia. Eu não vou conseguir realmente ter um lar antes de me aposentar, e isso se eu realmente conseguir ficar sem fazer nada dias a fio, o que neste momento parece improvável. Eu não tenho tantas demandas assim, mas as que eu tenho podem ser um tanto difíceis de conseguir. Eu só moro em apartamentos, acima do sétimo andar, e precisa ser um dos, se não o, último prédio na cidade. Eu gosto de ter uma vista, sem interferências. Eu gosto de poder olhar para fora da minha sacada e ver o horizonte. Mas é mais do que um simples capricho. Com o tempo, eu descobri que existem muitos benefícios de se ficar na cidade, mesmo que a qualidade de vida seria melhor nos subúrbios. Cada lugar é diferente, mas ao pedir por essas características específicas eu consigo equilibrar um espaço perfeito de moradia com todas as vantagens de se estar próximo do trabalho. Eu nem mesmo peço por um bom escritório, não me importo de trabalhar num cubículo, mas quero dormir acima do sétimo andar de um prédio sem outros prédios na frente. Isso normalmente resulta em lugares luxuosos. Se não ficarei tempo o suficiente para criar raízes, então vou ao menos aproveitar o melhor que posso.

Os primeiros dias são sempre iguais. A maioria das pessoas no escritório não tem ideia do que está acontecendo, quem é o cara novo e o que ele faz. A diretoria não está feliz em me ver porque isso significa que eles não foram capazes de realizar o próprio trabalho adequadamente. O pessoal do financeiro começa a ficar desconfiado no momento em que as ordens chegam para que eles me deixem ver tudo, sem restrições. Em muitos sentidos, eu sou a última pessoa que qualquer um gostaria de ver no seu local de trabalho. Eu sou um símbolo do fracasso. Eu sou um deus ex machina enviado pelos níveis superiores do poder para colocar as coisas em ordem quando ninguém mais conseguiu. Pode-se imaginar o quão difícil é fazer novos amigos com isso tudo. E o primeiro dia é cheio de sorrisos falsos e testes de limites, os diretores experimentando o jeito como vão falar comigo, quanto poder vão conseguir manter. O primeiro dia é sempre o mais cansativo.

Volto para o meu apartamento com a minha pasta cheia de relatórios situacionais. Todos os grandes números e eventos da empresa desde que as linhas começaram a apontar para baixo e não subir mais. É um belo apartamento. Espaçoso, um duplex com uma daquelas salas de teto alto, um pequeno escritório no andar de baixo, um grande quarto no segundo, completamente mobiliado para se parecer com uma daquelas fotos de revista, estiloso com um toque de moderno, do jeito que eu gosto. A sacada tem um guarda-corpo de vidro e espaço suficiente para uma mesa. Foi lá que eu trabalhei naquela primeira noite. Eles atenderam todos os meus pedidos, o melhor que puderam. Não era o último prédio, mas o único outro era só um palito fino várias quadras à frente, à esquerda, praticamente não interferia na minha vista do canal atravessando a cidade.

É incrível como eu ainda consigo ficar admirado com a cegueira envolvida em deixar uma empresa chegar ao ponto de ter que chamar por alguém como eu. Conforme eu passava pelas minhas anotações novamente pela manhã, ensaiando mentalmente o que iria dizer para a diretoria, eu pensava em qual abordagem iria usar. Há milhões de maneiras de dizer “vocês deveriam ter visto”, mas primeiro eu precisava decidir se a diretoria iria permanecer ali para receber a informação. Normalmente, as empresas que me contratam não estão interessadas em corrigir as pessoas. Se eu digo que tudo aquilo poderia ter sido evitado simplesmente prestando atenção aos sinais – o que normalmente é o caso – todos seriam mandados embora. Mas não sou só um apontador de dedos impiedoso. Algumas vezes eu vejo boas pessoas nos lugares certos, tendo que fazer malabarismos com as ordens de um escritório central tão desconectado com a realidade do negócio que mal se pode considerar culpa deles quando as coisas não vão bem.

Eu comi meu café-da-manhã rapidamente, em pé, na cozinha. Minha mente vagava facilmente para outro lugar, para a vista da sacada. Pode ter sido a luz ou a falta de alguma referência visual, mas naquela manhã parecia que o prédio solitário tinha se deslocado um pouco mais para o centro da vista. Ou eu podia estar já bem mais cansado do que acreditava. Eu pretendia ler novamente os números principais no caminho para o escritório, mas cheguei lá em quase metade do tempo do dia anterior. Provavelmente o motorista do taxi do outro dia tinha tentado me sacanear. E, ainda assim, não cheguei antes dos membros da diretoria como gostaria. Eles estavam todos lá me esperando no lobby. Depois de duas exaustivas horas explicando a eles o que eles já sabiam, o presidente me acompanhou ao meu cubículo. A princípio eu pensei que ele tinha mudado de ideia quando ele virou para o outro lado no meio do labirinto do escritório, mas minhas coisas não estavam no mesmo lugar de antes. Eu o segui até o novo local e brinquei sobre eles não precisarem me agradar mudando meu espaço de trabalho para mais perto da janela. “Como assim?”, ele disse, sua expressão tão confusa quanto a dos outros que ouviram o que eu disse. Eu nunca soube acertar o timing de fazer uma piada.

Nem todas as regalias dos dias iniciais trazem as mesmas vantagens. A companhia principal que me contratou me dava dinheiro para o taxi por tanto tempo quanto eu precisasse. Normalmente, eu comprava um carro no final da primeira semana, mas até lá eu também me esquecia de comprar comida para preparar meu próprio jantar em casa. Eu estava com vontade de comer macarrão, e lembrei-me de um restaurante italiano bem apessoado no caminho de volta. Eu instrui o motorista a usar a mesma rota, indo devagar para que eu pudesse encontrar o lugar. Mas a interseção onde deveríamos entrar apareceu bem mais cedo do que no dia anterior. Eu perguntei a ele sobre o restaurante, descrevendo os detalhes o melhor que podia. “Morei aqui minha vida toda, e não me lembro de nada parecido com o que o senhor está dizendo.” Bem, então vai ser comida entregue em casa mesmo. Escolhi um italiano qualquer na lista telefônica que tivesse serviço de entrega e esperei na sacada. O outro prédio estava de volta à esquerda. Ou melhor, tinha se “movido” muito mais para o lado, quase na beirada de onde a vista alcançava.

O dia seguinte começou com uma reunião privada com o então presidente, no meu escritório com uma grande janela e vista para o mesmo canal que eu podia ver da minha sacada. Perguntar a ele sobre o escritório não me deu a resposta esperada. “Você não gosta deste? Podemos arranjar outro. Talvez o que fica no canto?” Quando eu disse que estava perfeitamente satisfeito com o cubículo no meio, ele riu como se fosse algo completamente absurdo. Foi quando eu entendi que, para ele, eu nunca tinha estado no cubículo do meio. Eu nunca ocupei outro espaço que aquele escritório com a grande janela. Eu experimentei perguntar a outras pessoas e obtive o mesmo resultado. Até fui ao cubículo que ocupei no primeiro dia para perguntar à moça que estava lá a quanto tempo ela trabalhava naquele local específico. Pelos últimos dois anos. Ela estava na empresa há cinco, começando pela distribuição no segundo andar, depois mudando para contas a receber um andar acima, então ali. Eu passei a maior parte do dia olhando para fora pela minha nova janela.

No caminho de volta, o restaurante italiano estava lá. O motorista me disse que era um dos melhores e mais antigos da cidade, que seu pai levou sua mãe lá para pedi-la em casamento. O macarrão delicioso fez jus à fama do lugar. E eles tinham entregas também. Peguei alguns cardápios por precaução. Voltei para casa para apreciar a minha linda vista, completamente sem interferências.

Eu não pedi pelo grande escritório, mas certamente acostumei-me a ele bem rápido. Estava na metade da manhã de processamento de números e leitura de relatórios, começando a desenhar a solução para a empresa, riscando nomes na lista da diretoria, quando percebi que a mulher no cubículo em frente ao meu escritório não tirava os olhos de mim. Eu estava esperando a animosidade usual, ou ao menos que ela voltasse ao trabalho assim que olhei para ela, mas não. Ela continuou, nossos olhos se encontraram, ela sorriu. Fazia tempo desde a última vez que alguém me mostrou um sinal de qualquer coisa além de desprezo. Eu sorri de volta e lentamente voltei a olhar para o meu monitor. Mas não consegui voltar trabalho; conseguia sentir seus olhos em mim, quase como se ela esperasse que eu olhasse para ela de novo.

Era praticamente como trabalhar sob pressão. Mesmo que a mulher não pudesse ter nenhum efeito profissional em mim, a sensação dela julgando todas as decisões que tomava era avassaladora. Eu passei a gostar da estabilidade e da eficiência que o meu tipo de trabalho permite. Não ter ligações nem com a empresa nem com as pessoas me permitia o poder de olhar para tudo de cima e fazer escolhas imparciais. Nunca era pessoal, mesmo que as pessoas diretamente afetadas pelas minhas ações acreditassem que sim. Naquele dia, não sei se por conta da mulher ou de todas as outras coisas estranhas acontecendo, eu estava nervoso, incerto como um iniciante que teme o próprio poder. Tive que me levantar e caminhar um pouco, limpar a cabeça. Os corredores do escritório me levaram naturalmente até o bebedouro, onde minha chegada causou a revoada do pequeno enxame que havia ali. Eu não estava atrás de um copo d’água gelada, mas tomei um mesmo assim. O copo de plástico estava vazio na minha mão quando a voz veio de trás.

“Você gostou?”

Ela estava usando uma saia preta quadriculada que ia até abaixo dos joelhos e uma blusa amarelo brilhante com mangas curtas e grandes botões, como uma espécie de roupa de trabalho neo-vintage. Seu rosto tinha a expressão casual perfeitamente ensaiada quando ela estendeu a mão para pegar um copo. Ela o encheu e olhou para mim sorrindo, pedindo uma resposta. Alguém assistindo à cena poderia acreditar que éramos velhos amigos e que ela estava me perguntando se eu gostava do seu novo corte de cabelo ou algo assim. Não sei quanto tempo nos entreolhamos, mas eu sei que qualquer outra pessoa teria rompido o contato visual bem mais cedo só pelo desconforto. “Então?”, ela perguntou novamente depois de um gole.

“Desculpe, não sei o que você quer dizer.”

“Bem, estava tentando tornar as coisas mais fáceis pra você, fazer pequenas mudanças para te deixar mais satisfeito.”

“Pequenas mudanças?”

“Sim. Eu deixei a sua vista totalmente livre como você gosta, trouxe de volta o restaurante italiano e ainda o melhorei, consegui o escritório novo com a grande janela para que você pudesse olhar para fora de quando em quando. E deixei você mais perto. Todo mundo gosta de chegar mais rápido no trabalho, não é?”

“Acho que sim. Mas o que você quis dizer com ‘estava tentando’?”

“Eu tenho te observado, Richard. Você trabalha duro e nunca para. Qual foi o tempo mais longo que você passou em um mesmo lugar na última década? 18 meses, dois anos? Eu pensei que você poderia ter um descanso.”

Richard. Fazia tempo que ninguém se referia a mim pelo meu primeiro nome. Reagir a “Sr. Emmons” tornou-se um reflexo. Mas não me ajudava a entender. Ao contrário, só trazia mais confusão.

“Eu ainda não-“

“Pare de tentar entender. Só responda à questão. Você gostou?”

“Bem, sim, claro.”

“Ótimo. É o que eu queria por ora.” Ela andou de volta, deixando-me com a cabeça girando para tentar trazer algum senso àquela conversa. Não pude resistir, e a segui até seu cubículo.

“Você disse que é o que queria por agora. Então ainda tem mais?”

“Ainda tem muito trabalho pra você aqui, Richard. Do jeito que esta empresa ficou problemática, vai levar o quê, dez meses, um ano, para colocar tudo em ordem?”

“Mais ou menos isso.” Era exatamente aquilo que eu tinha previsto.

“Então, tempo suficiente para que eu descubra outras coisas que você gosta, faça outras mudança, melhore esta intervenção e talvez, desta vez…”

“Desta vez o quê?”

“Talvez desta vez você fique.”

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2 pensamentos sobre “Intervenção

  1. Muito legal! Sempre deixando a conclusão para a imaginação do leitor. Só um comentário: no nono parágrafo a seguinte frase ficou sem sentido – “Voltei para minha linda, completamente sem interferências” ; seria lida?
    Cada vez mais seu fã>

    Curtido por 1 pessoa

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