Um Grão de Areia

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Para a surpresa da sua família, que pensou que ele nunca se interessaria por aquele tipo de diversão, o Pequeno Tommy acordou cedo e foi para a praia. E ele levou a pá de brinquedo e o balde! Era a primeira vez que ele espontaneamente escolhia qualquer coisa infantil. Cavar buracos na areia, quem diria? Bem, não qualquer tipo de buraco, claro. Tommy passou a maior parte do dia trabalhando num design incrivelmente intrincado, buracos perfeitamente redondos de tamanhos diferentes, conectados por sulcos retos e cristas orgânicas, tudo cuidadosamente espalhado por uma área do tamanho de uma pequena casa. Ele andava com tanto cuidado entre as linhas na areia que ninguém se atrevia a perturbá-lo. Quando eles chegaram no lago, ele ficou parado olhando as ondas baixas e vagarosas, olhando para o seu relógio a cada dez minutos, olhando para cima quando as primeiras estrelas começaram a aparecer. Já era alguma coisa. Mas no dia seguinte ele voltou para os seus livros, buscando na internet e fazendo cálculos que nenhuma criança de oito anos faria por nenhuma quantidade de doces ou pizza. Sua mãe tinha que tirar o seu caderno para forçá-lo à dormir, só para encontrá-lo na suas mãos novamente na manhã seguinte. Então, sem dar nenhum sinal, ele deixou toda a sua pesquisa na mesa e foi para a praia com uma pá e um balde. Conforme o dia avançava, uma pequena multidão se acumulava para ver o estranho menino remodelando a areia como se estivesse em algum tipo de transe. O desenho ganhava complexidade, parecendo-se com o modelo de um calabouço com pequenas escadarias e até alguns túneis. O clima parecia cooperar com ele, não jogando muito vento. Ele aceitou um sanduíche como almoço e que seu pai aplicasse um pouco de protetor solar só depois que este o disse que ele corria o risco de não terminar seu projeto se ficasse desidratado ou queimado. De vez em quando ele ia até o píer para ver seu trabalho de cima e olhar para o relógio. A tarde estava quase no fim quando ele colocou o toque final: um último sulco chegando até uns poucos centímetros de onde a água alcançava. Então, com seu dedo, ele escreveu ao lado dessa última linha “8h43PM” e foi para o píer.

Bonito era, com certeza, mas ninguém entendeu, especialmente a hora escrita ao lado daquela linha. A curiosidade fez com que a aglomeração aumentasse conforme o relógio chegava perto dos números na areia. A mãe do Pequeno Tommy cuidava dele, certificando-se de que ele tinha bebido todo o seu suco e comido outro sanduíche, quando as pessoas começaram a reagir à chegada do evento. Como se tivesse sido ensaiado, a água chegou no sulco exatamente quando o quadragésimo terceiro minuto apareceu depois das oito horas. Então, movida pelo que poderia muito bem ser magia, a água preencheu os sulcos na quantidade exata para não transbordar, dançando pelas cristas, passando sob os túneis e, para o espanto de todos, mesmo subindo as pequenas escadarias. A água encheu os buracos perfeitamente redondos até o limite sem nunca tocar nada que não tivesse sido cavado pelo menino. Era incrível, o tipo de coisa que ninguém que não tenha presenciado acreditaria se contassem. O Pequeno Tommy assistiu deixando transparecer um sutil sorriso de satisfação e voltou para casa assim que tinha acabado. Ele explicaria mais tarde naquele dia que ele tinha notado a minúscula maré, o que só era possível por conta do tamanho do lago, grande o suficiente para ser influenciado pela lua que passaria exatamente sobre ele naquela semana. Dali, tudo que precisou fazer foi calcular a quantidade de água que seria deslocada pela maré e criar o desenho para igualar exatamente o volume deslocado, controlando a velocidade e a direção do fluxo através das formas e curvas na areia. Relativamente simples. A beleza da dança da água enquanto preenchia os buracos? Um mesmo subproduto sem importância real.

Tommy nunca cessou de espantar todos à sua volta. Ele começou a ler tão cedo quanto começou a falar, e quando descobriu os números estes tornaram-se praticamente uma obsessão. Ele era um gênio da matemática aos cinco anos, vencendo com facilidade fórmulas complexas e conjecturas, nunca encontrando um problema que não conseguisse solucionar. Poucos meses depois da performance na praia ele solucionou o Último Teorema de Fermat, dez anos antes da primeira prova bem sucedida ser publicada. Ele achou fácil demais e nem mesmo pensou em mostrar para outras pessoas. Seus pais não tinham ideia do que era o bloco de notas cheio de cálculos quando o jogaram fora depois de perguntar ao Tommy se ele queria guardá-lo.

Da matemática para a engenharia foi um salto natural. Antes de começar o ensino médio ele já tinha conhecimentos avançados em diferentes áreas, nunca deixando um problema sem solução. Quando seu tio perguntou se o garoto estaria interessado em dar uma olhada na sua TV pifada, ele não simplesmente consertou. Ele desmontou o aparelho, estudou os circuitos e analisou o seu sistema. Na prática, era uma máquina bastante simples. Essencialmente um computador com um sistema operacional frugal, capaz de realizar apenas um número limitado de comandos. Ele identificou defeitos no projeto original da TV, percebendo o quão longe as empresas iam para garantir a obsolescência programada. Então, já que engenharia eletrônica era, claro, uma das muitas áreas na qual Tommy se sobressaia, ele reconstruiu a TV quase do zero. Depois das suas alterações, a TV não simplesmente voltou a funcionar, mas melhor do que antes e, apesar dele não ter ficado tempo o suficiente para saber, nunca mais daria outro problema. Ele foi para a universidade pouco depois.

Mesmo que nada no seu comportamento ou nas suas expressões indicada, Tom estava ansioso por finalmente começar sua educação superior. Se ele tivesse prestado atenção às suas emoções naquela única vez, ele poderia ter descoberto quais eram as suas esperanças para um lugar como aquele. Ele estava simplesmente buscando um desafio, algo capaz de ocupar a sua mente de uma forma que nenhum exercício anterior tinha conseguido. Seus professores o estimulavam a perseguir as conjecturas sem solução, e estender sua busca para outros campos. Ao longo do curso do seu trabalho como estudante, ele pavimentou o caminho para o reforço de estruturas sólidas através da geometria e criando planos de trajetória envolvendo aceleração por efeito estilingue de corpos celestiais, mudando para sempre o jeito como o mundo entenderia a engenharia e a astrofísica e desenvolvendo um novo ramo da matemática no caminho. Tudo isso antes de receber seu doutorado no tempo recorde de dois anos. Enquanto outros ficavam excitados com o que ele conseguia fazer, Tom permanecia perturbado. A universidade provou-se, como tudo mais, aquém das suas capacidades.

Ele passou a olhar para a imprevisibilidade como uma forma de, ao menos, ser surpreendido. O mercado de ações mostrou-lhe um pouco do que ele procurava, com tantas variáveis incontroláveis agindo ao mesmo tempo, e o fator humano em constante mudança envolvido nas negociações. Mas, no fim das contas, tudo eram números, e foi só uma questão de aprender a ler os sinais e agir dentro da janela curta de oportunidade que se abria e fechava todos os dias. Por um tempo, ele satisfez-se em ter que observar aqueles sinais e realizar seus cálculos à máxima velocidade, e o tempo curto de reação o mantinha sempre alerta. Mas não era o que ele realmente queria. Havia um pouco de excitação no mercado de ações, e certamente ganho pessoal, mas nenhum desafio, não para ele, não do tipo que ele queria. Com o tempo, assim como todo o resto, Thomas acabou se entediando com aquilo.

Seu gênio, entretanto, tornou-se amplamente conhecido. Depois de largar o mercado de ações – não sem antes sugerir algumas mudanças na maneira de observar o mercado e ter ainda mais lucro, claro – ele passou um tempo na sua universidade original como professor convidado. Se ele não conseguia encontrar um desafio à altura do seu cérebro, ele podia ao menos impressionar alguns estudantes mostrando-lhes o modo como ele observara o mundo através dos seus números. Ninguém acreditava de cara quando ele explicava a simplicidade pura com a qual resolvia as mais complexas conjecturas. Ele teria perdido a conta de quantas vezes contou a história sobre o Último Teorema de Fermat se ele não fosse, bem, ele. Ensinar lhe deu, ao menos, a satisfação de compartilhar algo de si com os outros. Porque mesmo que não houvessem mistérios no mundo dos números para Thomas, ele nunca conseguiu sentir-se acolhido em nenhum lugar. Ele era uma espécime rara, Thomas, e alguém em quem qualidades ainda mais raras apareceram ao mesmo tempo. As chances de encontrar alguém como ele eram bem menores do que ser atingido por um meteoro e por um raio ao mesmo tempo cinco vezes seguidas. Ele tinha feito os cálculos. A experiência como professor levou a outros convites, e ele viajou o mundo para falar de números para jovens mentes.

Uma aberração de circo. Uma bem conceituada, uma que todos ouviam e respeitavam, mas uma aberração de circo ainda assim. Ele sabia que, para cada plateia para a qual falava, de todos os que ouviam suas explicações com horas de duração, apenas uma pequena quantidade era realmente capaz de atingir as complexidades do que ele pensava que era tão simples. Os que podiam entender e mesmo conversar com ele como iguais, esses eram menos do que os dedos em uma mão. Na maior parte do tempo, ele falava para a diversão dos outros, nada mais. Ele subia nos palcos e proferia o fruto da sua vida de trabalho para que as pessoas pudessem experimentar um pouco do potencial da mente humana. Ele não estava realmente tocando ninguém. No longo prazo, ele seria colocado de lado como a memória de uma tarde divertida onde um cara inteligente falou sobre coisas abstratas demais para sequer prestar muita atenção. Thomas, a aberração.

Não havia nada abstrato com os números, com a matemática do mundo. Mas saber as leis que secretamente governam tudo, mesmo a natureza humana, era inútil se ele não tinha com quem conversar sobre aquilo. O mundo nunca saberia que, através dos olhos de alguém que só vê números, tudo era tão belo como sempre, talvez ainda mais. Thomas não entendia poesia, mesmo que fosse capaz de saber com certeza de uma pessoa acharia um poema em particular bom ou ruim baseado apenas nos valores rítmicos do texto e nas escolhas de vestimenta do leitor. Bem, ele não entendia a poesia das palavras, porque seus números cantavam para ele o tempo todo. Mas cantavam só para ele, e do que serve a poesia se você não pode compartilhá-la? O mundo fazia sentido para Thomas, mas ele não tinha ninguém para quem explicar.

Ele acomodou-se à vida de aberração de circo, aproveitando-se das vantagens de ao menos ter universidades renomadas como palco. Ele estava convencido de que sua mente teria melhor uso em outros lugares, mas estava sem outros desafios para superar. Com todo o tempo que tinha à sua disposição, ele dedicava apenas algumas horas do dia para encontrar novas soluções para problemas antigos. O resto do tempo ele passava sentado num banco perto de um dos vários parques em alguma das várias cidades universitárias para as quais se mudava de quando em quanto, observando pássaros voando enquanto previa seus movimentos influenciados pelo vento, ou explorando a quantidade de nozes que um esquilo conseguiria acumular dentro de uma área determinada, ou mesmo calculando o número exato de folhas de grama no chão – uma simples questão de extrapolar o número médio de uma certa área para o total e corrigir o resultado usando um algoritmo. A mente em repouso de Thomas também era preenchida com matemática.

Era uma tarde de primavera quando ele assistia uma partida amistosa de futebol entre alunos do primário. Ele viu suas previsões de quando o jogador mais rápido ficaria cansado, de quando o garoto que insistia em chutar de longe finalmente marcaria, e até a situação na qual o goleiro iria torcer o tornozelo por conta da forma como sempre caia depois de pular para pegar a bola, todas acontecerem exatamente como havia calculado. Eles estavam no intervalo do meio do jogo quando um dos garotos, respirando ofegante com o esforço extra de forma que seu corpo se resfriava à razão de um milésimo de grau com cada exalação, vir até ele com a bola debaixo do braço. Ele queria saber se Thomas era mesmo o tal professor esperto que sempre conseguia acertar os problemas de matemática. Ele divertiu o garoto dizendo que por conta da força dos chutes e do terreno desnivelado em que jogavam, sua boa provavelmente tinha a costura de um dos gomos praticamente solta, o que obviamente estava certo. Ambos os times sentaram-se em frente a ele e dispararam questões para que ele respondesse. Eram quase todas equações simples, e os garotos estavam mais interessados na velocidade das respostas do que na explicação, mas era a primeira fez em algum tempo que Thomas sentia algo parecido com alegria. Quando o apito soou a aproximação do começo do segundo tempo, todos se dissiparam de volta para o campo. O garoto com a bola permaneceu para mais uma pergunta. Ele queria saber se Thomas já tinha, alguma vez na vida, errado algum cálculo. A resposta não veio tão rápida como as outras e ele teve que juntar-se ao seu time.

Era não. A resposta era não. Do primeiro contato que o Pequeno Tommy teve com os números, às primeiras equações realmente complexas às quais Tom foi exposto na faculdade, aos desafios mais altos feitos à Thomas por seus estudantes, ele nunca tinha obtido uma resposta incorreta. Nenhuma vez. Uma improbabilidade ainda maior do que ele ser a única pessoa daquele jeito desde o começo da raça humana. Naquela noite, sozinho na residência do professor visitante, Thomas puxou o gatilho com a arma apontada exatamente entre seus olhos. Não teve tempo de calcular a velocidade da bala.

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