Pelo Caminho

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Quem não gosta das manhãs de domingo? Bem, Zoe certamente gostava. Nada para fazer, ela podia acordar na hora que quisesse – mesmo que sempre acordasse cedo, droga de hábito – e, o melhor de tudo, ela podia saborear o longo saudável café-da-manhã como ela nunca tinha tempo durante a semana. Era assim que ela estava naquela manhã de domingo em particular. A cama permaneceu no exato mesmo estado de quando ela acordou numa inamistosa sete da manhã, assim como seu cabelo, uma bagunça despenteada, seus belos cachos enroladinhos atirando-se em todas as direções de um jeito que ela sequer ousava olhar – ela fazia questão de evitar espelhos em manhãs como aquela. Ela não queria domar a sua juba a menos que precisasse. E a única coisa que ela precisava fazer naquela manhã era nada. Ela vestia um camisolão longo e confortável, e só por que isso a fazia sentir que vestia seu tipo de roupa preferida, que era não vestir nada. Mas ela tinha que abrir todas as janelas e cortinas para deixar aquele maravilhoso sol entrar e não queria chocar os vizinhos. Mal tinha chegado às nove e ela estava no seu segundo bagel quando alguém bateu à porta. Quem seria tão ousado a ponto de perturbar a manhã sagrada de domingo da Zoe? Aparentemente, ninguém. Na sua varanda, só uma caixa. Uma caixa de papelão bem grande e com cara de pesada, larga o suficiente para passar pela porta, alta o suficiente para não ser vista pelo olho mágico, mas profunda o suficiente para que Zoe coubesse inteira dentro deitada. Talvez um colchão enrolável novinho, graciosamente oferecido a ela por um benfeitor anônimo? O que quer que a caixa contivesse, era para ela. Tinha seu nome escrito em letras grandes na tampa, ZOE.

Bem, a caixa não iria sozinha para dentro da casa, então Zoe tinha que se dar ao trabalho, exatamente a sensação que ela não queria ter. Ela poderia ter deixado do lado de fora por um tempo, claro, mas ela sabia que uma pulga ficaria atrás da sua orelha até que aquele pacote comicamente grande estivesse na sua sala. Como esperado, não foi fácil. Para começar, quem quer que tenha deixado a caixa ali a tinha colocado de forma que quase tocava a porta, quase nenhum espaço para passar em volta e empurrá-la para dentro. Ela puxou até não ter mais forças, tentando criar um pouco de espaço na lateral para poder passar para trás da caixa e empurrar, mas não adiantava. Pode-se dizer que a caixa foi projetada com a porta em mente. Sem outras opções, ela saiu da casa pela porta da cozinha. Mas ela não iria colocar calças só para aquilo, ah não. Ela saiu como estava, camisolão sobre mais nada, torcendo para não ter vento. Pedido atendido, mas ela ainda teve que empurrar algumas vezes até que a caixa tivesse se movido só metade da sua largura. Ela estava recostada na parte de trás do pacote, retomando o fôlego para a próxima sessão de empurradas, quando ela viu. Todas as casas na rua tinham uma ou mais caixas na frente, parecidas com a dela, algumas maiores, outras menores, todas com o nome de uma pessoa na tampa. Uma caixa para cada morador das casas. Ela aventurou-se até a rua para olhar para os dois lados e checar o que ela já tinha certeza: até onde se podia ver, não havia nenhuma casa sem uma caixa. Ela imaginou o que teria acontecido com os prédios de apartamentos. Estariam as caixas na frente do prédio, ou nos corredores? Agradecendo aos deuses das residências e à sua admirável organização financeira que a permitiu ter uma porta dos fundos, ela voltou a empurrar o pesado volume para dentro.

Finalmente estava dentro, depois de mais empurrões do que era saudável para uma manhã de domingo. Zoe queria voltar para o seu café da manhã, tinha alguns waffles sem glúten deliciosos sobre os quais derreter manteiga e cobrir com calda de maple. Mas a curiosidade foi mais forte. Depois de fazer tanta força empurrando, ela não tinha mais forças para ignorar a vontade de ver o que tinha na caixa. Quem quer que a tenha enviado não era organizado, certamente. Parecia uma versão em miniatura de um ferro-velho, com uma porção de objetos dentro. Mas tinha algo de estranho – mais estranho do que uma caixa gigante sem nome de remetente aparecer nas casas de todo mundo num domingo de manhã. Quanto mais ela olhava para o conteúdo, mais lhe parecia familiar. Não pareciam ter relação entre si, mas de alguma forma o fato de estarem todos juntos fazia sentido. Foi então que ela se deu conta: tudo que estava na caixa, todas as centenas de objetos, pertenciam a ela. Ou costumavam pertencer, na verdade. Eram todas as coisas que ela já teve e perdeu. Todas as canetas Bic semi-usadas, que superavam todas as outras canetas juntas na proporção de sete para um, um monte de CDs fora das caixas, mais chaves do que ela poderia se lembrar o que abriam, algumas calculadoras, animais de pelúcia e outros brinquedos de infância, cachecóis e luvas e esquentadores de orelha de praticamente todos os invernos desde que ela conseguia se lembrar, escovas de dente, óculos de sol, e muitos, muitos guarda-chuvas. Tudo no mesmo estado em que estavam na última vez em que ela os viu, como se um deus benevolente dos objetos perdidos tivesse pegado tudo e mantido a salvo. Ela viu um dos guarda-chuvas ainda na embalagem de plástico, novo em folha. Depois de perder mais guarda-chuvas do que ela conseguia se lembrar, ela resolveu interromper aquele ciclo e comprou um “guarda-chuva de marca”, um que custava mais do que um guarda-chuva jamais poderia custar, para que ela pudesse ser mais cuidadosa. Se durasse, poderia até mesmo ser considerado um bom investimento, só por prevenir a compra de outros. Nunca chegou em casa depois de sair da loja, esquecido no assento do ônibus sem nunca ter sido usado.

Tudo bem, então tudo na caixa já tinha sido dela. Certo? Mas haviam coisas ali que ela não se lembrava jamais terem sido dela, quanto mais perdido. Como aquela calcinha, grande demais para ser de criança. Ela nunca tinha perdido calcinhas, tinha? Ela esticou o braço para alcançá-la e- O que é isso? Ela de repente estava na beira de um lago, cercada pelo seu grupo de amigos dos tempos da faculdade, todos cantando e dançando ao redor de uma fogueira na areia, aproveitando o álcool que ainda não poderiam estar bebendo, quando alguém decidiu ir nadar. Mas a água deve estar gelada!, disse uma das meninas. Tarde demais, os meninos estavam todos correndo para a água, deixando peças de roupa pelo caminho. Sim, sim, era então oficial e tarde demais para ser evitado: eles estavam indo nadar nus. As quatro garotas no grupo se entreolharam e, num acordo silencioso, seguiram os garotos. Blusas e shorts e sutiãs e calcinhas voaram conforme elas corriam rápido o suficiente para que a vergonha e o medo da água fria não as fizesse mudar de ideia. Depois de todos os minutos que as meninas poderiam aguentar no lago – que estava de fato frio – elas correram de volta antes dos meninos e se vestiram. Zoe não conseguiu achar sua calcinha e para não ser pega literalmente sem as calças, ela vestiu o short sem nada por baixo. Depois, ela tinha certeza que Eric tinha pegado e escondido. Aparentemente não. Tudo isso aconteceu num instante, toda a memória vívida como se ela tivesse acabado de viver aquele momento num único segundo, e sumiu assim que a sua mão não estava mais tocando a calcinha.

Uau. Aquilo tinha sido estranho. E se- é, aconteceu novamente quando ela tocou naquele guarda-chuva novo. E com a Bic dos tempos do ensino médio. Entre um flash e outro, ela percebeu um envelope colado no lado de dentro da tampa da caixa. Talvez a identidade do remetente que ela queria saber? Tinha seu nome, assim como a caixa, e nada mais. Dentro, só um cartão, um pedaço retangular de papel grosso com duas palavras: “Escolha um”. O que queria dizer? Ela deveria escolher um objeto para guardar e todo o resto seria perdido novamente? Um pouco mais de informação de vez em quando ajuda bastante, sabe? Era divertido, aquelas pequenas viagens no tempo, mas Zoe tinha um café-da-manhã esperando por ela. E não era como se a caixa fosse desaparecer, certo? O waffle teve que ser reaquecido para se conseguir o efeito derretedor de manteiga apropriado, e o seu chá já tinha passado do morno perfeito, já estava a temperatura ambiente; não era o café-da-manhã delicioso que deveria ter sido, mas era bom ainda assim. Ela leu as notícias entre uma mordida e outra no waffle e viu que o mundo inteiro estava indo à loucura por conta das caixas, o que queria dizer que, assim como ela tinha imaginado, todo mundo tinha recebido uma. Ela imaginou novamente como teria sido nos prédios de apartamentos e tentou encontrar algo sobre isso só para passar o tempo. Terminado o café, Zoe ficou na mesa, ainda lendo sobre as reações do resto do mundo às caixas de coisas perdidas. Foi preciso muita força de vontade para limpar tudo antes de deixar-se sequer olhar para a caixa novamente.

Mas lá estava ela, cheia de velhas memórias, uma oportunidade rara para reviver momentos dos bons velhos tempos. Sim, sim, melhor escovar os dentes antes de ir mais fundo. Talvez arrumar o cabelo? Também não precisava exagerar, não tinha nada de errado com o cabelo de domingo afinal de contas. De volta à caixa de uma vez, para a promessa de… menos memórias que antes? Hum. Zoe lembrava-se dela cheia até o limite, mas tinha um pouco de espaço naquela segunda olhada. Ela não tinha tirado nada da caixa, todos os objetos que ela tocou antes foram colocados de volta. Mas havia definitivamente menos coisas do que antes. Como aquele guarda-chuva, o novinho em folha. Não estava mais lá. E ela tinha certeza de que pelo menos um terço das canetas Bic tinha sumido também. Ela tentou fazer uma lista mental de todos os objetos que tinha visto antes de tocar mais qualquer coisa quando ela olhou para o estranho cartão. Escolha um. Um. De todos os objetos que você perdeu. Talvez ela devesse escolher aquela uma coisa, a uma memória para manter antes de tudo o mais desaparecer, talvez para sempre? Então escolha, Zoe! E escolha rápido. Quanto mais você esperar, menos opções vai ter. Mas como escolher entre tantas coisas perdidas, tantas memórias esquecidas?

Zoe começou a tocar todos os objetos um a um, deixando-os fora da caixa para ter certeza de nunca tocar um deles mais de uma vez. Não era uma abordagem particularmente eficiente, mas na pressa de ter o máximo possível de opções ela simplesmente não estava pensando direito. Ela assumiu que se cada viagem levava só alguns segundos – mesmo que a memória em si demorasse mais – ela poderia passar por tudo que estava na caixa a tempo de fazer a melhor escolha possível, o que quer que isso significasse. Ela nunca parou para pensar sobre o que ela faria depois que todos os momentos tivessem sido revividos. Claro que a maioria das coisas não tinha nenhum sentido especial nem evocava uma memória agradável. Ela não se importaria de nunca mais se lembrar de todos os momentos embaraçosos que viveu na escola, por exemplo. Mas havia mais na caixa do que objetos sem valor sentimental, e algumas vezes ela foi surpreendida por boas lembranças, como quando ela julgou mal a temperatura e saiu de casa sem um cachecol. O gesto gentil de um estranho aleatório tornou-se um dos relacionamentos mais longos que ela já teve, eles até viveram juntos naquela mesma casa. Ela estava tremendo enquanto esperava o ônibus de volta para casa, amaldiçoando tanto o seu mal julgamento quanto o ponto de ônibus sem abrigo quando ela sentiu o calor na nuca e viu o tecido colorido passando sobre seus ombros. Adam, era o seu nome. O cachecol, uma faixa de lã tricotada comicamente longa listrada em cores da terra brilhantes, estava não só quente do seu corpo mas também tinha o seu cheiro. Eles saíram para um chá naquele mesmo dia, quando ele explicou para ela que o seu novo cachecol tinha quase quatro metros de comprimento e era uma réplica oficial do quarto Doutor. “Doutor quem?”, ela perguntou, ao que ele sorriu e bebeu seu chá. Mas aquela não foi a memória que ela reviveu quando encostou nele. Ela sempre pensou que ele tivesse levado o cachecol consigo quando se separaram depois de dois anos morando juntos, mas ela descobriu que ela mesma tinha esquecido, assim como tantas outras coisas na caixa, num banco no metrô. Ela adorou, tanto o cachecol quanto a memória do encontro bonitinho deles, então ela o deixou de lado para talvez ser o um objeto que ela escolheria.

A caixa estava esvaziando e Zoe sequer tinha notado as coisas que já haviam desaparecido tanto de dentro dela quanto da pilha de “já tocadas”. O efeito das viagens era não só legal o bastante para fazê-la esquecer de tudo mais, mas algumas das memórias também a levaram a momentos divertidos. Ela nem estava mais olhando para o que ela pegava, simplesmente colocava a mão dentro da caixa e agarrava o que quer que estivesse mais perto da mão. Ela estava nisso a algum tempo, tocando, lembrando e largando, rindo e suspirando pelo caminho. Àquela altura, ela já tinha que debruçar-se dentro da caixa para pegar o próximo item. Seus dedos sentiram algo macio, e rapidamente seu indicador e polegar agarraram e a levaram para o banco de trás de um carro, onde ela viu as cabeças dos seus pais e ouviu-se reclamando que precisava fazer xixi. O filme na sua cabeça ficou em câmera lenta para mostrar a garota saindo do carro com um traveseirinho infantil. Um retângulo pequeno, amarelado e fofo com um desenho engraçado de coruja já praticamente apagado. “Você precisa carregar esse troço fedido para todo lado, Zoe?”, era a voz da sua mãe, prontamente ignorada enquanto a garota avançava rumo ao banheiro do posto de gasolina. Ela ainda carregava o travesseiro quando saiu, mas em algum momento entre entrar e sair da loja de conveniência ele foi trocado por um pacote de batatas fritas. Zoe, a adulta, sentiu as lágrimas enchendo os olhos e esperou que a viagem acabasse ali. Mas uma outra começou, onde ela apertava a pequena coisa forte contra o peito durante uma tempestade de raios quando tinha cinco ou seis anos, a coruja ainda bastante visível naquela época. E mais uma, suas lágrimas molhando a superfície de algodão já não tão branca porque ela ouviu o garoto de quem gostava na escola falando de outra menina. Quando ela viu o seu filme triste favorito pela primeira vez, estava segurando o travesseiro. Ela apertou seus lábios forte nele pouco depois do seu primeiro beijo, e o apertou forte na barriga durante suas primeiras cólicas menstruais. Zoe reviveu cada momento que o travesseirinho a ajudou a atravessar, e desta vez não era só como ver um filme. Havia uma aconchego interno, a sensação de que tudo, pouco importa o que acontecesse, iria ficar bem, que ela estava segura independente do que estivesse acontecendo com o mundo. Foram todas as coisas que a fizeram guardar o travesseirinho como um brinquedo especial até que tivesse catorze anos, até perdê-lo em uma loja de conveniência durante uma viagem de carro com os pais. Ela sentiu aquilo tudo, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, os olhos fechados e o travesseiro apertado contra o peito.

Quando finalmente abriu os olhos, era como se ela tivesse saído da máquina de lavar. Abraçava o travesseiro como tantas vezes o fez, e estava de volta à sua sala, segura e aquecida, o mundo instantaneamente um lugar melhor. Com as manga do camisolão, enxugou as lágrimas e olhou em volta. A caixa, e tudo que estava nela exceto o travesseiro em suas mãos, tinha desaparecido.

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