Outra Chance

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Era sábado e Kevin, como de costume, decidiu ficar na cama mais um pouco. Nada no mundo o faria sair do conforto que o aninhamento do seu edredom atingia durante a noite. Ele teria ficado ali mais uma hora no mínimo, não fosse um dos sons mais estranhos o impedindo de sequer fechar os olhos novamente. Continuar lendo

Emilia

Aí deixaram um bebê na minha porta. Assim, como se estivéssemos nos anos 1800. Eu acordei, pronto para ir para o trabalho, segurando meu café em uma das mãos e minhas chaves na outra, e quando abri a porta lá estava. Ela. Era uma menina. Toda aconchegada em uma pequena cesta, embrulhada num cobertor verde-claro, dormindo profundamente. Sem bilhete, nenhum sinal de alguém ao redor, um bebê deixado na porta de um estranho no meio da madrugada. Continuar lendo

Tatuagem de Gato

Allyson acordou assustada, como se estivesse sonhando que estava caindo, e derrubou seu celular e o copo d’água do seu criado mudo, tornando aquele começo de dia em algo já não muito agradável. Ela sentou-se no travesseiro esperando sua respiração e seu pulso voltarem ao normal antes de colocar os pés no chão gelado, perguntando-se onde teriam ido parar suas pantufas.

“Quem está aí?”, ela perguntou. “Não, sério, quem está falando?”

Sua confusão foi agravada pelo fato de que não havia mais ninguém no quarto.

“Ei, pare com isso!”, ela gritou, uma nota de medo em sua voz. “Eu disse pra parar!” Continuar lendo

A Semente

“Explica aquilo de novo.”

“Explica o quê?”

“Aquilo sobre escolhas e liberdade.”

“Tem certeza? Você disse que a sua cabeça ficou rodando na última vez. Além disso, não quero passar vergonha na frente dos seus amigos. Ou de você.”

“Você não quer passar vergonha na minha frente, ou me fazer passar vergonha na frente dos meus amigos junto com você?”

“Não vou cair nos seus joguinhos, Jason.”

“Ah, qual é, por favor!”

“É, por favor! Agora nós queremos saber também.”

“Viu? Agora estão todos esperando algo muito profundo que não sei se consigo passar.”

“E qual é a única forma de saber?”

“Espertinho.” Continuar lendo

O Homem do Trem

Eu estava lá, bem perto, do lado de fora, vendo tudo. Eu esperava pelo meu amigo, o que eu tinha esperanças de um dia tornar-se algo mais. Eu vi o homem tirar o revólver das costas, começar a atirar, logo que o trem parou. Eu ouvi os seis tiros, seis estampidos ritmados e altos mesmo que abafados pelas portas do carro ainda fechadas. Eu vi as pessoas dentro em desespero, impotentes, caindo no chão uma a uma, algumas por medo, seis delas mortas. Meu amigo. Continuar lendo

Sobras

O que a maioria das pessoas estava interessada em saber era a origem do nome, 102. É um nome bacana para um restaurante, eu acho, mas é claro que tinha uma história por trás. Bem, quando ele abriu da primeira vez, ficava em um lugar diferente e, por falta de uma ideia melhor, eles simplesmente colocaram o endereço como o nome, pendurando grandes números e letras de metal na fachada. Mas a parte do Crescent no nome, por algum motivo, nunca ficou no lugar. Mesmo feito do mesmo material que os números e pendurado da mesma forma, continuavam caindo. O 102 ficou no lugar até eles se mudarem, os mesmos três caracteres de metal usados na fachada do novo endereço. Continuar lendo

Como uma Folha numa Queimada

Sempre que eu queria relaxar, eu simplesmente a perguntava sobre seu dia. Ela tem um jeito de compor as frases e um ritmo particular em qualquer coisa que ela diz que é capaz de causar total descontração. Eu não sei como ela faz isso, mas é quase como se ela tivesse um botão ou algo que é ligado sempre que alguém a faz uma pergunta. Ela fala como se ela tivesse passado horas pensando naquilo, escrito diversos rascunhos e te apresenta um texto perfeitamente finalizado, cada palavra é importante. Mas ela faz isso na hora, todas as vezes. Eu a escuto falar como se escutasse uma canção de ninar, sendo gentilmente embalado e recebendo um cafuné ao mesmo tempo. Quando eu encosto a cabeça e suspiro alto, ela já sabe o que vai acontecer. Continuar lendo