Vende-se

Dirigindo pela estrada estreita cheia de curvas amenas, depois de um longo tempo passando pela beira de um lago à sua esquerda, indo para o norte, Kevin não conseguia parar de pensar na sorte que teve. Ele tocou sua testa onde havia um galo que ainda doía. Ele olhou para as marcas nos seus braços e nas suas mãos, formas ovais com um gradiente de cores indo do vinho nas extremidades, rosa perto da borda, para amarelo no centro. Elas lembravam as folhas nas árvores pelo caminho, tons de outono alcançando o máximo da sua beleza. Não fosse pelos verdes, o espetáculo de cores nas montanhas seria similar às que estavam no seu braço fino, seu corpo inapto para qualquer trabalho físico, ainda menos para brigas. Ainda assim, ele tinha saído vitorioso, ao menos daquela vez. Tinha dores pelo corpo todo, mas estava de pé.

De pé. Era um pouco de exagero. Ele não chegou a desmaiar, mas isso não quer dizer que ele saiba realmente o que aconteceu. Ele se lembra de ter sido atacado, um primeiro golpe no seu ombro que o jogou no chão, seguido por uma série de chutes rápidos no tórax e na virilha. Esses o forçaram a expirar, deixaram-no sem ar, e sem tempo para proteger a cabeça antes de ver o pé vindo em sua direção. Então, um estampido alto, o corpo do seu adversário caiu por si próprio. Escorregou em algo pegajoso no chão, vermelho. Sangue. Seu sangue, que escapava da sua boca em erupções dolorosas. O pé fez ainda outra tentativa, a perna movendo-se para o lado atingindo suas têmporas muito mais gentilmente do que os outros golpes e, em um movimento rápido, levantando-se novamente. Instinto puro o levou a esticar seu braço e alcançar o outro pé, puxá-lo para si enquanto o atacante ainda retomava o equilíbrio. De volta ao chão, outro estampido, seguido de mais um e de um grito. Kevin levantou a cabeça por tempo suficiente para ver seu inimigo tocando a parte de trás da sua. Parecia que teria alguns segundos para se recuperar, ficar de pé, talvez correr. Seu coração estava disparado e sua respiração estava curta e rápida. Ele ainda estava sentado quando foi puxado para cima, mãos fortes agarrando seus ombros, garras poderosas quase quebrando suas clavículas. De alguma forma, Kevin conseguiu aproveitar-se da puxada colocando um pé no peito do inimigo, seguido pelo outro e por um empurrão feroz. Foi o suficiente para livrar-se das garras, mas Kevin não tinha calculado a falta de suporte uma vez que a manobra tivesse terminado; ele caiu duro no chão, suas costas batendo no concreto como uma tábua. E então botas vindo novamente em sua direção, incansáveis, punhos cerrados ao lado.

Suas mãos doíam no volante. A estrada era linda, cercada por árvores e lagos, pequenas casas charmosas aqui e ali. Mas Kevin não estava aproveitando a paisagem. Ele não tinha escolhido aquele caminho pela sua beleza. Na verdade, não tinha feito nenhuma escolha, virando para qualquer caminho onde acreditasse haver menos tráfico. Se ele tivesse prestado atenção, a paisagem poderia tê-lo ajudado a se acalmar, aliviar um pouco da tensão das últimas horas, talvez conseguir entender o que estava de fato acontecendo.

Ele mal teve tempo de se levantar e começar a correr, sem saber para onde. Foi quando teve um primeiro vislumbre de onde estava, e também quando percebeu que não seria capaz de chegar na saída e fugir. Outro lapso de memória, incontáveis minutos – ou mesmo horas – que ele não conseguia se lembrar, e ele estava andando ao lado de um riacho, água correndo sobre um lindo leito rochoso. Havia sangue nas suas mãos, braços, e ele estava sem um dos sapatos. Sua cabeça girava e sua boca tinha o gosto amargo de vômito. Ele olhou em volta, viu uma grande construção, um tipo de antiga fábrica, e o que parecia ser o rastro do seu próprio sangue levando a ela. Curvando-se na água, ele lavou o sangue das mãos e o gosto horrível da boca, sentou ali pelo que poderia ter sido um dia inteiro.

Não saber onde estava não quer dizer que Kevin não conseguiria encontrar o lugar que estava procurando. Era uma zona rural montanhosa, era certo que ele acabaria em algo parecido com um penhasco em algum momento. Ele observou sinais de visitantes recentes, lembrando-se do quão vazia estava a estrada que o levou ali. O velho carro reclamou quando a estrada de terra ficou mais íngreme, mas continuou subindo. Só quando chegou ao topo Kevin pareceu parar e apreciar a paisagem. Uma floresta colorida cobria uma magnífica cadeia de montanhas, umas poucas casas espalhadas, a maioria perto do lago bem no meio disso tudo. Diretamente abaixo dele, um penhasco terminando em um rio escondido pelos pinheiros altos, tornando o lugar ainda mais perfeito. Ele parou o carro no ponto em que o chão dava lugar à parede rochosa. Um leve empurrão e o Dodge Colt cinza-azulado 1986 mergulhou de frente para o rio e as árvores abaixo.

Andar um pouco para cima e para baixo do riacho revelou que não havia mais nada ao redor, então ele voltou para a velha fábrica, mesmo temendo o que poderia esperá-lo dentro. O rastro de sangue levava para uma porta de aço, que abria para um vasto interior espetado por colunas. Havia móveis velhos e sucata por todo lado, exatamente o que espera-se encontrar em um lugar assim. Exceto pelo corpo preso em uma das colunas, suspenso pelo gancho de uma das velhas máquinas. Sangue pingava das mãos, e um revolver totalmente carregado estava no chão diretamente abaixo. Ele estava lutando com aquele homem, e estava perdendo. Sorte pura permitiu que Kevin vivesse para ver outro dia. Mas a arma no chão não parecia se encaixar; se o inimigo a tinha desde o começo, por que não usá-la? Relutante, ele revistou o corpo para encontrar um distintivo e uma carteira; um detetive de polícia. Corrupto, a julgar pela quantidade de dinheiro em seus bolsos e pela violência do seu ataque. Ele precisava de Kevin vivo, a julgar pelo fato de que este ainda podia respirar. Não fazia sentido, mas aquele não era o momento de descobrir o que havia acontecido. Ele tinha um outro problema para resolver.

A solução apareceu por si própria algumas curvas abaixo, na estrava que passava em frente à fábrica abandonada. $500 por um carro, não importa quão antigo ele seja, é uma pechincha. Tudo que Kevin precisava era que ele funcionasse, e funcionava. Ele não queria firulas, nem mesmo muito espaço. Só precisava de um porta-malas grande o suficiente para um corpo.

Desde o Começo

A noite já estava tão avançada que era possível considerar já manhã. Sentado em frente à sua mesa de trabalho, John olhou para a bagunça de livros abertos com várias páginas marcadas por pequenos e coloridos adesivos; um monte de papéis mostrando desenhos, esquemas, anotações e diagramas; canetas de diferentes tons e espessuras espalhadas; e seu computador com a tela brilhando, várias janelas abertas, o navegador mostrando não menos de duas dúzias de abas abertas. Continuar lendo

Perfídia

“Peraí, você nem vai assistir o filme?”
“Não, só queria te chamar pra sair.”
“Mas você pagou o ingresso!”
“É, não me deixariam entrar de outra forma.”
“Já que você está aqui, e eu disse sim…”
“Ah… Não tem nada aqui que eu queira ver. Além de você.”

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