Pelo Caminho

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Quem não gosta das manhãs de domingo? Bem, Zoe certamente gostava. Nada para fazer, ela podia acordar na hora que quisesse – mesmo que sempre acordasse cedo, droga de hábito – e, o melhor de tudo, ela podia saborear o longo saudável café-da-manhã como ela nunca tinha tempo durante a semana. Era assim que ela estava naquela manhã de domingo em particular. A cama permaneceu no exato mesmo estado de quando ela acordou numa inamistosa sete da manhã, assim como seu cabelo, uma bagunça despenteada, seus belos cachos enroladinhos atirando-se em todas as direções de um jeito que ela sequer ousava olhar – ela fazia questão de evitar espelhos em manhãs como aquela. Ela não queria domar a sua juba a menos que precisasse. E a única coisa que ela precisava fazer naquela manhã era nada. Continuar lendo

O Protetor

Minha mochila pesava mais ou menos vinte quilos, o sol estava em seu zênite, eu tinha esquecido de reaplicar protetor solar e meus óculos de sol estavam escorregando pelo meu nariz por conta do suor. Todos os elementos de uma decisão estúpida, e eu sabia. Eu sabia antes de começar a subir o morro entre os falsos gritos de encorajamento dos meus amigos trilheiros e campistas. Eu sabia que não deveria ter dado ouvidos ao desafio, que eu deveria simplesmente ter ignorado. Mas eles sabiam que eu não conseguia resistir a um “duvido”, os bastardos a quem eu concedo o privilégio de chamar de amigos. Então lá estava eu, subindo a ladeira rochosa com todo o meu equipamento, porque eles duvidaram que eu conseguiria chegar até o topo e ver se a vista era realmente tão incrível quanto eu disse que seria. Idiotas. Todos, o grupo inteiro. Inclusive eu.

Eu quis desistir no meio do caminho, mas eu sabia que teria que aguentar as provocações até o final da viagem. Quem eu quero enganar? Até o final da minha vida. Eles nunca iriam me deixar em paz. Ainda assim, a maior idiota sou eu. Sou eu quem deveria ter dito “não” pra início de conversa. Sou eu quem deveria ter dito que todos podíamos subir, deixar nossas mochilas e ir, não levaria mais que alguns minutos, e não era como se tivéssemos reservado um horário ou algo assim. Eu nunca deveria ter dado a eles a oportunidade de começar uma frase com “duvido que você…” Mas ali estava eu, quase no topo, quase não sentindo mais minhas pernas. E ainda tinha o caminho de volta, e o resto da trilha até o acampamento. Idiota.

Então eu fiquei o tempo que quis no topo. Sentei no chão, tirei algumas fotos com meu celular só para ter prova definitiva de que eu tinha chegado lá. Eu já tinha tomado metade do meu cantil, o que deveria ter durado até chegar no acampamento, quando notei que os meus não eram os primeiros pés a pisar ali. Eu não era a melhor nessas coisas, mas eu jamais chamaria o Steve para ver. Eu tentei lembrar de tudo que ele costumava dizer quando descobria algum rastro, o jeito como ele analisava. Tinha muito vento lá em cima, e a terra não estava muito compactada, o que queria dizer que as pegadas que eu estava vendo eram relativamente recentes. E iam para dois lados. Eu andei em uma das direções, vi que dirigiam-se para uma área de mato cerrado. A outra também, exceto que parecia haver uma clareira não muito longe. Quase imperceptível, mas definitivamente estava lá. Eu forcei meus olhos para focar naquele ponto específico, e não sei se era a minha mente pregando peças, mas parecia que era um pequeno acampamento, traços de fogo no chão. Eu olhei para as pegadas novamente, para o jeito como elas iam e vinham, percebi as poucas folhas quase formando uma trilha deixada por alguém carregando galhos. É o tipo de coisa que o Steve diria. Eu quis que ele estivesse ali comigo para confirmar tudo aquilo, mas eu também estava brava com ele, com todos eles. Então decidi não contar nada daquilo para ninguém e desci.

Eu não conseguia sentir mais meu ombros quando finalmente tirei a mochila, que àquela altura já pesava uns 70 quilos. Meu completo silêncio durante o resto da trilha foi o suficiente para que as provocações sobre o desafio e a subida desaparecessem durante a primeira hora. Na metade do caminho entre o morro e o local do acampamento, eles começaram a se preocupar se eu estaria muito exausta para continuar, e os três rapazes do grupo ofereceram-se para carregar o meu equipamento. Não fui tão inocente a ponto de ceder. Também estava muito distraída com a presença de mais alguém na área. Não me lembro de ter armado a minha barraca, ao ponto em que suspeito que um dos meninos o fez por mim. Provavelmente Steve.

Minha cabeça estava em outro lugar enquanto o grupo conversava em volta da fogueira na primeira noite. Eu alternava entre olhar na direção do morro e da provável localização da clareira, tentando ouvir entre os risos e baboseiras do meu grupo. Normalmente ficamos nisso a madrugada inteira na primeira noite de acampamento, mas desta vez todos vieram com uma desculpa esfarrapada para dormir mais cedo. Eles provavelmente o fizeram por mim, culpados por terem me cansado com o desafio estúpido, acreditando que meu silêncio era devido ao esforço da subida. Antes de fechar minha barraca, quando todos já estavam deitados, eu tentei ouvir atentamente mais uma vez, procurei por sinais de qualquer luz vindo da direção da clareira. Não sei se era o que minha mente queria ver, mas havia um leve tremular ao longe.

Então, na manhã seguinte, fingindo sair para uma caminhada – o que eu normalmente fazia, o que tornou as coisas mais fáceis – eu andei na direção da clareira. Mais uma vez, desejei que Steve estivesse ao meu lado, olhando para o chão e fingindo ser um índio rastreador. Entre o teatro e as explicações excessivamente longas, ele normalmente estava certo. Mas eu não era tão ruim assim com aquilo. Levei um pouco mais de tempo do que o esperado, mas achei. Não havia ninguém lá, mas havia uma espécie de cabana feita de folhas e galhos, sinais de fogo recente no chão, e as mesmas marcas de bota indo e vindo. Instintivamente, virei-me para o morro, e talvez fosse a minha cabeça novamente, mas eu pude ver uma sombra se movendo.

Eu não poderia esperar, nem mesmo sabia se deveria. Mas eu estava atraída por quem quer que estivesse ali. Eu queria conhecer aquela pessoa. Havia algo na forma como o seu acampamento estava organizado, em quão pequeno a fogueira parecia ter sido. Sem falar na cabana feita de árvores. Eu pensei sobre isso por alguns instantes e decidi deixar um bilhete. Expliquei que vi a clareira do topo do morro, que éramos um grupo de amigos acampando, a direção do nosso acampamento, dizendo que quem quer que estivesse ali era bem vindo a se juntar a nós. Eu fiquei com o bilhete na mão por um momento, sem ter certeza do que fazer, pensando no que os outros falariam se eu lhes contasse o que estava prestes a fazer. Então um barulho vindo das árvores me assustou e eu corri de volta, deixando o pedaço de papel para trás.

“Eu pensei que essas suas caminhadas fossem uma coisa para se acalmar”, disse Steve vendo-me chegar ofegante.

“Eu ouvi um barulho e me assustei…”, admiti com vergonha, contando a meia verdade o melhor que podia. Todos estavam prontos para a primeira atividade em grupo do dia: trilha até uma cachoeira próxima, algo que não tinha considerado quando deixei o bilhete. E se essa pessoa aparecesse quando não houvesse ninguém ali e levasse nossos suprimentos? Nós escolhemos aquele parque, aquela localização e aquele mês especificamente para que pudéssemos ficar em paz, e então eu convidei alguém que eu sequer havia visto. Eu tentei esquecer sobre aquilo, o que estava feito estava feito. A água massageando minhas costas tornou fácil levar minha mente para outro lugar, ao ponto em que eu tinha literalmente esquecido quando chegou a hora de voltar.

Tínhamos ficado na cachoeira o resto da manhã e a maior parte da tarde, e ninguém lembrou de levar comida além de alguns petiscos. Todos estavam famintos, e quando chegamos de volta nós rapidamente entramos nos nossos papéis usuais de cozinha de acampamento. O meu era preparar a comida propriamente dizendo, a começar por organizar três fogareiros de tamanhos diferentes. Jack organizava a comida, cortando e deixando todos os ingredientes prontos para que eu os usasse. Steve cuidava das bebidas e de arrumar a “mesa”, incluindo deixar a fogueira pronta para ser acesa já que sabíamos que já estaria de noite quando começássemos a comer. Lisa cuidava do nosso estoque, garantindo que não exageraríamos no uso de nada do que trouxemos e que teríamos suficiente para os outros dois dias em que ficaríamos ali. Julie e Eric voltaram para a cachoeira para buscar água, já que todos esquecemos de reabastecer nossos cantis.

Eles voltaram para encontrar tudo praticamente pronto, e nos sentamos com nossos garfos-colheres e outros utensílios de acampamento, comendo, bebendo e rindo. Já que ninguém estaria disponível para tocar ou cantar, Eric colocou sua caixa de som Bluetooth numa árvore ao nosso lado e providenciou a música. Ninguém ouviu os passos se aproximando, ninguém reparou na mão indo em direção ao botão de desligar da caixa de som. Todos pulamos de susto, um pouco de comida voou, quando nosso visitante nos deu sua primeira lição:

“Vocês vão atrair todo tipo de vida selvagem com esse tanto de comida espalhada por aí.”

Ele não parecia querer nos machucar. Pelo contrário, na verdade. Por trás da barba e dos cabelos desgrenhados e prateados, podíamos ver olhos cheios de generosidade. E um leve sorriso ao ver Steve “protegendo” o grupo com o seu garfo-colher. Ele olhou para nós e para o nosso acampamento, esperando que tomássemos a iniciativa seguinte.

“Você veio!”, eu disse me levantando. Todos olharam para mim com basicamente a mesma expressão. Um deles estava intrigado por quem eu poderia ser. Os outros cinco estavam intrigados pelo fato de que eu estava acolhendo aquele homem. “Quando eu estava no topo do morro, vi sinais de pegadas e uma clareira no meio do mato”, comecei a explicar. “Então esta manhã fui até a clareira e, já que não o encontrei, deixei um bilhete.” Os olhos do homem moveram-se para os meus amigos, esperando suas reações, que foram variações de um olhar dizendo “você fez o quê?” Eu ia explicar mais, compartilhar minha lógica, mas ele falou primeiro.

“Dá para perceber que não é a primeira vez que vocês fazem isso, mas ainda há coisas que vocês deveriam pensar em fazer diferente, além de estocar melhor a sua comida.”

“Desculpe, mas quem é você?”, Jack perguntou.

“Ah, perdão. Faz tanto tempo que me esqueci de como se faz isto. Meu nome é Zacharias. Mas podem me chamar de Zach.”

“Bem, Zach, você acertou uma coisa. Já fizemos isso antes, muitas vezes. Praticamente duas vezes por ano desde a faculdade, então estamos bem acostumados.”

“Hum… Então vocês sabem que uma fogueira deste tamanho não só desperdiça lenha mais também demora mais a apagar, e quando apaga deixa tudo com cheiro de fumaça.”

Todos olhamos para o fogo que tínhamos acabado de acender. Estalava alto e ainda tinha a fumaça densa e escura do começo, a parte que eu mais detesto. Zach andou até lá e, usando nada além das suas mãos, puxou alguns dos galhos do fogo, apagou-os, rearranjou os que restaram e circulou tudo com uma trincheira com pedras. Em segundos, não havia mais fumaça, o fogo ia só até a altura dos tornozelos, e ainda tínhamos a mesma quantidade de luz. “Agora, sobre a sua comida”, disse Zach, andando na direção da nossa despensa improvisada. “Isto provavelmente é uma cópia do que vocês tem em casa. Não vai funcionar aqui.” Ele apontou para os outros suprimentos empilhados ao lado de uma das barracas. “Vocês devem manter alguns tipos de comida separados dos outros. Frutas macias de frutas duras, por exemplo.” Ele pegou um cacho de bananas. “Isto aqui só vai durar mais dois ou três dias, e vai atrair moscas mesmo antes disso. Deixem embrulhado.”

“Não vamos ficar aqui mais do que isso, de qualquer forma”, disse Steve, já hipnotizado pela forma como Zach parecia estar em seu elemento.

“Sério?”, respondeu Zach. “Com esse tanto de comida, daria para ficar mais uma semana, talvez até dez dias.” Ele olhou em volta para o que, então, começou a parecer muito mais do que precisávamos. “E nem estou falando de usar o que a natureza oferece aqui. Vocês sempre trazem esse tanto de comida extra?”

Eu podia ver Jack querendo dizer que não pretendíamos levar comida de volta, mas resistindo. “O que mais você pode nos dizer?”, ele disse ao invés do que estava pensando.

“Suas barracas deveriam estar mais próximas umas das outras. Vai ajudar a conservar o calor, e tornar mais fácil a proteção contra visitas selvagens.”

“Visitas selvagens?” eu disse, pensando em mais eremitas como ele.

“Sim, animais. Há vários criaturas aqui que adorariam colocar as patas em algumas das suas coisas, e que não teriam medo de um pequeno fogo.” Lisa e eu olhamo-nos uma à outra.

“Que tipo de animais?”, ela perguntou.

“Ah, tem linces, pumas, coiotes, esquilos, marmotas, ratos. Se vocês derem sorte, podem ver um urso. Sem falar nos voadores.”

“Pássaros?”, Lisa já estava encolhida de medo.

“Sim. E morcegos, claro”, ele disse, tão casualmente como se estivesse falando do tempo. “Mas tenho certeza de que vocês pesquisaram tudo isso antes de vir para cá.” Nossos olhares mútuos nos entregaram. Seu olhar foi suficiente para que entendêssemos que tínhamos dado sorte até então.

Lisa quebrou o silêncio desconfortável que se formava. “E como você faz isso?”

“Faz o quê?”

“Sabe disso tudo.”

“Ah, eu já estou aqui há algum tempo.” Nos entreolhamos novamente, percebendo pela primeira vez com quem estávamos falando. Pelas próximas horas, ele nos ajudou a rearrumar nosso acampamento, nos mostrou como fazer uma fogueira melhor – usando nada além do que a natureza nos provia, além de tudo – e nos ensinou a diferença entre os vários tipos de comida que tínhamos levado, como separá-los por tipo e vencimento de forma que não interferissem no gosto uma da outra, durasse mais, e ficasse protegida de animais. Truques simples como manter algumas velas aromáticas, ou mesmo aquelas folhas de amaciante de roupas – que a Lisa sempre trazia para deixar suas roupas com cheiro de lavadas, e evitar que o odor ficasse muito forte depois de usadas – em volta do acampamento para evitar evitar a maioria dos visitantes. Tomar cuidado com sobras – ou, melhor ainda, evitá-las completamente. Foi quando ele falou de novo da quantidade de comida que tínhamos. Nosso cálculo de quantidade sempre esteve errado. É por isso que sempre tínhamos sobras e levávamos um pouco de volta conosco. Ele disse novamente que poderíamos ficar ali facilmente mais uma semana só com o que já tínhamos, e até mais dez a doze dias se adicionássemos o que era possível pegar na natureza sem esforço. Entendemos isso como um convite para ficar mais tempo, então ficamos. Começamos a desmontar o acampamento exatamente doze dias depois daquilo.

Zach voltou quase todo dia, ajudando-nos a redescobrir os prazeres de acampar. A gente pensava que aproveitava a natureza antes, mas ele nos mostrou um lado diferente, onde abandonávamos ainda mais nossos modos da cidade e nos entregávamos ao selvagem. E mesmo depois de tudo que ele nos ensinou, ainda queríamos saber mais, então a iminência da nossa partida nos fez soterrá-lo com mais perguntas, às quais ele respondia com alegria. Mas realmente tínhamos que ir. Nossa estadia já havia sido prolongada muito além do que esperávamos, com mais conforto e aproveitando tudo melhor, mas nossas vidas nos esperavam. Como um bom professor, ele ficou ao lado nos observando colocar tudo de volta, nos dando as últimas dicas de como dobrar melhor as barracas, arrumar as mochilas, distribuir o peso.

“Você nunca nos disse exatamente quanto tempo faz que você está aqui”, Steve perguntou. Ele era o mais interessado em tudo que Zach tinha a dizer.

Ele respondeu depois de um silêncio quase embaraçoso. “Não me lembro. Parei de contar muito tempo atrás.” Ele olhou para o morro, talvez lembrando-se da vida que tinha antes.

“E como é que deixam você morar aqui? É uma reserva florestal, um parque protegido. Eu pensei que não era permitido fazer o que você faz.” Jack não conseguia evitar pensar nos aspectos práticos e legais de tudo.

“Não me deixam. Ninguém sabe que eu estou aqui. Eu me tornei bastante bom em permanecer à sombra, evitar os olhares, como qualquer outro animal selvagem. Sua amiga aqui foi a primeira que me encontrou.” Eu podia sentir os olhares de todos em mim, especialmente do Steve.

“Não se preocupe”, disse Lisa, “não vamos contar pra ninguém.”

“Ah, eu sei”, Zach mordeu uma fruta, um pouco de suco escorrendo pela sua barba. “Senão não deixaria vocês partirem.” Ele estava tão sério quanto sempre esteve. Outra mordida na fruta e ele nos agraciou com uma piscadela, aliviando a tensão que suas últimas palavras tinham criado. Ele nos desejou um bom retorno, disse que gostou de ter companhia pra variar, e caminhou para dentro do mato.

“Espere, mas por que você pra cá?”, Jack perguntou. Mas ele já tinha desaparecido, nada além dos sons da natureza ao nosso redor. Terminamos de organizar as coisas em silêncio, fizemos o caminho de volta para os carros da mesma forma. Antes de sair, olhei em direção ao seu acampamento, esperando enxergar qualquer sinal, por mais sutil que fosse, de que ele estava ali, mas só haviam as árvores. Esperei vê-lo novamente, o protetor da floresta, nosso protetor, mesmo sabendo que provavelmente aquela tinha sido a última vez.

Lá Onde o Sol se Põe

Quando ela dispara o primeiro tiro, seu coração está acelerado, sua cabeça gira, e ela treme tanto que pensa que vai desmaiar. Ela tem certeza que errou o alvo mas, mais ou menos cem metros à frente, um homem está no chão, sangue jorrando de um buraco no seu peito. Ela está mortificada, ofegante, olhando ora para o cano fumegante ora para o corpo na sua propriedade. Um ruído vindo da casa a trás de volta.

“Sally, volte para dentro, agora!” Continuar lendo

RMS

Era o maior navio que o menino já tinha visto. Na verdade, era a maior qualquer coisa. Quando sua mãe lhe disse que eles iriam se mudar, ele não adorou a ideia, mas não foi contra também. Como um errante experiente, ele simplesmente aquiesceu. Seus poucos pertences foram fáceis de recolher; além de três ou quatro mudas de roupas e um travesseiro encardido, as únicas coisas que ele tinha de valor eram um velho cobertor e um carrinho de lata feito pelo Velho Floyd, o mendigo que fica no parque perto da sua futura ex-casa. Ele nem mesmo tinha uma mala. Continuar lendo

Pilar da Ponte de Tédio

Um Jaguar XKR-S vermelho conversível acelera através de um túnel estreito, derrapando conforme a estrada se curva à sua frente. Logo atrás, um Aston Martin Vanquish azul cobalto realiza as mesmas proezas. Um espectador inadvertido observando a cena seria forçado a olhar novamente para ter certeza; seria fácil acreditar que a mesma pessoa dirige os dois carros. Eles guincham até pararem completamente lado a lado, ignorando o fato de que a estrada com apenas duas pistas é de mão dupla. Roger, o motorista no Jaguar, levanta-se para melhor apreciar a vista. A estrada está livre, vazia e coberta por um céu azul brilhante, sem nuvens, permitindo que a vista alcance até seu ponto máximo. Ela se curva logo adiante, cercada por uma cadeia de montanhas à esquerda e um platô ondulado na direita. Ao longe, um rio e uma ponte quase tocando o horizonte. Uma vista magnífica, como um cartão postal, nos arredores da propriedade da família na Suíça.

“E aí, você topa?” Continuar lendo

Tomando Fôlego

Leva apenas cerca de 23 segundos. Assim que suas mãos tocam a água, rapidamente seguidas pelo resto do seu corpo, é como se ele tivesse entrado no seu elemento. Seus braços e pernas parecem, para quem vê de fora, se mover por conta própria. Sua cabeça, virando para baixo e para o lado, poderia muito bem ser interpretada como um sinal de alguém lutando para respirar. Mas ele está em completo controle do seu corpo, cada movimento consequência de muitas horas de treino. Continuar lendo

Carpintaria

Ela era calmo. Ele era sempre calmo. Ele andava e se movia e falava como se o tempo fosse pouco mais que um conceito abstrato. E, se pararmos para pensar, de fato não é? É verdade, ele estava pra lá dos seus setenta, mas eu não consigo imagina-lo sendo diferente enquanto jovem. Foi um prazer cuidar dele. Entre todas as histórias que se ouve de idosos molestando e humilhando seus cuidadores, é fácil ficar preocupada. Mas ele não era nem um pouco assim. Além de supervisionar as medidas de segurança quando ele trabalhava, a maior parte do tempo com ele era bastante agradável. Ele tinha um jeito se de fazer mínimo, de ser só o essencial, quase como se não estivesse lá. Continuar lendo