A Palavra

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“Cara, isto está muito bom!”, pensou Ryan quando tinha terminado. Mesmo que preto não fosse a sua cor preferida, que o chapéu esquentasse a sua cabeça, e nem precisa chegar na meia-calça, a pessoa no espelho não era ele. Era sua irmã emo-gótica-sei-lá-o-quê, do esmalte carmesim escuro até a complexão pálida enriquecida com batom escuro e sombra nos olhos. Quando ele começou a brincar com o armário de Emma, ele esperava que fosse ficar parecido, mas tinha atingido a perfeição total. Continuar lendo

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Esconde-esconde

Eu me lembro da primeira vez em que fui ao circo. Só cinco ou seis anos, rodeado por todos os sons e cores e músicas daquele lugar mágico que conseguiu a magnífica impossibilidade que é ser mais surreal que a imaginação de uma criança. Eu não estava muito a fim no começo. Era provavelmente um domingo, e eu queria ficar em casa e tomar sorvete. Nós já tínhamos ido ao parte no dia anterior e a uma festa naquela mesma semana, todas aquelas atividades sociais estavam interferindo com meu hábitos restritos de desenhos animados. Meus pais passaram uma boa hora me convencendo. Tentaram de tudo, explicaram em detalhes como haveriam trapezistas, palhaços, mágicos, um elefante fazendo truques como um cachorro. Eles apelaram para comparar tudo com o colorido e os barulhos dos desenhos animados que eu assistia. Nada funcionou. Nem mesmo prometer o sorvete mais delicioso que eu jamais tomaria. Continuar lendo

A Bússola

Vinte minutos dirigindo e mais ou menos o mesmo tempo andando, e estávamos em uma das cavernas mais sensacionais do mundo. Perto o suficiente para meus pais me carregarem pra lá praticamente todo final de semana. Mas também, considerando que é possível atravessar o país de carro em pouco mais de oito horas, não há nada realmente longe na Islândia. Meus pais adoravam explorar as cavernas, descobrir os lindos cristais e fotografar as rochas vermelhas formadas por lava vulcânica. Eu gostava das que tinham um lago interno, as águas sempre tão serenas e límpidas. É uma pena que não é permitido nadar nelas. Eu entendo agora que é provavelmente por conta da acidez e da temperatura, mas por um tempo, quando criança, eu fiquei chateada com o Povo Oculto, porque eles não me deixavam mergulhar nas suas piscinas. Continuar lendo

Interior

Ele está sentado no chão do escritório do seu apartamento, as pernas cruzadas uma sobre a outra, suas mãos gentilmente colocadas no colo. Ele respira profunda e vagarosamente, numa cadência tal que simplesmente ouvi-lo traria calma a qualquer um. Há um som no ambiente, um cântico, tão baixo que quase não é possível ouvir. Depois de quase um mês de prática, Liam finalmente consegue entender como deixar sua mente vagar, simplesmente acompanhar o fluxo e experimentar a plena consciência que tinha tanto desejo de alcançar. Continuar lendo

No que você pensa, quando pensa em amor?

No começo, a intenção era combater o crime, particularmente crime do colarinho branco. Bem, houve sucesso, mas parece que ninguém ponderou os possíveis efeitos colaterais de um aparelho como aquele na sociedade. Quando a máquina foi inicialmente introduzida, era para ser o detector de mentiras definitivo – ou o primeiro de verdade, já que os testes com polígrafo já tinham sido desacreditados tempos atrás. A ideia era pegar os malfeitores antes que eles pudessem executar seus malfeitos. Não demorou muito para os políticos temerem a máquina, e para a sociedade exigir que todas as pessoas em cargos eletivos passassem pelo seu escrutínio. A corrupção acabou, e logo depois tornou-se difícil praticar quase qualquer tipo de crime por conta do maravilhoso mecanismo. Antes caro e imprático para o usuário comum, logo tornou-se amplamente disponível, assim que a tecnologia permitiu a produção barata e a portabilidade. Continuar lendo

Sobre a Colina

Eu estava no alto da colina, observando os passageiros entrarem no trem que os levaria para outra cidade, como já tinha feito inúmeras vezes. Observava o vai-e-vem de pessoas e malas, famílias despedindo-se, funcionários checando a composição, apertando parafusos, colocando óleo. Gostava do ritmo particular que a pequena estação tinha nesta época. Logo cedo, antes do trem chegar, as poucas pessoas que ali estavam ocupavam os bancos, alguns lendo um jornal, outros verificando as malas, um impaciente, de pé, olhando o relógio a cada três minutos, eventualmente uma mãe ninando um bebê. Continuar lendo